Kohei Saito, filósofo japonês: “Antes de aumentarmos os salários, deveríamos ter mais tempo livre, porque é quando realmente podemos fazer o que queremos.”

Kohei Saito não trata o tempo livre como simples lazer depois do expediente.

Kohei Saito, filósofo japonês conhecido por discutir decrescimento, trabalho e crise ecológica, defende que a qualidade de vida não depende apenas de ganhar mais. Para ele, o tempo livre tem um papel central porque permite cuidar de relações, participar da comunidade, descansar e escolher atividades que não cabem na rotina produtiva. A frase provoca porque troca a pergunta “quanto eu recebo?” por outra mais profunda: “quanto da minha vida ainda me pertence?”

Quando o tempo deixa de ser tratado apenas como recurso econômico, a vida cotidiana muda de escala.
Quando o tempo deixa de ser tratado apenas como recurso econômico, a vida cotidiana muda de escala. - Imagem gerada por IA

O que Kohei Saito quer dizer com mais tempo livre?

Kohei Saito não trata o tempo livre como simples lazer depois do expediente. A ideia está ligada à liberdade de decidir o que fazer com o próprio dia sem que tudo seja medido por produtividade, consumo ou pressão econômica.

Na visão dele, uma sociedade que só responde aos problemas com aumento de renda continua presa à lógica de trabalhar mais para comprar mais. O tempo livre, nesse raciocínio, abre espaço para atividades sem preço imediato, como convivência, estudo, cuidado, política local, arte, esporte e descanso real.

Por que salário maior não resolve tudo?

Um salário maior pode aliviar contas, dívidas e insegurança material. Saito não ignora isso. O ponto é que dinheiro extra perde parte do sentido quando a pessoa continua sem tempo para dormir bem, cozinhar, ver amigos, cuidar da saúde ou participar das decisões que afetam o bairro e o trabalho.

Essa crítica mira a ideia de que crescimento econômico sempre melhora a vida. Quando o ganho vem acompanhado de jornadas longas, deslocamentos cansativos e consumo compensatório, a renda aumenta, mas a autonomia cotidiana continua pequena.

Como essa ideia se conecta ao decrescimento?

O decrescimento defendido por Kohei Saito propõe reduzir atividades econômicas destrutivas e fortalecer aquilo que sustenta a vida comum. Isso inclui saúde, educação, cuidado, transporte coletivo, alimentação, moradia e energia limpa, em vez de produzir cada vez mais mercadorias descartáveis.

Na prática, a defesa de mais tempo livre passa por mudanças concretas:

  • Reduzir a jornada de trabalho sem transformar descanso em privilégio.
  • Valorizar atividades de cuidado que não aparecem bem nas métricas de crescimento.
  • Diminuir o consumo usado apenas para compensar exaustão.
  • Reorganizar cidades para gastar menos tempo em deslocamentos.

    Quando o tempo deixa de ser tratado apenas como recurso econômico, a vida cotidiana muda de escala.
    Quando o tempo deixa de ser tratado apenas como recurso econômico, a vida cotidiana muda de escala. - Imagem gerada por IA

O que muda quando o tempo deixa de ser só produtividade?

Quando o tempo deixa de ser tratado apenas como recurso econômico, a vida cotidiana muda de escala. Cozinhar, caminhar, conversar, cuidar de crianças, visitar parentes ou aprender algo novo deixam de parecer interrupções da rotina e voltam a ocupar lugar central.

Essa mudança também afeta a política. Pessoas sem tempo tendem a participar menos de assembleias, conselhos, associações e decisões coletivas. Com jornadas menores, cresce a possibilidade de acompanhar problemas locais, cobrar serviços públicos e construir vínculos fora do mercado.

Essa reflexão faz sentido para a vida atual?

A frase de Kohei Saito faz sentido porque muita gente vive entre trabalho, transporte, tela e cansaço, mesmo quando consegue pagar as contas. O desconforto não vem apenas da renda, mas da sensação de que quase todo o dia já está comprometido antes de começar.

Pensar em tempo livre como riqueza muda a forma de avaliar uma vida boa. Salário importa, mas não substitui horas disponíveis para descanso, afeto, aprendizado, participação e escolhas próprias. É nessa disputa pelo uso do tempo que a crítica de Saito toca trabalho, consumo e liberdade cotidiana.