Nas civilizações antigas, existia uma maneira muito cara de cozinhar que hoje em dia deixar a comida insuportável

Os cozinheiros medievais das casas nobres criavam preparações que hoje seriam consideradas absolutamente intragáveis

10/02/2026 15:38

Imaginar um banquete medieval nos remete àquelas cenas de filmes com mesas fartas repletas de carnes assadas, pães e frutas em abundância. O que poucos sabem é que a comida servida nos salões dos nobres tinha um sabor tão intenso e carregado de temperos que a maioria das pessoas hoje cuspiria na primeira garfada. Os senhores feudais ricos competiam entre si para ver quem conseguia servir pratos mais absurdamente temperados, chegando ao ponto de usar dezessete especiarias diferentes em um único molho.

Existe um mito popular de que os medievais usavam todas essas especiarias para disfarçar o gosto de carne podre
Existe um mito popular de que os medievais usavam todas essas especiarias para disfarçar o gosto de carne podreImagem gerada por inteligência artificial

Por que os nobres medievais usavam tantas especiarias na comida?

O uso exagerado de especiarias não tinha nada a ver com realçar o sabor natural dos alimentos como fazemos hoje em dia. Na verdade, quanto mais especiarias um nobre conseguia jogar num prato, mais ele demonstrava sua riqueza e poder para os convidados. Pimenta-do-reino, canela, gengibre, cravo e noz-moscada vinham do Oriente através de rotas comerciais perigosas e custavam fortunas absurdas, valendo literalmente seu peso em ouro em alguns casos.

Servir um faisão nadando em molho com dezessete temperos diferentes era como estacionar uma Ferrari na porta de casa hoje, um grito de “olha quanto dinheiro eu tenho”. Os convidados não esperavam que a comida ficasse gostosa no sentido que entendemos, mas sim que fosse uma demonstração espetacular de luxo. Quanto mais a língua queimava e mais estranho era o sabor, melhor, porque significava que aquele anfitrião tinha recursos para importar ingredientes raríssimos que a maioria das pessoas jamais provaria na vida.

Como eram esses molhos que arruinavam completamente o sabor?

Os cozinheiros medievais das casas nobres criavam preparações que hoje seriam consideradas absolutamente intragáveis por qualquer chef moderno. Um molho típico para acompanhar carne de caça poderia levar pimenta-do-reino, canela, gengibre, açafrão, cravo, noz-moscada, coentro, cominho, cardamomo, anis, galanga, cubeba e mais meia dúzia de outros temperos misturados sem nenhum critério de equilíbrio. O resultado era uma pasta escura extremamente picante e amarga que mascarava completamente o gosto da carne.

Além das especiarias secas moídas, esses molhos frequentemente incluíam ingredientes que parecem saídos de um pesadelo culinário. As características mais chocantes dessas preparações medievais incluem:

  • Adição de açúcar em quantidade absurda misturado com vinagre forte criando combinação agridoce extrema que explodia no paladar de forma agressiva e desagradável.
  • Uso de especiarias picantes como pimenta e gengibre em doses tão altas que causavam suor e desconforto real nos comensais que precisavam engolir aquilo para não ofender o anfitrião.

A comida estragada tinha alguma relação com esse excesso de tempero?

Existe um mito popular de que os medievais usavam todas essas especiarias para disfarçar o gosto de carne podre porque não tinham refrigeração. Essa história é completamente falsa e não faz o menor sentido quando você pensa um pouco. Primeiro, especiarias custavam fortunas inimagináveis, muito mais caras que a própria carne fresca, então seria absurdo financeiramente jogar ingredientes caríssimos em comida estragada que deveria ser descartada.

Segundo, os nobres ricos que podiam pagar por essas especiarias também tinham acesso garantido a carnes frescas de caça recente e animais criados nas suas próprias terras. Eles não precisavam comer carne velha e certamente não desperdiçariam fortunas em pimenta importada para salvar um pedaço de carne ruim. O excesso de especiarias era pura ostentação, uma forma de gastar dinheiro visivelmente em algo que todos na mesa pudessem experimentar diretamente através do paladar sofredor.

Existe um mito popular de que os medievais usavam todas essas especiarias para disfarçar o gosto de carne podre
Existe um mito popular de que os medievais usavam todas essas especiarias para disfarçar o gosto de carne podreImagem gerada por inteligência artificial

Como a moda das especiarias acabou mudando com o tempo?

A obsessão medieval por entupir comida de especiarias começou diminuir gradualmente conforme esses ingredientes foram ficando mais acessíveis através da expansão do comércio marítimo. Quando a pimenta-do-reino deixou de custar uma fortuna e qualquer comerciante mediano conseguia comprar, ela perdeu o valor como símbolo de status. Os nobres precisaram encontrar outras formas de mostrar riqueza que não fossem mais jogar canela em tudo até ficar insuportável.

Por volta do século XVII e XVIII, a culinária europeia começou valorizar mais a qualidade dos ingredientes principais e técnicas refinadas de preparo ao invés de simplesmente afogar tudo em temperos. Essa transição marcou o nascimento da alta gastronomia como conhecemos hoje, onde o objetivo é realçar sabores naturais ao invés de destruí-los. As especiarias continuaram sendo usadas é claro, mas com moderação e propósito, criando harmonias de sabor ao invés daquelas bombas sensoriais medievais que eram mais sobre poder econômico do que sobre prazer culinário real.

O que podemos aprender com essa loucura culinária medieval?

A história do uso absurdo de especiarias na Idade Média nos ensina como a comida sempre foi muito mais do que nutrição ou prazer sensorial. Os banquetes nobres medievais eram performances de poder onde cada prato servia como declaração pública de riqueza e conexões comerciais. Os convidados precisavam engolir aqueles molhos horríveis sorrindo e elogiando justamente porque reconheciam o investimento financeiro monstruoso representado em cada garfada intolerável.

Essa perspectiva histórica também mostra como nossos gostos são profundamente moldados pelo contexto cultural e pelas modas da época ao invés de serem preferências absolutas e naturais. O que parecia o máximo do refinamento há setecentos anos nos parece grotesco hoje, e provavelmente muito do que consideramos sofisticado agora será visto como esquisito ou exagerado pelas gerações futuras. A lição principal talvez seja apreciar a comida pelo prazer genuíno que ela proporciona ao invés de usá-la principalmente como ferramenta de ostentação social, erro que aqueles nobres medievais cometeram de forma tão espetacularmente desagradável ao paladar.