O país que possui reservas de cobre, cobalto, diamantes, ouro, petróleo, urânio e coltan avaliadas em 24 trilhões de dólares, e ainda assim é um dos 10 mais pobres do planeta
O coltan é um mineral do qual se extraem dois metais estratégicos: o tântalo e o nióbio
Cobre, cobalto, diamantes, ouro, petróleo, urânio e coltan. Todos esses recursos estão concentrados no mesmo território, com reservas estimadas em 24 trilhões de dólares. E ainda assim, 70% da população não tem acesso à eletricidade. A República Democrática do Congo é um dos casos mais perturbadores da história econômica moderna: um país que literalmente sustenta a tecnologia do século XXI enquanto seus habitantes vivem sem o básico.

Por que a RD Congo é tão rica no subsolo e tão pobre na superfície?
O produto interno bruto per capita da República Democrática do Congo não ultrapassa 600 dólares por ano, colocando o país consistentemente entre os últimos colocados do Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. Essa contradição não é acidente nem fatalidade geográfica. É o resultado de um processo histórico longo e deliberado que começa com a colonização belga, atravessa décadas de ditadura e guerras civis e chega ao presente numa estrutura em que o fluxo de riqueza mineral sai do país sem deixar nada para quem vive sobre ele.
Mais de 100 grupos armados operam hoje no território congolês, muitos deles controlando diretamente áreas de mineração. Empresas de extração multinacionais negociam com intermediários locais, legais ou não, pagando pouco ou nada em impostos ao Estado congolês. O resultado é uma economia paralela que enriquece atores externos enquanto a infraestrutura básica do país, estradas, escolas, hospitais, permanece em colapso há décadas.
O que é o coltan e por que o Congo é indispensável para a tecnologia mundial?
O coltan é um mineral do qual se extraem dois metais estratégicos: o tântalo e o nióbio. O tântalo é componente essencial de capacitores usados em smartphones, laptops, câmeras digitais e sistemas de comunicação. O nióbio entra na produção de ligas metálicas para a indústria aeroespacial, supercomputadores e equipamentos médicos de alta precisão. Sem coltan congolês, boa parte da cadeia de produção tecnológica global simplesmente não funciona.
O Congo também concentra mais de 60% das reservas mundiais conhecidas de cobalto, mineral indispensável para as baterias de íon-lítio usadas em veículos elétricos. Num momento em que o mundo acelera a transição energética e a demanda por baterias cresce em ritmo acelerado, o subsolo congolês se torna ainda mais estratégico, e o controle sobre ele, mais disputado.

Como a colonização e a ditadura construíram essa armadilha?
A República Democrática do Congo foi explorada pela Bélgica como propriedade privada do rei Leopoldo II entre 1885 e 1908, num período marcado por atrocidades documentadas que deixaram entre 2 e 10 milhões de mortos segundo diferentes estimativas históricas. A independência chegou em 1960, mas foi rapidamente seguida pelo assassinato do primeiro-ministro Patrice Lumumba e pela ascensão de Mobutu Sese Seko, ditador que governou por 32 anos saqueando sistematicamente os recursos naturais do país com apoio de potências ocidentais durante a Guerra Fria.
- A colonização belga estruturou a economia congolesa exclusivamente para extração e exportação de matérias-primas, sem nenhum desenvolvimento industrial interno.
- A ditadura de Mobutu consolidou uma classe política corrupta que aprendeu a governar extraindo riqueza, não gerando-a.
- As guerras civis que começaram nos anos 1990 e continuam até hoje destruíram o que restava de infraestrutura estatal e fragmentaram o controle do território.
- Acordos de mineração assimétricos com empresas estrangeiras garantem pouco retorno fiscal ao Estado congolês mesmo quando a extração é feita legalmente.
O que acontece com as crianças que trabalham nas minas de cobalto?
Relatórios de organizações internacionais como a UNICEF e a Anistia Internacional documentam de forma consistente o trabalho infantil nas minas artesanais de cobalto no sudeste do Congo, especialmente na província de Katanga. Crianças a partir de seis anos de idade trabalham cavando e carregando minério à mão por alguns centavos por dia. A exposição ao pó de cobalto e aos compostos de outros metais causa danos respiratórios e neurológicos graves. Muitas dessas crianças nunca frequentaram uma escola.
A cadeia que vai da mina artesanal congolesa até o smartphone nas mãos de um consumidor em qualquer parte do mundo passa por múltiplos intermediários que diluem a rastreabilidade e a responsabilidade. As empresas de tecnologia que dependem desse material têm aumentado os programas de auditoria de fornecedores, mas a escala do problema e a fragmentação da cadeia de fornecimento tornam o controle efetivo extremamente difícil.
Existe alguma saída para essa armadilha estrutural?
Economistas e especialistas em desenvolvimento apontam que a reversão desse quadro exige mudanças em pelo menos três frentes simultaneamente. A primeira é a renegociação dos contratos de mineração para garantir que uma parcela significativa das receitas permaneça no país na forma de impostos e royalties. A segunda é o fim do financiamento externo a grupos armados que controlam regiões mineradoras, o que exige pressão política internacional sustentada. A terceira é o desenvolvimento de capacidade industrial local para processar os minerais antes de exportá-los, capturando o valor agregado que hoje vai todo para fora.
Nenhuma dessas soluções é simples nem rápida. O que torna o caso da República Democrática do Congo especialmente difícil de ignorar é que a riqueza que alimenta a crise não é abstrata. Está nos bolsos de quem lê este texto, na bateria do celular, na eletrônica embarcada no carro. O país não é pobre porque não tem. É pobre porque o que tem é retirado antes de chegar a quem vive sobre ele.