Tchau ao dia de 24 horas: a partir desta data, os dias na Terra durarão 25 horas

A principal responsável pela desaceleração é a interação gravitacional entre a Terra e a Lua

30/04/2026 04:15

A ideia de ter 25 horas em um dia parece conveniente para quem nunca tem tempo suficiente. E ela não é ficção científica: a rotação da Terra está genuinamente desacelerando, e os dias estão ficando mais longos de forma contínua e documentada. O problema é que “mais longos” aqui significa milissegundos por século, e o horizonte para que um dia completo atinja 25 horas está estimado em cerca de 200 milhões de anos. O que o tema revela, porém, vai muito além do número: a história da rotação da Terra ao longo de bilhões de anos é uma das mais fascinantes da geologia e da astronomia.

A taxa de desaceleração atual é de aproximadamente 1,7 milissegundo por século
A taxa de desaceleração atual é de aproximadamente 1,7 milissegundo por séculoImagem gerada por inteligência artificial

O que está desacelerando a rotação da Terra?

A principal responsável pela desaceleração é a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. O satélite exerce atração constante sobre os oceanos do planeta, criando as marés. O atrito gerado pelo deslocamento da água sobre o fundo oceânico durante esse ciclo funciona como um freio de longa duração, transferindo energia cinética da rotação da Terra para a órbita lunar. O resultado é duplo e interligado: o planeta gira cada vez mais devagar enquanto a Lua se afasta gradualmente da Terra, a uma taxa de aproximadamente 3,8 centímetros por ano. Esse mecanismo é chamado de força de maré lunar e opera de forma ininterrupta há bilhões de anos.

Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional vinculado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, explica que a desaceleração é sistemática desde a formação do planeta. Há cerca de 4,5 bilhões de anos, a rotação da Terra era muito mais rápida, com dias durando entre 5 e 10 horas. Há aproximadamente 600 milhões de anos, um dia tinha cerca de 21 horas. Hoje, o período completo de rotação é de 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, aquelas quatro horas de diferença em relação às nossas 24 horas que se acumularam ao longo de eras geológicas.

A quanto tempo por século a Terra está perdendo velocidade?

A taxa de desaceleração atual é de aproximadamente 1,7 milissegundo por século. Para colocar em perspectiva: isso significa que um dia hoje dura 1,7 milissegundo a mais do que durava cem anos atrás. É uma variação impossível de perceber sem instrumentos de medição de altíssima precisão. A tecnologia que torna essa detecção possível são os relógios atômicos, equipamentos capazes de medir o tempo com uma precisão tal que identificam variações de nanossegundos na duração do dia terrestre.

Com base nessa taxa, o cálculo para chegar a um dia de 25 horas exige acrescentar 3.600 segundos ao dia atual. Dividindo esse valor pela taxa de ganho de 1,7 milissegundo por século, chegamos a um prazo de aproximadamente 200 milhões de anos. Dentro de qualquer escala de tempo relevante para a humanidade, seja uma geração, um século ou mesmo mil anos, a diferença é absolutamente imperceptível sem os relógios atômicos que os cientistas utilizam especificamente para esse monitoramento.

Outros fatores também interferem na rotação do planeta?

Sim, e alguns deles são surpreendentemente cotidianos. A força de maré lunar é o mecanismo dominante no longo prazo, mas a rotação da Terra sofre pequenas variações temporárias causadas por eventos geofísicos e climáticos que redistribuem massa ao redor do planeta. Esses fatores não mudam a tendência de longo prazo, mas podem causar acelerações ou desaceleração pontuais detectáveis pelos relógios atômicos:

  • Grandes terremotos que redistribuem massa rochosa no interior do planeta alteram momentaneamente o momento de inércia da Terra, afetando a velocidade de rotação da mesma forma que um patinador que puxa os braços para o corpo gira mais rápido
  • O derretimento de geleiras transfere massa das calotas polares para os oceanos equatoriais, redistribuindo peso de forma que influencia sutilmente a velocidade de rotação ao longo de décadas
  • Variações na circulação atmosférica, especialmente os padrões de deslocamento de grandes massas de ar em escala global, produzem flutuações sazonais na duração do dia de alguns milissegundos
  • O movimento do núcleo interno sólido da Terra, que tem dinâmica própria e interage com o manto externo de forma complexa, contribui com variações de difícil previsão e ainda em investigação pelos geofísicos
  • Entre julho e agosto de 2025, o planeta registrou uma aceleração inesperada na rotação da Terra, um fenômeno monitorado por cientistas e que ainda está sendo investigado quanto às suas causas específicas
A taxa de desaceleração atual é de aproximadamente 1,7 milissegundo por século
A taxa de desaceleração atual é de aproximadamente 1,7 milissegundo por séculoImagem gerada por inteligência artificial

O que os registros do passado revelam sobre a evolução da rotação terrestre?

A evidência de que os dias eram mais curtos no passado não vem apenas de cálculos teóricos. Registros fósseis de corais e moluscos preservam marcas de crescimento diário que funcionam como um calendário biológico. Analisando espécimes de centenas de milhões de anos atrás, cientistas conseguem contar as marcas e determinar quantos dias compunham um ano naquela época. Como o ano orbital em torno do Sol permanece praticamente constante, mais dias por ano significa dias mais curtos. Esses fósseis confirmam as previsões dos modelos matemáticos da força de maré lunar com precisão notável.

Outro registro importante vem das esteiras microbianas, estruturas sedimentares formadas por colônias de bactérias que crescem em camadas diárias. Encontradas em formações rochosas de mais de 3 bilhões de anos, essas estruturas preservam informações sobre a duração do dia naquela época remota, quando a Lua estava muito mais próxima da Terra e a força de maré lunar era significativamente mais intensa do que hoje, produzindo uma desaceleração mais rápida do que a que ocorre atualmente.

O que acontecerá com a Terra quando os dias chegarem perto de 25 horas?

Em um horizonte de centenas de milhões de anos, as mudanças na rotação da Terra terão consequências que vão além da duração do dia. Com dias mais longos, os padrões climáticos e atmosféricos do planeta serão profundamente diferentes dos atuais: a distribuição de calor entre as faces diurna e noturna mudará, as correntes oceânicas serão afetadas e os ciclos biológicos de praticamente todos os seres vivos precisarão se adaptar ao novo ritmo. A Lua, por sua vez, continuará se afastando, reduzindo progressivamente sua influência sobre as marés e a estabilidade do eixo de inclinação terrestre.

Em escala suficientemente longa, alguns modelos sugerem que a rotação da Terra poderia eventualmente se sincronizar com a órbita lunar, o chamado bloqueio de maré, o mesmo fenômeno que faz com que a Lua sempre mostre a mesma face para a Terra. Nesse cenário, um lado do planeta ficaria em luz permanente e o outro em escuridão constante. Mas esse futuro está tão distante que o próprio Sol terá mudado radicalmente antes de qualquer aproximação desse ponto, tornando a especulação mais filosófica do que científica para qualquer referência humana que se queira usar.

Ciência real por trás de um título que parece exagero

A desaceleração da rotação da Terra é um fenômeno real, medido com precisão pelos relógios atômicos mais avançados disponíveis e confirmado por evidências geológicas e fósseis distribuídas em escalas de bilhões de anos. O que o título sobre “dias de 25 horas” simplifica, e que o pesquisador Fernando Roig do Observatório Nacional foi direto em apontar, é que não existe uma data estimada para isso ocorrer em qualquer sentido prático. A estimativa de 200 milhões de anos é uma extrapolação matemática baseada na taxa atual de desaceleração, não uma previsão com data marcada no calendário.

O que torna o tema genuinamente fascinante, além do título, é o que ele revela sobre a escala de tempo em que o planeta opera. A Terra que conhecemos, com seus dias de aproximadamente 24 horas, suas marés reguladas pela Lua e sua rotação da Terra estável o suficiente para toda a vida que se desenvolveu sobre ela, é um instantâneo de um sistema em movimento constante e lentíssimo, que já foi radicalmente diferente no passado e continuará mudando em um futuro que nenhuma espécie viva hoje chegará a ver.

Referências: Why the day is 24 hours long: The history of Earth’s atmospheric thermal tide, composition, and mean temperature | Science Advances