Ter gosto próprio vira o novo luxo em um mundo de algoritmos
Estudo aponta que 38,7% dos brasileiros buscam retomar preferências únicas e fugir da padronização imposta por algoritmos das redes sociais.
Pesquisas recentes na Europa e nos Estados Unidos mostram crescimento do interesse pelo “detox digital” e por experiências sociais mais autênticas. No Brasil, o cenário não é diferente e o impacto já aparece na forma como as pessoas constroem suas preferências e se relacionam com o próprio repertório.
Em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos e recomendações automáticas, cresce entre os brasileiros a percepção de que a repetição está substituindo a descoberta, alterando a dinâmica de consumo tradicional. É o que revela estudo “Reset da Mesmice”, realizado pela Heineken em parceria com a Box1824, divulgado nesta terça-feira, 28.

Segundo a pesquisa, 38,7% dos brasileiros desejam voltar a ter preferências únicas, mesmo que estas não sejam compreendidas pelo coletivo. O levantamento, feito com mais de 1000 entrevistas por todo o Brasil, aponta ainda que um em cada quatro entrevistados sente que seus gostos estão se tornando mais genéricos devido à exposição constante a sugestões automatizadas.
Para 37,7% dos entrevistados, a experiência de consumo atual é comparada a um “eterno looping”, no qual as sugestões automáticas priorizam a repetição de padrões conhecidos em vez de apresentar conteúdos ou experiências inéditas.
O impacto dessa lógica algorítmica reflete na ausência de novidades reais. Segundo o relatório, 23,4% dos participantes acreditam que o fator surpresa foi eliminado da experiência cotidiana. Esse fenômeno é explicado pela forma como as recomendações automáticas operam, reforçando o que o usuário já conhece e limitando o contato com o que é espontâneo.

“Quando o consumo é orientado por padrões que reforçam o conhecimento prévio, o novo deixa de ser uma experiência espontânea para se tornar apenas uma variação do mesmo. Esse processo afeta diretamente a construção de repertório e a relação dos indivíduos com o ambiente ao seu redor”, diz Francisco Formagio, estrategista criativo e pesquisador da Box1824.
O desejo por autonomia nas escolhas individuais
A busca por autonomia no consumo tem se tornado uma meta para parte da população. Os dados mostram que 48,9% dos brasileiros esperam depender menos de recomendações de algoritmos nos próximos anos. Além disso, para 31,1% dos entrevistados, a redução dessa interferência tecnológica já é considerada uma prioridade de bem-estar.

O movimento não indica uma rejeição total à tecnologia, mas uma revalorização da escolha individual como diferencial. Ter um gosto próprio, independentemente de validação coletiva, passa a ser uma forma de expressão. Igor de Castro Oliveira, diretor de marketing do Grupo Heineken Brasil, observa que há uma vontade crescente de sair do modo automático e retomar as descobertas por conta própria.
De acordo com o estudo, a escolha por sair de bolhas sociais e desafiar a previsibilidade das máquinas é um comportamento consciente em busca de autenticidade. O interesse por construir tendências próprias, em vez de apenas segui-las, ganha espaço em um ambiente marcado pela previsibilidade dos filtros digitais.
A dificuldade de distinguir o que é vontade própria do que é sugestão tecnológica também aparece como um fator relevante. Quase metade dos brasileiros não consegue fazer essa diferenciação de forma clara. Esse cenário impulsiona iniciativas que incentivam o questionamento da lógica de recomendações e a abertura para vivências menos mediadas.
Vida noturna e experiências fora do digital
A tendência de busca por originalidade também atinge a vida noturna e o lazer presencial. O fomento a experiências que ocorrem fora do alcance dos algoritmos aparece como uma necessidade de descompressão da rotina digital. O objetivo é evitar que o consumo de entretenimento seja limitado a variações do que já foi consumido anteriormente em plataformas de redes sociais.

Nesse contexto, a busca por experiências menos previsíveis e mais autênticas é vista como um novo valor de mercado. O estudo reforça que a repetição, impulsionada pela automação, está sendo substituída, gradualmente, pelo interesse na descoberta orgânica de lugares, músicas e produtos. As empresas passam a observar esse movimento de “reset” como uma oportunidade de dialogar com um público que se sente saturado pela mesmice. A provocação feita no estudo questiona até que ponto a inteligência artificial deve ditar o repertório cultural de uma sociedade que demonstra sinais de cansaço com a previsibilidade.
“Durante muito tempo, as marcas foram guiadas pela ideia de previsibilidade e precisão. O que a gente começa a ver agora é uma abertura para experiências que não estão totalmente resolvidas de antemão, que permitem descoberta, erro e interpretação. Isso muda a forma como as marcas se relacionam com as pessoas”, diz o executivo.
Os dados finais do levantamento indicam que o desejo por escolhas menos automáticas não é uma tendência passageira, mas um posicionamento diante das escolhas de vida. A revalorização da surpresa e do desconhecido se estabelece como um contraponto à eficiência dos filtros que organizam o consumo digital contemporâneo.