Uma forma de vida foi detectada em Chernobyl que não apenas resiste à radiação, mas parece usá-la para crescer

A vida em Chernobyl surpreende pesquisadores com um fungo que usa radiação como energia e pode mudar as viagens espaciais

21/04/2026 07:01

A natureza possui uma capacidade de adaptação que desafia os limites do conhecimento humano e revela segredos fascinantes escondidos em ambientes extremos. Em meio aos escombros radioativos de Chernobyl, uma descoberta extraordinária mostrou que certas formas de vida não apenas sobrevivem à radiação, mas aprenderam a utilizá-la para prosperar. Esse fenômeno biológico rompe paradigmas e abre portas para inovações que podem mudar o futuro da exploração espacial e da proteção humana contra contaminantes invisíveis.

A capacidade de regeneração e absorção de radiação desses organismos abre caminho para a construção de habitats sustentáveis em Marte.
A capacidade de regeneração e absorção de radiação desses organismos abre caminho para a construção de habitats sustentáveis em Marte.Imagem gerada por inteligência artificial

Como o fungo de Chernobyl transforma radiação em energia?

Pesquisadores identificaram que o fungo Cladosporium sphaerospermum demonstra um comportamento incomum chamado radiotropismo, onde ele cresce ativamente em direção a fontes de radiação intensas. Esse organismo parece realizar um processo biológico análogo à fotossíntese das plantas, utilizando raios gama para sustentar seu desenvolvimento celular de maneira eficiente.

A energia captada permite que o fungo construa biomassa de forma acelerada, apresentando um crescimento cerca de vinte por cento superior em ambientes de alta exposição nuclear. Estudos laboratoriais confirmaram que a absorção de nutrientes também é potencializada pela presença dessa radiação, transformando um elemento anteriormente mortal em um combustível vital para a espécie.

Qual é o papel da melanina nesse processo biológico?

A chave para essa resistência e conversão energética reside na alta concentração de melanina presente nas células desse organismo fúngico peculiar. Esse pigmento escuro funciona como um escudo protetor e, simultaneamente, como um transdutor que converte a energia eletromagnética em energia química utilizável para a manutenção da vida em locais hostis.

Além de garantir a integridade do DNA celular contra danos severos, a melanina organiza a estrutura biológica para que a radiação seja canalizada de maneira segura. Para compreender melhor como esse pigmento atua em diferentes cenários extremos, os especialistas destacam os seguintes pontos fundamentais sobre seu funcionamento celular:

  • Absorção eficiente de raios gama para produção de biomassa constante.
  • Proteção robusta contra a fragmentação do material genético do fungo.
  • Capacidade de adaptação térmica em ambientes com alta carga radioativa.

Como a NASA pretende utilizar essa descoberta no espaço?

A agência espacial americana realizou testes rigorosos na Estação Espacial Internacional para verificar se esses fungos poderiam servir como uma blindagem biológica eficiente. Os resultados mostraram que uma camada fina de biomassa foi capaz de reduzir os níveis de radiação em quase dois por cento, sugerindo um potencial enorme para futuras missões.

O fenômeno do radiotropismo permite que o microrganismo utilize raios gama como combustível biológico para crescer em ambientes extremos.
O fenômeno do radiotropismo permite que o microrganismo utilize raios gama como combustível biológico para crescer em ambientes extremos.Imagem gerada por inteligência artificial

A aplicação dessa tecnologia viva poderia facilitar a construção de habitats em Marte ou na Lua, onde a exposição aos raios cósmicos é um desafio crítico para os seres humanos. Ao utilizar materiais que se regeneram sozinhos e se fortalecem com o tempo, a segurança dos astronautas seria garantida de forma muito mais sustentável e econômica para os projetos espaciais.

Por que essa descoberta é um marco para a biotecnologia?

O entendimento da radiossíntese revoluciona a forma como encaramos os limites da biologia moderna e as possibilidades de recuperação de áreas degradadas por acidentes nucleares. Através da manipulação genética desses fungos, é possível imaginar o desenvolvimento de novos materiais capazes de limpar solos contaminados e oferecer novas camadas de proteção industrial.

O futuro da pesquisa agora foca em replicar esses mecanismos naturais para criar dispositivos de proteção e novos fármacos altamente resistentes ao estresse oxidativo severo. As principais vantagens observadas no uso dessas propriedades biológicas inovadoras incluem a eficiência na filtragem e outros aspectos relevantes listados abaixo:

  • Desenvolvimento de trajes espaciais com camadas de proteção biossintéticas.
  • Criação de filtros industriais para conter vazamentos em usinas nucleares.
  • Produção de medicamentos que mimetizam a reparação celular da melanina.

Como essa pesquisa impactará as futuras gerações?

O estudo desses fungos radiotróficos é apenas o começo de uma nova era na compreensão da sobrevivência em condições extremas e na busca por soluções inovadoras. A capacidade de transformar ameaças invisíveis em fontes de subsistência biológica inspira uma reavaliação completa das estratégias de segurança e de desenvolvimento tecnológico em escala global.

a) imagem de microscopia óptica dos “fantasmas” de melanina de C. neoformans; (b–e) Imagens TEM de “fantasmas” de C. sphaerospermum derivadas de células cultivadas em meios ricos ou deficientes em nutrientes: b) ágar de batata dextrose; c) ágar dextrose de Sabaroud; d) ágar aquático com caseína; e) ágar aquático com dextrose. Ampliação original: imagem de microscopia óptica – X 1.000; Imagens TEM – X 13.000.
a) imagem de microscopia óptica dos “fantasmas” de melanina de C. neoformans; (b–e) Imagens TEM de “fantasmas” de C. sphaerospermum derivadas de células cultivadas em meios ricos ou deficientes em nutrientes: b) ágar de batata dextrose; c) ágar dextrose de Sabaroud; d) ágar aquático com caseína; e) ágar aquático com dextrose. Ampliação original: imagem de microscopia óptica – X 1.000; Imagens TEM – X 13.000. - Créditos: Dadachova et al./PLoS ONE

Com o avanço das ferramentas de engenharia genética e da biotecnologia, o segredo guardado em Chernobyl poderá ser a chave para colonizar novos mundos e proteger o planeta. Os avanços técnicos continuam a provar que a vida encontra caminhos inesperados para florescer, mesmo onde acreditávamos que apenas o perigo e o isolamento poderiam existir.

Referências: Ionizing Radiation Changes the Electronic Properties of Melanin and Enhances the Growth of Melanized Fungi | PLOS One