Uma salamandra mexicana capaz de regenerar membros inteiros faz algo ainda mais estranho do que curar: o axolote reabre partes de seu projeto embrionário e as utiliza para reconstruir o que foi perdido.

As células da pele cobrem rapidamente o ferimento e formam um epitélio especializado.

O axolote, salamandra mexicana conhecida cientificamente como Ambystoma mexicanum, consegue reconstruir pernas inteiras com ossos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e pele. Em vez de apenas fechar o ferimento com uma cicatriz, o animal reativa sinais usados durante o desenvolvimento embrionário e recupera informações sobre qual parte do membro precisa ser formada.

A expressão “projeto embrionário” é uma metáfora para redes de genes e moléculas que organizaram o membro durante o desenvolvimento.
A expressão “projeto embrionário” é uma metáfora para redes de genes e moléculas que organizaram o membro durante o desenvolvimento. - Imagem gerada por IA

O que acontece logo depois que o axolote perde um membro?

As células da pele cobrem rapidamente o ferimento e formam um epitélio especializado. Abaixo dessa camada, células de diferentes tecidos mudam seu comportamento, multiplicam-se e participam da formação do blastema, uma estrutura temporária que concentra as células responsáveis pela reconstrução.

O blastema não é apenas uma massa de células indiferenciadas. As células preservam parte de sua origem e recebem sinais que orientam crescimento, posição e diferenciação, permitindo que o novo membro apresente as estruturas corretas na ordem adequada.

Como o animal recupera seu projeto embrionário?

A expressão “projeto embrionário” é uma metáfora para redes de genes e moléculas que organizaram o membro durante o desenvolvimento. Durante a regeneração, algumas dessas instruções voltam a operar:

  • genes de desenvolvimento são reativados perto da área lesionada;
  • sinais químicos informam se as células estão próximas do ombro, cotovelo ou extremidade;
  • nervos fornecem estímulos necessários para manter o blastema em crescimento;
  • células locais produzem novamente os tecidos compatíveis com sua origem;
  • o crescimento termina quando o membro recupera tamanho e formato adequados.

Qual é o papel da memória de posição das células?

Para reconstruir corretamente uma perna, o organismo precisa saber onde ocorreu a perda. Um estudo publicado em 2025 identificou um mecanismo de memória posicional no qual células da parte posterior do membro mantêm atividade residual do fator de transcrição Hand2, herdada do desenvolvimento.

Depois da amputação, essa memória ajuda a estabelecer um centro de sinalização com a molécula Shh. A interação entre Hand2 e Shh orienta a formação do eixo posterior do novo membro, evitando que as estruturas cresçam em posições incorretas.

A expressão “projeto embrionário” é uma metáfora para redes de genes e moléculas que organizaram o membro durante o desenvolvimento.
A expressão “projeto embrionário” é uma metáfora para redes de genes e moléculas que organizaram o membro durante o desenvolvimento. - Imagem gerada por IA

Quais estruturas precisam trabalhar juntas durante a regeneração?

A reconstrução não depende de um único gene ou tipo celular. Diferentes sistemas precisam trocar informações durante todo o processo:

  • o epitélio da ferida protege a área e envia sinais ao blastema;
  • os nervos sustentam a multiplicação das células regenerativas;
  • fibroblastos ajudam a conservar informações sobre a posição;
  • vasos sanguíneos abastecem os tecidos em formação;
  • músculos, cartilagens e ossos recuperam suas estruturas específicas;
  • sinais como Wnt, Shh e ácido retinoico orientam crescimento e organização.

Esse mecanismo poderá ajudar seres humanos a regenerar membros?

Humanos possuem vários genes de desenvolvimento encontrados no axolote, mas nossas lesões complexas normalmente terminam em cicatrização, e não na formação de um blastema capaz de reconstruir uma perna inteira. Reativar apenas um desses genes não seria suficiente, pois seria necessário controlar inflamação, crescimento, posição e diferenciação sem provocar tumores ou tecidos desorganizados.

O valor científico do projeto embrionário reativado está em revelar como células adultas recuperam instruções antigas sem perder totalmente sua identidade. A pesquisa ainda está distante de permitir a regeneração de membros humanos, mas pode orientar estudos sobre cicatrização, reparo de nervos, reconstrução de tecidos e medicina regenerativa.