Animais de estimação podem ser tão bons para a saúde mental quanto um parceiro, diz estudo

Pesquisa científica mostra que conviver com cães e gatos aumenta a satisfação com a vida em nível comparável a relações humanas próximas

06/01/2026 17:02

Durante muito tempo, a relação entre humanos e animais de estimação foi vista apenas sob o prisma do afeto e da companhia. Agora, evidências científicas robustas mostram que esse vínculo vai muito além do aspecto emocional intuitivo.

Um novo estudo revela que a presença de cães e gatos em casa pode gerar ganhos reais e mensuráveis para a saúde mental, comparáveis a marcos importantes da vida adulta, como casar-se ou manter contato frequente com familiares e amigos.

Em um cenário marcado por estresse, isolamento social e sobrecarga emocional, os animais de estimação surgem como aliados consistentes do bem-estar psicológico.

Conviver com cães e gatos aumenta a satisfação com a vida em nível comparável a relações humanas próximas
Conviver com cães e gatos aumenta a satisfação com a vida em nível comparável a relações humanas próximas - VioletaStoimenova/istock

Animais de estimação e bem-estar emocional

Pesquisadores da Universidade de Kent descobriram que pessoas que vivem com cães ou gatos relatam níveis mais altos de satisfação com a vida. Os dados indicam que os pets ajudam a reduzir a sensação de solidão, oferecem conforto emocional e funcionam como reguladores naturais do estresse cotidiano.

Segundo os autores, os benefícios emocionais de conviver com um animal são semelhantes aos de interações sociais humanas frequentes. Em termos práticos, isso significa que o pet ocupa um papel social relevante, oferecendo presença constante, previsibilidade emocional e sensação de pertencimento.

Como o estudo chegou a essas conclusões

O levantamento analisou dados do Estudo Longitudinal de Domicílios do Reino Unido, uma das maiores bases de dados sociais do país. Foram avaliadas mais de 2.600 respostas de 769 participantes ao longo do tempo.

Para garantir precisão científica, os pesquisadores controlaram fatores como:

  • idade
  • nível educacional
  • renda
  • estado civil
  • traços de personalidade

Além disso, foi utilizado um método estatístico avançado chamado variável instrumental, que permite identificar relações de causa e efeito. Nesse caso, comportamentos associados à posse de animais, como cuidar da casa de vizinhos, ajudaram a isolar o impacto real dos pets sobre a felicidade.

O resultado foi claro: não se trata apenas de pessoas felizes que tendem a adotar animais. Ter um cachorro ou gato, de fato, aumenta a satisfação com a vida.

Pets como amortecedores do estresse e da solidão

Um dos achados mais relevantes do estudo é o papel dos animais como amortecedores emocionais. A convivência diária com um pet cria rotinas, oferece contato físico e reduz o sentimento de isolamento, especialmente em pessoas que vivem sozinhas ou trabalham remotamente.

Em tempos em que especialistas alertam para uma epidemia de solidão, esse dado ganha ainda mais peso. A interação com animais fornece estímulos emocionais constantes, reduz a percepção de ameaça e contribui para maior estabilidade psicológica.

Ter a presença de um animalzinho em casa reduz o sentimento de isolamento
Ter a presença de um animalzinho em casa reduz o sentimento de isolamento - VioletaStoimenova/istock

Implicações para a saúde pública e para a sociedade

As conclusões do estudo vão além do ambiente doméstico e abrem espaço para reflexões importantes sobre políticas públicas. A psiquiatra Ashwini Nadkarni, da Harvard Medical School, destacou que os animais de estimação podem ser aliados estratégicos no enfrentamento da solidão e de problemas de saúde mental em larga escala.

Especialistas sugerem que esses dados poderiam embasar programas comunitários com pets, iniciativas de apoio emocional e estratégias preventivas em saúde mental.

Pets devem ser considerados membros da família

Outro ponto levantado pela pesquisa é a forma como os animais são tratados legalmente. Em muitos países, cães e gatos ainda são classificados como propriedade, com valor apenas financeiro.

Diante dos benefícios comprovados para o bem-estar humano, os autores defendem uma revisão desse entendimento. Reconhecer os pets como parte da estrutura familiar teria implicações importantes, inclusive em disputas judiciais, separações e decisões sobre guarda.

Moradia e acesso aos animais de estimação

O estudo também reforça a necessidade de regras mais flexíveis em moradias alugadas. Restrições à presença de animais podem limitar o acesso a um fator comprovadamente benéfico para a saúde mental.

Permitir pets em imóveis residenciais não é apenas uma questão de preferência pessoal, mas pode ser entendido como uma medida que impacta diretamente a qualidade de vida e o bem-estar psicológico da população.

Animais influenciam rotinas, emoções, hábitos de saúde e até a forma como as pessoas se conectam com o mundo
Animais influenciam rotinas, emoções, hábitos de saúde e até a forma como as pessoas se conectam com o mundo - VioletaStoimenova/istock

Passear com o pet também melhora a saúde física

Além dos ganhos emocionais, a convivência com animais traz benefícios físicos. O educador físico André Della Creche, especialista em fisiologia do exercício pela UNIFESP, destaca que o hábito de passear com o pet contribui para a saúde do animal e do tutor.

Segundo ele, apesar das diferenças entre as espécies, os sistemas fisiológicos são semelhantes. A prática regular de caminhada atua diretamente no condicionamento aeróbico, favorecendo o funcionamento do coração e dos pulmões e incentivando um estilo de vida mais ativo.

Um vínculo que impacta corpo, mente e sociedade

Os dados reforçam algo que muitos tutores já percebem no dia a dia: animais de estimação não são apenas companhia. Eles influenciam rotinas, emoções, hábitos de saúde e até a forma como as pessoas se conectam com o mundo.

Ao demonstrar que os benefícios emocionais dos pets se equiparam aos de relações humanas próximas, a ciência amplia o debate sobre o papel dos animais na sociedade contemporânea e reforça a importância de enxergá-los como parte essencial da vida moderna.