Baunilha na perfumaria: entenda por que a nota mais clássica voltou a ser tendência

Por EdiCase
24/04/2026 14:00

Por décadas associada ao etil maltol, um composto aromático sintético com cheiro semelhante ao algodão-doce, responsável por reforçar perfumes gourmand intensos e açucarados, a baunilha passa por um processo de compreensão e reinvenção na perfumaria contemporânea. Considerada uma das matérias-primas mais nobres e emblemáticas da história das fragrâncias, ela retorna em destaque em composições mais complexas, elegantes e multifacetadas.

Se antes evocava sobremesas e perfumes adolescentes populares nos anos 1990 e 2000, hoje a vanilla ressurge em interpretações mais sofisticadas e complexas, que vão das versões licorosas, amadeiradas, defumadas, salgadas e transparentes ao novo gourmand. A mudança acompanha a evolução do comportamento do consumidor, que busca fragrâncias capazes de transmitir conforto emocional, personalidade e refinamento olfativo.

A baunilha deixa de cumprir apenas o papel de conforto imediato e é reinterpretada como construção artística, uma obra olfativa que revela nuances, textura e identidade própria em cada fragrância. De acordo com a especialista em perfumaria Alessandra Tucci, fundadora da Paralela Escola Olfativa, referência no estudo da perfumaria e associada exclusiva da escola francesa Cinquième Sens, essa transformação reflete uma mudança mais ampla: “O perfume deixou de ser um acessório de sedução e passou a atuar como experiência sensorial e expressão pessoal.”

A era dos comfort scents

A ascensão dos chamados comfort scents impulsiona o retorno da baunilha. Notas cremosas e envolventes criam sensação de acolhimento e proximidade, favorecendo perfumes versáteis para o dia a dia. Nessa leitura, a baunilha aparece equilibrada por almíscar, flores leves e madeiras cremosas como sândalo, resultando em fragrâncias envolventes e elegantes.

Sugestões de produtos: Club Black Eau de Parfum, de Mercedes-Benz.

Influência oriental

Na perfumaria árabe contemporânea, a baunilha ganha profundidade ao ser combinada com âmbar, especiarias, madeiras e resinas. O resultado são perfumes mais densos e marcantes, distantes da ideia juvenil tradicionalmente associada ao ingrediente. “Essa interpretação evidencia o uso da baunilha de forma mais sensual e complexa, pensada para criar presença e longa duração na pele”, explica Alessandra Tucci. A leitura reforça a longevidade das fragrâncias e dialoga com consumidores que buscam impacto olfativo e performance prolongada.

Sugestões de produtos: Ghala, de Al Wataniah; Lychee Musk, de Arabiyat; Sahr al Kalimat, de Sahari.

Na perfumaria de nicho, a baunilha ganha narrativa e identidade artística (Imagem: Valentyn Volkov | Shutterstock)
Na perfumaria de nicho, a baunilha ganha narrativa e identidade artística (Imagem: Valentyn Volkov | Shutterstock)

A baunilha como arte olfativa

Outra vertente da tendência está na perfumaria de nicho, que transforma a vanilla em narrativa olfativa. Mais do que uma nota balsâmica, o ingrediente passa a carregar origem, técnica e identidade artística. Segundo a especialista, essa abordagem reflete a busca crescente por perfumes autorais e conceituais.

“Na perfumaria de nicho, ela deixa de ser apenas uma nota confortável e passa a contar uma história. Um exemplo é Vanilla Tanà, lançamento da casa italiana Gritti, que utiliza favas de baunilha maceradas no interior de troncos ocos de antigos baobás. Esse processo adiciona nuances amadeiradas e terrosas à fragrância, criando uma interpretação texturizada da matéria-prima.”

Novas facetas

Além das leituras confortáveis, orientais e autorais, há as interpretações mais experimentais, refletindo o desejo contemporâneo por perfumes sensoriais e menos previsíveis. Nas versões balsâmicas e amadeiradas, a vanilla surge menos adocicada e mais estrutural, combinada a madeiras, couro suave, vetiver e incenso, resultando em fragrâncias elegantes e alinhadas ao movimento do luxo discreto e à estética genderless. A defumada explora contrastes mais profundos ao lado de resinas, tabaco e acordes tostados, revelando um caráter quente e sofisticado.

Já a leitura salgada ou mineral combina acordes marinhos, âmbar cinza e almíscares limpos, criando perfumes que remetem ao cheiro natural da pele e reforçam a tendência dos skin scents. Por último, a baunilha transparente aparece em composições leves e luminosas, equilibradas por flores delicadas e musks suaves, em uma abordagem especialmente relevante em mercados de clima quente, como o brasileiro.

Sugestões de produtos: Animale Seduction Femme, de Animale.

O retorno do gourmand

A redescoberta da vanilla também acompanha o renascimento do gourmand, mas sob uma nova perspectiva. Em vez das fragrâncias excessivamente doces que marcaram os anos 1990 e 2000, a perfumaria atual aposta no chamado neo-gourmand. Nessa abordagem, ela aparece combinada a notas tostadas, lactônicas, amendoadas, café, cacau ou pistache, criando perfumes que evocam memória afetiva e prazer sensorial sem perder sofisticação.

O gourmand deixa de ser associado exclusivamente ao público jovem e passa a representar conforto emocional, autenticidade e expressão individual, elementos centrais no comportamento do consumidor contemporâneo.

Sugestões de produtos: Vanilla Addiction, de Gulf Orchid; Royal Marina Red Diamond, de Marina de Bourbon.

Por Caroline Amorim