Cientistas descobrem por que o apetite desaparece repentinamente quando você está doente
Seu intestino possui um sistema interno que silenciosamente avisa ao seu cérebro para parar de comer quando você está doente
Quem já teve uma doença estomacal grave reconhece o padrão. Mesmo depois que os piores sintomas desaparecem, o apetite frequentemente some e pode demorar a retornar. Esse mesmo efeito é experimentado por milhões de pessoas em todo o mundo que convivem com infecções crônicas por vermes parasitas. Apesar de ser tão comum, os cientistas têm dificuldade em identificar exatamente o que causa essa perda de apetite.
Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco identificaram a via biológica que liga a resposta imunológica do intestino ao cérebro durante uma infecção parasitária. Seu trabalho demonstra como os sinais do sistema imunológico podem reduzir ativamente o apetite.
“A questão que queríamos responder não era apenas como o sistema imunológico combate os parasitas, mas como ele recruta o sistema nervoso para alterar o comportamento”, disse o coautor sênior David Julius, PhD, professor e chefe do Departamento de Fisiologia da UCSF e ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2021. “Descobrimos que existe uma lógica molecular muito elegante por trás de como isso acontece.”
O estudo, publicado na revista Nature em 25 de março, revelou uma forma inesperada de comunicação entre dois tipos de células. Essa descoberta também pode ajudar a explicar uma série de problemas digestivos, incluindo intolerâncias alimentares e síndrome do intestino irritável.

Como as células intestinais se comunicam com o cérebro
A pesquisa concentrou-se em dois tipos de células incomuns encontradas no intestino. As células tufadas atuam
como detectores que percebem parasitas e iniciam defesas imunológicas. As células enterocromafins (EC) liberam sinais químicos que estimulam vias nervosas conectadas ao cérebro. Sabe-se que essas células EC produzem sensações como náusea, dor e desconforto intestinal geral, mas não estava claro se elas interagem diretamente com as células tufadas.
“Meu laboratório tem interesse há muito tempo em como as células tufadas, após responderem inicialmente a uma infecção parasitária, liberam sinais para outros tipos de células”, disse o coautor sênior Richard Locksley, MD, imunologista da UCSF.
Para investigar, a primeira autora, Koki Tohara, PhD, pesquisadora de pós-doutorado na UCSF, utilizou células sensoriais geneticamente modificadas, posicionadas próximas às células tufadas sob um microscópio. Quando as células tufadas foram expostas ao succinato, um composto liberado por vermes parasitas, as células sensoriais próximas emitiram luz. Isso revelou que as células tufadas estavam liberando acetilcolina, uma molécula sinalizadora tipicamente associada às células nervosas.
Quando a acetilcolina foi introduzida em tecido intestinal cultivado em laboratório contendo células EC, essas células responderam liberando serotonina. Isso, por sua vez, ativou as fibras nervosas vagais, que transmitem sinais do intestino para o cérebro.
“Descobrimos que as células tufadas fazem algo que os neurônios fazem, mas por um mecanismo completamente diferente”, disse Tohara. “Elas usam acetilcolina para se comunicar, mas sem nenhum dos mecanismos celulares usuais que os neurônios utilizam para liberá-la.”
Um sinal atrasado que explica a perda de apetite.
Os pesquisadores também descobriram que as células tufadas liberam acetilcolina em duas fases distintas. Isso ajuda a explicar por que a perda de apetite geralmente aparece mais tarde do que imediatamente após a infecção.
Inicialmente, as células tufadas liberam uma breve dose de acetilcolina. À medida que a resposta imune se intensifica e o número de células tufadas aumenta, elas começam a produzir uma liberação mais lenta e sustentada do mesmo sinal. Essa liberação prolongada é forte o suficiente para ativar as células EC e enviar sinais ao cérebro.
“Isso explica por que você se sente bem no início, mas depois começa a se sentir mal à medida que a infecção se estabelece”, disse Julius. “O intestino está essencialmente esperando para confirmar se a ameaça é real e persistente antes de avisar o cérebro para mudar seu comportamento.”
Implicações mais amplas para distúrbios intestinais
Para testar se essa via afeta o comportamento fora do laboratório, a equipe estudou camundongos infectados com vermes parasitas. Camundongos com função normal das células tufadas comeram menos à medida que a infecção progredia. Em contraste, camundongos que não conseguiam produzir acetilcolina em suas células tufadas continuaram a comer normalmente. Isso confirmou que a via de sinalização controla diretamente as alterações no apetite.
Essas descobertas poderão eventualmente ajudar a orientar novos tratamentos para sintomas relacionados a infecções parasitárias.
“Controlar a produção de células tufadas pode ser uma forma de controlar algumas das respostas fisiológicas associadas a essas infecções”, disse Locksley, observando que as implicações podem ir além dos parasitas.
As células tufadas são encontradas em diversas partes do corpo, incluindo as vias aéreas, a vesícula biliar e o sistema reprodutivo, e não apenas no intestino. Alterações nessa via de sinalização recém-identificada podem desempenhar um papel em condições como a síndrome do intestino irritável, intolerâncias alimentares e dor visceral crônica.