Como reconhecer a falta de vitamina B12 no corpo?
Os sintomas iniciais da deficiência de vitamina B12 são inespecíficos
A vitamina B12 é um dos nutrientes mais importantes para o funcionamento do organismo, mas sua deficiência é também uma das mais silenciosas e subdiagnosticadas ao redor do mundo. Os sintomas raramente aparecem de forma abrupta e dramática. Eles se instalam de forma gradual, muitas vezes confundidos com cansaço comum, estresse ou envelhecimento natural, o que faz com que muitas pessoas convivam com níveis insuficientes por meses ou anos antes de receber um diagnóstico. Saber reconhecer os sinais que o corpo envia é o primeiro passo para buscar avaliação médica no momento certo e evitar que danos reversíveis se tornem permanentes.

Quais são os primeiros sinais que o corpo dá quando a B12 está baixa?
Os sintomas iniciais da deficiência de vitamina B12 são inespecíficos, o que significa que se parecem com diversas outras condições e raramente levantam suspeita imediata de problema nutricional. O cansaço persistente que não melhora com descanso adequado, a sensação de fraqueza generalizada, a dificuldade de concentração e os lapsos de memória mais frequentes do que o habitual estão entre as queixas mais comuns relatadas por pessoas que posteriormente recebem o diagnóstico de deficiência. Segundo revisão publicada no American Family Physician em 2017, assinada por Langan e Goodbred, a vitamina B12 afeta múltiplos sistemas do organismo e as manifestações clínicas variam de fadiga leve a comprometimento neurológico severo, dependendo da gravidade e do tempo de evolução da deficiência.
A palidez ou levemente amarelada da pele, resultado do comprometimento da produção de glóbulos vermelhos saudáveis, é outro sinal precoce que muitas pessoas atribuem ao cansaço sem investigar a causa. Quando a B12 está insuficiente, a medula óssea produz glóbulos vermelhos maiores e imaturos, chamados megaloblastos, que têm vida útil menor e capacidade reduzida de transportar oxigênio de forma eficiente. Esse quadro, conhecido como anemia megaloblástica, é uma das manifestações clínicas clássicas da deficiência e geralmente aparece antes dos sintomas neurológicos mais graves.
Como a deficiência de B12 afeta o sistema nervoso?
O sistema nervoso é particularmente vulnerável à falta de vitamina B12 porque esse nutriente é essencial para a produção e manutenção da mielina, a bainha protetora que envolve os nervos e permite a transmissão eficiente dos impulsos elétricos. Quando os níveis de B12 ficam insuficientes por tempo prolongado, a mielina começa a se deteriorar, comprometendo a condução nervosa em diferentes partes do corpo. Os sintomas neurológicos que surgem a partir desse processo incluem formigamento ou dormência nas mãos e nos pés, sensação de choque elétrico ao movimentar o pescoço, dificuldade de equilíbrio ao caminhar e, em casos mais avançados, fraqueza muscular progressiva nos membros.
Um dado relevante destacado na revisão do American Family Physician é que o armazenamento substancial de B12 no fígado pode atrasar o aparecimento dos sintomas clínicos por até dez anos após o início da deficiência. Isso significa que o organismo consegue compensar a falta de absorção adequada por um período prolongado, usando as reservas acumuladas, mas quando essas reservas se esgotam, os sintomas surgem com intensidade maior do que se tivessem se desenvolvido de forma gradual. Por esse motivo, pessoas de grupos de risco devem fazer monitoramento periódico dos níveis séricos mesmo na ausência de sintomas evidentes.
Confira o vídeo do canal Dr. Juliano Teles, com mais de 500 mil visualizações mostrando os sintomas da falta de vitamina B12:
Quais sinais menos conhecidos também indicam deficiência de B12?
Além dos sintomas mais conhecidos, existem manifestações da deficiência de B12 que raramente são associadas a esse nutriente no primeiro momento e que por isso atrasam ainda mais o diagnóstico. Reconhecê-los amplia a capacidade de identificar o problema antes que ele se agrave. Os sinais que merecem atenção especial são:
- Alterações na língua e na boca: a glossite, que é a inflamação da língua com aparência avermelhada, lisa e dolorida, e as aftas recorrentes são manifestações orais reconhecidas da deficiência de B12. A língua perde as papilas gustativas normais e adquire uma superfície uniforme e sensível, o que pode dificultar a alimentação e ser confundido com problemas bucais de outra origem. Segundo a revisão publicada no PMC pelos National Institutes of Health sobre o estudo Health, Aging and Body Composition, alterações orais estão entre as manifestações menos investigadas da deficiência.
- Alterações de humor, ansiedade e depressão: a vitamina B12 participa da síntese de neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, e sua deficiência pode contribuir para quadros de irritabilidade, alterações de humor, ansiedade e depressão. Em alguns casos, especialmente em idosos, a manifestação predominante da deficiência é psiquiátrica, com confusão mental e alterações de comportamento que chegam a ser confundidas com demência incipiente antes de o nível de B12 ser investigado.

Quem tem mais risco de desenvolver deficiência de B12?
A deficiência de vitamina B12 não afeta todas as pessoas com a mesma probabilidade, e conhecer os grupos de maior risco é fundamental para definir quem deve fazer rastreamento mesmo sem sintomas evidentes. De acordo com a revisão do American Family Physician de 2017, os grupos que merecem atenção especial e avaliação periódica são pessoas que seguem dieta vegetariana ou vegana sem suplementação adequada, já que a B12 está presente quase exclusivamente em alimentos de origem animal. Adultos acima de 75 anos também integram esse grupo porque a capacidade de absorver a vitamina diminui progressivamente com a idade, assim como usuários de metformina por mais de quatro meses e usuários prolongados de inibidores de bomba de prótons ou bloqueadores H2, medicamentos amplamente prescritos para gastrite e refluxo que reduzem a absorção gástrica da vitamina.
Pessoas com condições que afetam a mucosa do estômago ou do intestino, como doença inflamatória intestinal, doença celíaca não tratada ou histórico de cirurgia bariátrica, também têm risco elevado porque a absorção da B12 depende de um mecanismo que envolve o estômago e o intestino delgado funcionando de forma íntegra. O diagnóstico é feito por exame de sangue que mede o nível sérico de B12, sendo que valores abaixo de 150 picogramas por mililitro são diagnósticos de deficiência segundo o American Family Physician, e valores entre 150 e 350 pg/mL em pacientes com sintomas sugestivos indicam a dosagem complementar de ácido metilmalônico sérico para confirmar se há impacto funcional real nos tecidos, mesmo com nível sérico limítrofe. A avaliação e o tratamento devem sempre ser conduzidos com orientação médica, já que a causa da deficiência determina diretamente a forma mais eficaz de reposição.