Sempre quis aprender a dançar forró, mas não tem par? Conheça as aulas gratuitas do Forró do Bom no centro de SP

Aulas gratuitas no Anhangabaú desconstruem papéis de gênero, acolhem quem não tem par e fazem do forró uma grande rede de apoio no coração de São Paulo.

06/04/2026 12:59

Sabe aquela vontade guardada na gaveta de aprender a dançar forró, que sempre esbarra na desculpa do “ah, mas eu não tenho par” ou “eu sou muito duro pra dançar”? Pois é, pode ir esquecendo isso. Se você quer se jogar na pista sem medo de errar o passo, o coletivo Forró do Bom é o seu novo rolê obrigatório em São Paulo.

Toda quinta-feira à noite, o concreto do Vale do Anhangabaú, bem no coração da capital, se transforma em um verdadeiro salão de dança a céu aberto. O foco do projeto é democratizar o acesso à cultura e ao movimento de um jeito totalmente descomplicado.

Você não precisa fazer inscrição prévia, não precisa pagar mensalidade e, definitivamente, não precisa chegar acompanhado. É só aparecer, abrir um sorriso e entrar na roda.

De domingos vazios a noites lotadas: a história do coletivo

A história dessa ocupação urbana começou em 2022, mas o cenário inicial era bem diferente. A idealizadora do projeto, Ellen Trizi— professora e produtora cultural com mais de duas décadas dedicadas ao forró e multipremiada na área —, conta que os primeiros encontros aconteciam aos domingos, na hora do almoço.

Ela e seu irmão, Felipe, passavam horas tocando música para um vale quase vazio. A virada de chave veio quando eles estudaram o fluxo da cidade e mudaram o rolê para as noites de quinta-feira. O sucesso foi imediato e, hoje a pista bomba toda semana.

O beabá do passinho (faça chuva ou faça sol)

Conheça as aulas gratuitas do Forró do Bom no centro de SP
Conheça as aulas gratuitas do Forró do Bom no centro de SP - Ellen Trizi / Arquivo Pessoal

A dinâmica das aulas é pensado para abraçar todo mundo (do nível zero ao forrozeiro mais experiente). Se você nunca deu um “dois pra lá, dois pra cá” na vida, o seu horário é às 20h.

Essa primeira hora de aula é 100% voltada para os iniciantes. É o momento de aprender o básico com muita paciência: como abraçar, a postura correta, a marcação e aquele primeiro girinho para já sair dançando na mesma noite.

Logo na sequência, rola a aula intermediária, com sequências um pouco mais complexas, onde você pode participar ou simplesmente ficar curtindo a vibe da galera.

E não tem desculpa nem se o tempo fechar na terra da garoa: quando chove, a aula não é cancelada, ela apenas migra para debaixo do Viaduto do Chá ou para a Galeria Prestes Maia. O importante é não deixar a zabumba parar!

O fim do “dama e cavalheiro”

O que faz o Forró do Bom ser tão especial não é apenas a gratuidade, e sim a forma moderna e respeitosa de se ensinar dança a dois. Esqueça aquela regra engessada e antiquada de “dama e cavalheiro”. A didática do projeto descontrói os papéis de gênero: ali, a regra é que uma pessoa conduz e a outra é conduzida, independentemente de quem você seja.

O projeto levanta a bandeira de um ambiente seguro e livre de assédio.

“A gente está sempre ali educando. Educando os homens sobre o que é permitido e o que não é, e educando as mulheres para saberem qual é o seu limite, o que é confortável ou não, para formarmos uma cena mais acolhedora. Não estamos ali apenas para ensinar dança, mas para educar como cultura”, explica Ellen.

Não à toa, é super comum ver alunas veteranas aprendendo a conduzir, invertendo os papéis tradicionais, ou alunos mais antigos chegando cedo no Vale só para ajudar a receber com carinho quem está pisando no asfalto para dançar pela primeira vez.

Muito além da dança: a pista como rede de apoio

Conheça as aulas gratuitas do Forró do Bom no centro de SP
Conheça as aulas gratuitas do Forró do Bom no centro de SP - Ellen Trizi / Arquivo Pessoal

É justamente por causa desse acolhimento genuíno que o projeto ganha contornos muito maiores do que uma simples aula. Em uma metrópole que muitas vezes adoece e isola as pessoas, a pista de forró se tornou um verdadeiro espaço de cura e conexão humana.

Ellen compartilha o lado mais sensível dessa ocupação urbana:

“Tem muita gente que está em processo de depressão, lidando com separações difíceis, e acaba vindo nas aulas. Muita gente vem falar comigo dizendo que o forró salvou a vida delas. Eu fico muito feliz e impressionada de ver como a gente consegue, através de um processo acessível e da arte, salvar tanta gente”.

Seja para curar um coração machucado, fazer novos amigos, encontrar um amor ou simplesmente suar a camisa depois do expediente, o recado está dado: o forró é nosso, é de graça e está te esperando.