A cidade catarinense que guarda casas subterrâneas de 1.100 anos

São José do Cerrito reúne um dos maiores conjuntos de casas subterrâneas pré-coloniais do Sul do Brasil

No coração da Serra Catarinense, um município de pouco mais de oito mil habitantes abriga um dos mais importantes conjuntos arqueológicos do Sul do Brasil. Em São José do Cerrito, pesquisadores identificaram dezenas de estruturas subterrâneas construídas por povos originários há cerca de 1.100 anos, revelando parte da ocupação humana do planalto catarinense muito antes da chegada dos colonizadores europeus.

As chamadas casas subterrâneas estão distribuídas em diferentes áreas do município e representam vestígios de assentamentos dos povos Jê Meridionais, ancestrais de grupos como Kaingang e Xokleng. Escavadas abaixo do nível do solo, essas estruturas serviam como moradia e ajudavam a proteger seus habitantes das condições climáticas da região.

São José do Cerrito abriga o maior número de casas subterrâneas do sul do país
São José do Cerrito abriga o maior número de casas subterrâneas do sul do país - Márcio Diniz/Catraca Livre

O patrimônio arqueológico de São José do Cerrito levou o município a receber o título de Capital Nacional das Casas Subterrâneas. Em algumas áreas já estudadas foram identificadas mais de 100 estruturas pré-coloniais, entre casas subterrâneas, aterros e formações anelares associadas à ocupação indígena do planalto serrano.

As pesquisas arqueológicas realizadas na região pelo Instituto Anchietano de Pesquisas, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), ajudam a reconstruir a história desses grupos. Os trabalhos de campo desenvolvidos ao longo de anos permitiram identificar vestígios de fogueiras, artefatos líticos, fragmentos cerâmicos e outros elementos que ajudam a compreender o modo de vida dessas populações.

Vestígios espalhados pelo planalto

Os estudos indicam que as casas subterrâneas eram construídas por meio da escavação do terreno. Em vez de erguer paredes acima do solo, os habitantes aprofundavam a estrutura no terreno, deixando visível apenas a cobertura. Algumas dessas habitações chegavam a atingir até 20 metros de diâmetro e seis metros de profundidade.

Réplica da casa subterrânea que está sendo construída pela prefeitura de São José do Cerrito
Réplica da casa subterrânea que está sendo construída pela prefeitura de São José do Cerrito - Márcio Diniz/Catraca Livre

Na localidade de Rincão dos Albinos, uma das áreas pesquisadas por arqueólogos, foram registradas dezenas de estruturas distribuídas em diferentes sítios arqueológicos. As análises apontam períodos prolongados de ocupação humana, reforçando a importância da região para a compreensão da presença dos povos Jê Meridionais no Sul do Brasil.

Pesquisadores do Instituto Anchietano de Pesquisas durante escavações
Pesquisadores do Instituto Anchietano de Pesquisas durante escavações - Pedro Ignácio Schmitz/Arquivo pessoal

No interior dessas estruturas, arqueólogos encontraram vestígios como fogueiras, artefatos e fragmentos de cerâmica, oferecendo insights valiosos sobre os hábitos e a cultura dos antigos habitantes da região.

Além do valor científico, o patrimônio arqueológico passou a ser visto como uma oportunidade para diversificar a atividade turística da Serra Catarinense. A proposta é integrar história, cultura e preservação em roteiros capazes de gerar renda para proprietários rurais e ampliar a permanência dos visitantes na cidade.

Ilustração mostram como eram as casas subterrâneas no Cerrito
Ilustração mostram como eram as casas subterrâneas no Cerrito - Divulgação/ADREL

Foi nesse contexto que surgiu um projeto para reconstruir uma casa subterrânea utilizando técnicas ligadas ao conhecimento indígena tradicional. A iniciativa reúne prefeitura, entidades regionais, como a Agência de Desenvolvimento da Região dos Lagos (ADREL), Associação dos Municípios da Serra Catarinense (Amures)  e o Sebrae, e representantes da comunidade Laklãnõ Xokleng.

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Turismo e participação indígena

A construção do primeiro protótipo de casa subterrânea começou neste ano em uma área do futuro Centro Integrado de Cultura de São José do Cerrito. O trabalho é conduzido por integrantes da Aldeia Bugio, da comunidade Laklãnõ Xokleng, de José Boiteux.

Lola Guimarães explica como funcionavam essas estruturas
Lola Guimarães explica como funcionavam essas estruturas - Márcio Diniz/Catraca Livre

Com aproximadamente 36 metros quadrados e formato circular, a estrutura está sendo construída em um bosque próximo à Secretaria de Turismo do município. Segundo Lola Maringoni Guimarães, secretária de turismo de São José do Cerrito, a escolha do local seguiu critérios definidos pelos próprios indígenas, incluindo aspectos culturais e espirituais ligados à tradição do povo Xokleng.

A casa fica cerca de 1,60 metro abaixo do nível do solo, reproduzindo características identificadas nas estruturas arqueológicas da região. O objetivo é criar uma referência para futuros empreendimentos turísticos em propriedades que possuem sítios arqueológicos preservados.

São José do Cerrito está construindo uma réplica de uma casa subterrânea
São José do Cerrito está construindo uma réplica de uma casa subterrânea - Onéris Lopes/Amures

“As casas subterrâneas, no Cerrito, têm todo um contexto único histórico e cultural, de resgate dos nossos antepassados”, afirma Tainara Barbosa Reitz, prefeita de Cerrito.

Projeto busca transformar patrimônio em atração turística

A estratégia envolve a participação de proprietários rurais localizados em áreas onde há concentração de estruturas arqueológicas. A proposta é criar condições para que esses locais possam receber visitantes e integrar uma rede de turismo cultural vinculada à história indígena do planalto catarinense.

A casa fica cerca de 1,60 metro abaixo do nível do solo
A casa fica cerca de 1,60 metro abaixo do nível do solo - Márcio Diniz/Catraca Livre

“Os vestígios dos povos indígenas e o protótipo edificado, deverão atrair ainda mais turistas para a região”, diz a secretária de turismo. A construção fará parte de um complexo voltado à valorização da memória regional, que também incluirá outros equipamentos culturais. A expectativa é que a iniciativa estimule a criação de roteiros relacionados à arqueologia e à presença indígena na Serra Catarinense.

O envolvimento direto da comunidade Xokleng é considerado um dos pilares da proposta. Além da execução da obra, os indígenas participam da definição dos aspectos culturais e históricos que serão apresentados ao público, garantindo que a narrativa esteja associada aos conhecimentos transmitidos entre gerações.

Hospedagem

O desenvolvimento do turismo arqueológico também encontra apoio na rede de hospedagem existente no município. São José do Cerrito oferece opções que vão de pousadas a hospedagem instalados em áreas rurais, atendendo visitantes que buscam contato mais próximo com a natureza e a história da região.

Entre os empreendimentos está a Pousada Rancho de Tábua, localizada próxima ao Rincão dos Albinos, área que concentra algumas das principais estruturas arqueológicas catalogadas no município. A localização facilita o acesso aos sítios estudados por pesquisadores e incluídos nos projetos de valorização turística.

A cidade também conta com outras alternativas de hospedagem, incluindo propostas voltadas ao turismo de natureza e à experiência no campo. Algumas priorizam estruturas mais integradas ao ambiente rural, enquanto outras apostam em acomodações de menor porte e perfil mais reservado.

É o caso das Cabanas do Arvoredo, que integram o conjunto de meios de hospedagem disponíveis para quem pretende explorar os atrativos culturais e arqueológicos de São José do Cerrito. A oferta de acomodações faz parte da estratégia de ampliar a permanência dos visitantes e fortalecer o turismo na região.

*Jornalista viajou a convite do Conserra (Conselho de Turismo da Serra Catarinense)