O que ninguém te conta sobre a vida nômade

12 partes ruins da vida nômade que ninguém vai mostrar nas redes sociais

Por: Redação

Quem nunca sonhou em jogar a vida convencional para o alto e ir viver na estrada, dentro de uma van adaptada, acordando a cada dia com uma paisagem diferente, conhecendo novos lugares e culturas, sendo finalmente livre?

A internet todos os dias nos mostra que esse estilo de vida é possível, com centenas de vídeos mostrando viajantes felizes, vivendo a vida no máximo que ela tem a oferecer e deixando os pobres mortais – que têm ponto para bater, cônjuge, crianças, periquito e cachorro esperando em casa para viver a mesma rotina de sempre – mortos de inveja.

nômades
Crédito: Livre PartidaViajar em um motorhome é uma das melhores formas de não ser turista

Como produtora de conteúdo de viagens, é bem provável que eu engrosse o time dos que vendem a possibilidade de viver uma vida diferente, em que o imprevisível está sempre à espera e as aventuras fazem parte do cotidiano. Mas, é importante que saibamos que nem tudo é um paraíso. Desde 2015 venho vivendo como nômade, de diferentes maneiras, e quero compartilhar a parte não tão glamourosa da sonhada vida “sobre rodas”. Então, aí vão alguns pontos que normalmente os vídeos no YouTube ou as lindas fotos no Instagram não mostram:

  • – O espaço pequeno é, sim, muito chato! Você tromba com as coisas e com a pessoa que vive com você o tempo todo e precisa rearranjar as coisas para adaptar o espaço à tarefa que está fazendo. Pode ser bem desconfortável passar um dia inteiro fechado dentro de um carro trabalhando ou, simplesmente, protegendo-se da chuva lá fora. E, acredite, são muitos dias em que isso acontece!
  • – Por falar em chuva, isso me lembra do próximo tópico, um dos principais, na minha opinião. Quando você vive em um carro percebe o quanto o clima interfere na sua qualidade de vida. Basicamente, o clima define o seu dia a dia. Muito frio, muito calor, vento, chuva, neve… lidar com isso constantemente pode ser bastante desafiador e é só então que você começa a valorizar o teto que tinha sobre a sua cabeça.
  • – A manutenção do veículo é parte constante do cotidiano, principalmente se você tiver um carro mais antigo. Esteja preparado para passar alguns dias –e até noites!- em oficinas mecânicas e, até mesmo, para passar por algumas situações estressantes com a sua casa sobre rodas.
  • – Num carro, recursos básicos como água e eletricidade precisam ser racionados e usados com consciência. O conforto de ter os elementos mais essenciais à disposição fica para trás quando você decide viver uma vida nômade, portanto, prepare-se para correr atrás do que antes nem precisava pensar muito a respeito.
  • – Para quem trabalha enquanto viaja, estabelecer uma rotina pode ser bem complicado. Quando você não tem uma base, mil coisas podem acontecer (e acontecem) o tempo todo e isso às vezes inviabiliza criar horários fixos, o que pode ser um risco para o seu trabalho e até mesmo para simples hábitos, como atividades físicas ou pequenos rituais.
  • – Como a estrutura da “casa” é mais precária, tudo dá mais trabalho e leva mais tempo do que seria numa vida normal. Usar água significa que você precisa encontrar uma fonte, abastecer seu reservatório e depois despejar o esgoto. Cozinhar exige preparar a cozinha, dormir exige montar a cama, depois desmontar…
  • – Estar sempre em lugares diferentes exige muito, física, mental e emocionalmente. Pode parecer que viajar é pura diversão, mas mudanças constantes exigem necessidade de adaptação contínua e isso é estressante. Sem dúvida, você deve considerar este fator, de acordo com a sua personalidade.
  • – A casa fica suja o tempo todo! Conforme-se que você vai conviver com um nível de higiene muito mais baixo do que está acostumado. Primeiro, porque você não tem água disponível à vontade. Depois, porque você vive em um carro e a poeira da estrada vai entrar, quer você queira ou não. Tudo fica empoeirado o tempo todo, principalmente para quem gosta de estrada de terra e contato com a natureza.
  • – Viajar em tempo integral pode ser um sonho, mas isso não significa que não vai haver momentos em que você gostaria de estar em casa, em que tem medo, cansaço, e aqueles em que você sente saudade da sua vida anterior. E sentir isso é normal! Na minha vida na estrada eu ficava em conflito quando tinha esses momentos, sentindo-me culpada por estar triste enquanto viajava. Demorou até aceitar que não havia problema em sentir-me triste de vez em quando. Foi por isso que, quando escrevi meu livro, Livre Partida, quis expor de forma sincera meus sentimentos; na intenção de mostrar que não existe vida ideal só porque se está vivendo um sonho.
  • – Quebrando mais um paradigma das fotos instagramáveis, nem todas as noites são passadas em “quintais” espetaculares. Acordar na beira da praia, com o som das ondas ou diante de uma paisagem de tirar o fôlego é excessão. Muitas vezes temos que estacionar em lugares feios, perigosos, sem nenhuma estrutura e passar a noite em estado de alerta.
  • – A vida na estrada pode ser muito solitária. Quando você se muda constantemente, torna-se sempre um forasteiro, alguém que vive à margem e isso tem consequências psicológicas. Estar longe de todas as pessoas que conhece é bem difícil e estar sempre conhecendo gente para em seguida dizer adeus também pode ser doloroso.
  • – Por fim, vale ressaltar que os seus problemas irão com você aonde for. Não use uma viagem como uma forma de fugir de incômodos pessoais. Não adianta nada mudar de endereço se a questão está dentro de você. Pelo contrário, a vida de viagem pode tornar tudo pior, pois intensifica ainda mais as coisas.

Espero que minhas considerações ajudem a enxergar as coisas por outro ângulo, já que normalmente só se vê uma parte do que acontece, em geral a melhor parte. Se você tem esse sonho, lembre que por trás das belas imagens e aventuras, existem momentos ruins, desafiadores, chatos, assustadores… Ao mesmo tempo, isso não significa que não valha a pena. Apenas vá preparado e viva uma das maiores aventuras da sua vida!

Por Mariana Beluco

Junto com seu parceiro, Plácido Salles, já passou por mais de 60 países; publicou o livro Livre Partida: causos e contos de uma viagem pelo mundo; ministra cursos e palestras sobre viagens e vive uma grande aventura pelo Brasil através do seu projeto, Livre Partida.

Compartilhe: