Saiba como é viajar em um liveaboard em Abrolhos, na Bahia

Por: Viagem em Pauta

Poderia ser como qualquer outra viagem pela Bahia, daquelas que tem mar de águas calmas, faixas de areia com coqueiros e vida noturna agitada para fechar o dia de atividades.

Mas a 70 quilômetros da costa, onde baleias jubarte passam férias e o fundo do mar tem mais atrativos do que o turismo em terra firme, o ritmo da viagem é outro.

É do extremo sul baiano, em Caravelas, a 250 km de Porto Seguro, que saem as embarcações que fazem viagens de três dias, explorando ilhas e pontos de mergulho do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Conhecidos como liveaboard (“viver a bordo”, em tradução literal), esses barcos são para mergulhadores e amantes do mar, em roteiros para certificados ou para quem quer fazer apenas snorkel, em alguns pontos de mergulho.

É como passar os dias seguintes, imerso em um mundo submarino, mas com as facilidades de um hotel flutuante, equipado com cabines, banheiro com água quente e almoço sempre pronto, na volta de um mergulho.

Como é a viagem

O embarque começa cedo, com café da manhã servido ainda no cais, e segue com os primeiros briefings com informações de comportamento no barco, enquanto o rio Caravelas, considerado o maior manguezal preservado do Brasil, vai ficando para trás.

Farol da Santa Bárbara, visto da ilha Siriba, em Abrolhos

Na primeira manhã de atividades marinhas, após três ou quatro horas de navegação até Abrolhos, os passageiros fazem um primeiro mergulho de reconhecimento, chamado também de check dive.

Todas as operações, guiadas exclusivamente por um condutor credenciado para atuar no arquipélago, são sempre seguidas de lanches e refeições.

No catamarã da Horizonte Aberto, que recebeu o Viagem em Pauta para essa reportagem, os passageiros viajam acompanhados de uma cozinheira que garante a alimentação pós mergulho.

O catamarã é equipado com praça de mergulho, conta com lugares para 12 passageiros, em cabines para solteiro, duplas, triplas e suíte; e tem todas as refeições incluídas e acompanhamento em desembarques em terra.

Ao longo de três dias de viagem, com pelo menos quatro mergulhos diários, os passageiros são acompanhados em trilhas em duas das cinco ilhas que formam o arquipélago de Abrolhos, dono do maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul.

O único pedaço de terra em que visitantes podem desembarcar é a Siriba, onde é feita uma caminhada monitorada com 200 metros de extensão sobre rochas basálticas. O local é conhecido pela presença de aves como a grazina e o atobá-branco.

Catamarã em Abrolhos, no extremo sul da Bahia

Sob jurisdição da Marinha brasileira e fora dos limites do parque, a Santa Bárbara não tem acesso liberado para visitantes, mas quem vai embarcado com a Horizonte Aberto costuma ser surpreendido com uma autorização especial para desembarque.

Única ilha habitada de Abrolhos, o local é conhecido pelo farol da segunda metade do século 19, ainda em funcionamento. Uma trilha curta leva os passageiros até a base da construção, cuja escadaria estreita e vertiginosa em seu interior permite aos visitantes acompanhar o pôr do sol, do alto do farol, de onde se tem vista das ilhas do arquipélago.

E a gente nunca sabe o que é melhor: ver Abrolhos do alto ou no fundo do mar.

Show de baleias

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos protege uma área de pouco mais de 91 mil hectares e é formado por outras ilhas menores e sem acesso humano, como a Redonda, Sueste e Guarita.

Mas quem nunca deixa de aparecer por ali são as baleias jubarte que, de julho a novembro, migram da Antártica para Abrolhos com o objetivo de amamentarem seus filhotes e se reproduzirem nesse que é considerado um dos principais berçários da espécie, em todo o mundo.

Em outras palavras, essas são as condições ideais para a reprodução e cuidados com as crias. “É como se fosse aquela piscina infantil do clube, um lugar ideal para mães e filhote”, compara Camargo.

Com um crescimento da população de baleias que gira em torno de 10% anuais, as jubarte têm dado um show em Abrolhos, cujas últimas estatísticas estimaram a passagem de 15 a 17 mil animais, na costa brasileira, de acordo com o Instituto Baleia Jubarte.

E, no caso de Abrolhos, isso significa ter baleias rodeando nossas embarcações, durante o trajeto até o arquipélago, e demonstrações como saltos, bem na proa do barco.

Mais mergulhos

Cada viagem tem uma programação exclusiva com pontos de mergulho mais adequados, de acordo com as condições do mar e a direção dos ventos.

Com até nove metros de profundidade e abrigado pela ilha Santa Bárbara, o primeiro mergulho costuma ser no Portinho Norte para ajuste de equipamentos e conhecimento das habilidades do grupo embarcado.

Nesse costão rochoso, marcado por pedras soltas, é possível avistar recifes de corais e peixes como budiões coloridos, badejos gigantes, cirurgiões (a Dory da animação ‘Procurando Nemo’) e cardumes de frades. Por ser uma região protegida como parque nacional, a vida marinha costuma ter uma alta tolerância com a presença humana.

Mas o que você não pode deixar de ver são os exclusivos chapeirões de Abrolhos, como são chamadas essas grandes estruturas endêmicas, em forma de cogumelo, e que permitem mergulhos ao redor e em seu interior.

O mais famoso é o Chapeirão Faca Cega, com 35 metros de altura e um salão interior, onde é possível mergulhar, em meio a espécies endêmicas que só existem em Abrolhos, como o coral-cérebro da Bahia.

É como se a mente fértil do cineasta Tim Burton e o cenário surrealista de Avatar dividissem o mesmo endereço.

Em uma mesma viagem é possível mergulhar em chapeirões de dimensões que variam de 15 metros, como os Chapeirinhos da Sueste; e o Chapeirão Atobá, a 25 metros, no Parcel dos Abrolhos.

A surrealidade cênica segue em naufrágios que podem ser explorados por mergulhadores com certificações básica ou avançada.

A primeira parada é no Rosalinda, um cargueiro italiano que naufragou em Abrolhos, em 1955. A uma profundidade de até 20 metros, a embarcação ainda tem preservadas a roda de leme e a carga de cimento que o navio levava no porão.

Outro ponto que merece ser incluído no roteiro de mergulhos é o Santa Catharina, afundado por ingleses, em 1914.

O destaque mais simpático desse mergulho é a donzela, um peixe de coloração azul que vive sozinha entre as garrafas naufragadas com o Santa Catharina. Territorialista e resistente, essa espécie é personagem fácil em todos os mergulhos que acontecem no cargueiro, garantem mergulhadores que atuam na região.

Quando ir

Para quem quer ver baleias jubarte, a temporada vai de julho a novembro, quando a visibilidade nos mergulhos não é tão boa quanto nos meses de verão.

No entanto, há saídas de catamarã para a atividade em Abrolhos, durante o ano inteiro.

Como chegar

A gente tem que confessar que chegar a esse território isolado e preservado exige disposição.

O aeroporto mais próximo de Caravelas, de onde saem as embarcações para Abrolhos, fica em Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, cujo único voo diário é operado pela Azul.

A outra opção de desembarque fica mais ao norte, em Porto Seguro, a 250 km dali. Esse destino é atendido também pela Latam e Gol.

De Teixeira, o viajante deve contratar um transfer que leva pouco mais de uma hora para chegar em Caravelas. Dali, são outras quatro horas de navegação até o arquipélago.

“Eu vejo toda essa dificuldade como um ponto positivo. A gente consegue ainda segurar isso tão intacto do jeito que vocês estão vendo.”, explica a bióloga Luciana Fuzetti, esticando, orgulhosa, os braços bem abertos, diante da ilha Santa Bárbara.

SAIBA MAIS
Parque Nacional Marinho dos Abrolhos
A taxa de visita custa R$ 84, por pessoa.

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Tags: #Nordeste
Por: Viagem em Pauta

O Viagem em Pauta é o projeto pessoal do jornalista Eduardo Vessoni, profissional que atua com turismo desde 2008 e já colocou os pés em todos os continentes.

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