Após 200 anos, sapatilhas de balé marrons chegam ao mercado

Comumente, bailarinos negros são obrigados a tingir sapatilhas cor-de-rosa devido à ausência de modelos em outros tons

Desde o início de sua carreira, Cira Robinson, assim como outras bailarinas negras, viveu o dilema de dançar com sapatinhas cor-de-rosa claro, que não combinavam com o tom de sua pele, devido a um padrão de beleza imposto pela sociedade, que beneficiava as artistas brancas.

Por conta disso, pintar o calçado com tinta spray e, mais tarde, com maquiagem, se tornou um ritual a cada nova sapatilha adquirida, já que nunca encontrou modelos em tons amarronzados que se camuflassem minimamente em seus pés.

Após anos gastando semanalmente quase cinco embalagens de base nos retoques – os quais demandavam cerca 45 minutos por par -, a bailarina da companhia “Ballet Black” encontrou uma solução: sapatilhas marrons! Em outubro de 2018, a marca fornecedora dos calçados próprios para as dançarinas passou a fabricar outros modelos especificamente para pessoas de outras etnias, nas cores marrom e bronze.

Opções de cores de sapatilhas de balé da Freed of London
Créditos: Reprodução | Instagram | freedoflondon
Opções de cores de sapatilhas de balé da Freed of London

A “Freed of London”, marca de sapatilhas associada à companhia britânica de dança, não foi a primeira a lançar no mercado modelos que fogem do tradicional rosa claro, visto que a americana Gaynor Minden já oferece essas opções há mais de um ano.

Contudo, a empresa inglesa chamou atenção exatamente por trazer ao debate a diversidade de cores no balé e a normatização do rosa como padrão, sendo que a cor se restringe a um grupo específico de artistas.

Em entrevista ao jornal London’s Evening Standard, Cira Robinson ainda levantou a questão da falta de bailarinos negros, principalmente mulheres, no balé. Para ela, apesar do crescimento da diversidade nos grupos de dança, ainda é necessário falar sobre o assunto, sobretudo, nas companhias grandes que geram dançarinos profissionais.

“A questão não é sobre sapatos, mas sobre quem pertence ou não ao balé”, disse Virginia Johnson, diretora artística do Dance Theater of Harlem, sobre a produção de sapatilhas de balé marrons em entrevista ao The New York Times. “É um sinal de que o mundo está aberto a você”.

Além das sapatilhas, a bailarina britânica conta que não apenas os calçados mostram a imposição da cor rosa como padrão, mas também as meias, os collants e os tutus.

“No balé, as pessoas têm ideias muito fortes sobre a tradição. De alguma forma, eles consideram ‘incorreto’ eu usar meia-calça marrom com o tutu. Mas eu quero apresentar meu melhor no palco. Não sou daltônica e acho que isso arruína minha silhueta”, comentou ao veículo inglês.