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Carta aberta à mulher sem máscara atrás de minha mãe na fila da padaria

Eu espero, do fundo do coração, que não seja necessário que os seus pais morram para você aprender que usar máscara é uma forma de salvar vidas

Por: Maurício Thomaz

A pandemia do novo coronavírus mudou totalmente a forma como estamos levando a vida. Na minha família não foi diferente. Tenho uma avó de 86 anos de idade que sempre recebe seus filhos e netos em sua casa, na zona sul de São Paulo, para ajudá-la com as compras e a rotina do dia a dia. Com a atual situação, eu, que moro sozinho, decidi vir morar com ela durante a quarentena. Assim, ninguém precisa entrar e sair daqui e minha vó corre o mínimo de risco possível de ser contaminada.

No último final de semana, eu tive de retornar à minha casa, pois havia deixado coisas na geladeira que precisavam ser retiradas e jogadas no lixo. Já fazia mais de 40 dias que havia saído. Fizemos uma operação de guerra. Minha mãe, que tem 50 anos de idade, veio de carro me buscar. Tanto eu quanto ela usávamos máscaras e simplesmente não nos encostamos, apesar da saudade. Passamos álcool em gel a toda hora. Ela me deixou em meu apartamento, onde pude fazer tudo o que precisava.

Na volta, minha avó havia pedido para que passássemos da padaria e a levássemos pão. Os poucos quilômetros que andamos de carro da minha casa até a padaria já demonstravam que esse processo seria mais desesperador do que imaginávamos. Menos da metade das pessoas que caminhavam pelas ruas usavam máscaras. Muitas andavam pertinho umas das outras, sem respeitar o distanciamento social.

Governador João Doria assina decreto que recomenda uso de máscara em São Paulo

Crédito: Rike_ / iStockO uso da máscara é imprescindível para evitarmos o contágio pelo novo coronavírus

Quando paramos na padaria, minha mãe saiu do carro para ir comprar pão, já que sou eu quem devo ficar com a minha vó, e não queremos colocá-la em risco. A padaria estava lotada e minha mãe se demorou um pouco mais do que eu imaginava, cerca de 20 minutos para comprar uns pães.

Ao entrar no carro, ela começou a desabafar em tom enérgico: “olha, Maurício, não é possível. As pessoas estão sem juízo algum. Primeiro que a padaria estava lotada, e nem todo mundo estava de máscara. Quando eu fui para a fila, fiquei pouco mais de um metro de distância da pessoa à minha frente, respeitando o distanciamento social e tudo o mais. De repente eu vejo que a mulher atrás de mim estava grudada às minhas costas, e sem máscara. Olhei feio para ela, falei do distanciamento, e ela deu com os ombros. Um absurdo!”, me contou.

É por isso que estou escrevendo esta carta aberta. À mulher que estava grudada às costas de minha mãe, eu desejo reflexão. Desejo empatia. Desejo informação. Procure ler sobre o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Até hoje, 28 de abril, há mais de 3 milhões de infectados pelo novo coronavírus ao redor do globo, e já foram confirmadas mais de 210 mil mortes. No caso do Brasil, já são mais de 67 mil casos, e 4,6 mil óbitos. Sem contar as subnotificações, que são muitas.

Se esses números não conseguem te tocar e não conseguem te incentivar a usar máscaras, eu não sei mais o que te fará ter consciência sobre os perigos da covid-19. Nas últimas 24 horas, houve recorde de mortes no estado de São Paulo. De ontem para hoje foram registrados 224 novos óbitos, elevando para 2.049 as vítimas fatais da doença.

Eu espero, do fundo do coração, que não seja necessário que os seus pais morram para você aprender que usar máscara é uma forma de salvar vidas. Nem que ninguém da sua família ou de seu círculo de amizades precise enfrentar a dor que deve ser enterrar um ente querido sem estar presente em seu funeral. Deve ser uma das piores sensações do mundo, e é isso que milhões de pessoas já estão vivendo.

Agora, o que me resta é ficar na torcida para que você não tenha contaminado minha mãe. A mim. Ou a minha vó. Tudo por causa da falta de um pedaço de pano na cara. E de vergonha.

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Por: Maurício Thomaz

Editor Executivo de Redação. Libriano com traços piscianos. Amante da praia e do concreto. Rolês no centro de São Paulo são os meus preferidos. Mas que tal falar de política e de futilidade num boteco com cerveja barata?!