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Influencer negra pede opção ‘racismo’ nas denúncias do Instagram

Cobrança é feita em um abaixo-assinado direcionado à rede; Sabrina Caetano aponta comentários e contas racistas que não foram excluídos pela plataforma

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Crédito: Rede socialA jovem é criadora de conteúdo digital há mais de dois anos

Se você encontrar um comentário racista em algum post no Instagram e quiser reportá-lo à plataforma, não achará “racismo” entre as oito opções de denúncia disponíveis. Vítima de ataques do tipo em seu perfil, a criadora de conteúdo digital Sabrina Caetano está exigindo que o Instagram reveja suas políticas a fim de incluir o crime no sistema de denúncias. O pedido é feito em um abaixo-assinado, que em poucos dias já engajou 20 mil pessoas.

Na petição online, hospedada na plataforma Change.org, a influenciadora narra que já perdeu as contas de quantas vezes presenciou publicações, comentários e contas “explicitamente racistas” na rede social. A jovem lamenta o fato e considera irresponsabilidade da empresa reduzir todos os tipos de discurso de ódio a uma única opção. “Racismo é algo muito mais sério e específico”, diz a criadora de conteúdo digital no abaixo-assinado.

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O Instagram apresenta oito itens ao usuário que deseja denunciar um comentário: nudez ou atividade sexual; símbolos ou discurso de ódio; violência ou organizações perigosas; venda de produtos regulamentados ou ilícitos; bullying ou assédio; violação de propriedade intelectual; suicídio, automutilação ou distúrbios alimentares; e simplesmente não gostei.

Resta a quem quer comunicar comentários ofensivos direcionados a pessoas negras e indígenas, por exemplo, o item relacionado a discurso de ódio, sem qualquer especificação sobre o cometimento de um ato racista. “O Instagram tem 1 bilhão de usuários, mas não oferece sistema de denúncia específico para racismo”, indigna-se Sabrina na petição.

A influencer conta que a motivação para criar uma mobilização em torno do assunto resultou de ataques que ela e outros criadores de conteúdo pretos que acompanha sofrem simplesmente por se posicionarem em relação ao racismo e às suas lutas. “Eles não estão preparados para ouvir a nossa luta e entender que eles oprimem a gente”, desabafa em entrevista à Catraca Livre. “E eles não ouvirem a gente só piora a situação”, completa.

A ideia de lançar a petição surgiu durante uma live com a também influencer Victória Mostaph, na qual ambas foram vítimas de ataques racistas. Em seguida, outros criadores de conteúdo negros se juntaram à causa, como Juliana França, Hellen Carvalho, João Vinn, Wesley Corrêa, Victoria Carolline, Mellany, Giovanna Freire, além de outros amigos.

Para Sabrina, o fato de a plataforma reduzir todos os ataques a “discurso de ódio”, de certa forma, invalida e mascara o racismo, tratando-o como se fosse algo “não tão grave”.

Já nas situações em que os usuários denunciam contas, um dos tópicos – “a pessoa está publicando conteúdo que não deveria” – divide-se em um detalhamento com as mesmas oito atividades ilegais relacionadas a comentários e ainda “golpe ou fraude” e “informação falsa”. Além disso, há outras duas opções principais: o usuário está fingindo ser outra pessoa ou pode ser menor de 13 anos de idade, o que contraria os termos de uso da plataforma. Porém, também não há nenhum item específico a racismo ou injúria racial.

Sabrina, que tem 34,4 mil seguidores no Instagram, destaca ainda a existência de contas verificadas pela rede que publicam conteúdos racistas. “Cadê a responsabilidade pela saúde mental e segurança da comunidade negra?”, questiona a jovem no abaixo-assinado.

Sistema ineficaz de denúncias

Crédito: (FoReprodução/Rede socialPost feito por Sabrina sobre um caso ofensivo não removido pelo Instagram

Além de pedir que o Instagram trate ocorrências de racismo de forma específica, a influenciadora reivindica que a plataforma melhore as análises das denúncias. Ela conta já ter reportado episódios explícitos de racismo e segundos depois recebido uma mensagem dizendo que o conteúdo foi analisado, mas não excluído por não violar as “Diretrizes de Comunidade”.

“Todos os dias me chega algum comentário, alguma publicação ou conta que é extremamente racista”, afirma a influencer. Segundo ela, as situações são tão explícitas que não deixam brechas para interpretações diferentes por parte da plataforma. “Eu acho que é super contraditório eles dizerem que não violam as diretrizes. Como funciona isso? Como as diretrizes vão contra a lei?”, diz lembrando que racismo e injúria racial são crimes.

Em suas diretrizes, o Instagram instrui os usuários a cumprirem a lei, ressaltando que não aceita o apoio nem a exaltação de grupos de ódio. Há, ainda, outro item dedicado ao respeito entre os membros da comunidade. Neste ponto, a empresa afirma remover conteúdo que contenha, por exemplo, discurso de ódio, além de outras situações de desrespeito.

“O incentivo à violência ou o ataque a alguém com base em raça, etnia, nacionalidade, sexo, gênero, identidade de gênero, orientação sexual, religião, deficiências ou doenças nunca é aceitável”, diz trecho das diretrizes apresentadas pela plataforma. Ao final, a rede estimula os membros a utilizarem a opção de denúncia caso vejam algo que viole suas normas.

As políticas da rede social contam, ainda, com termos de uso que dizem garantir a remoção de conteúdo e desativação ou encerramento de contas que infrinjam regras. A experiência de Sabrina na rede, entretanto, mostra uma realidade diferente. Na petição, ela afirma que as análises que o Instagram faz das denúncias não condizem com essas diretrizes.

“Em questão de segundos após a denúncia, já recebemos a mensagem do Instagram dizendo que analisaram e não irão bloquear o conteúdo. Será que realmente analisam alguma coisa?”, questiona Sabrina com estranheza. Aos 18 anos, a jovem posta, há mais de dois, conteúdo digital sobre autocuidado e estética preta, além de dicas de receitas naturais.

Em uma publicação, a influencer apontou dois casos em que usuários fizeram comentários com fortes ataques a pessoas negras, mas não tiveram suas contas removidas pela rede. A plataforma respondeu aos denunciantes dizendo que, como o Instagram é uma comunidade global, entende que as pessoas podem se expressar de maneiras diferentes. “Não sabia que se expressar de formas diferentes incluía cometer crime”, escreveu Sabrina no post.

Ainda na resposta, o Instagram pede que a pessoa faça a denúncia novamente, caso acredite que a rede cometeu um equívoco. Ao final, apresenta algumas de suas ferramentas de segurança, como bloqueios de contas e ocultação de comentários ofensivos.

Racismo além do Instagram

No desabafo postado em suas redes, Sabrina também levanta o debate sobre pessoas que tentam se esconder atrás de perfis falsos para cometer crimes, como o racismo, na internet. Na petição, apresenta trechos de um texto do advogado Wellington Henrique Dias dos Santos, publicado na revista Consultor Jurídico, sobre a necessidade de punição para o crime de racismo na internet e como a rede passa a sensação de ser “terra de ninguém”.

O advogado aborda dados da Safernet Brasil, que recebeu no ano passado 8.337 denúncias de racismo no meio online. “São aproximadamente 23 denúncias por dia, quase uma por hora, o que significa que existem mais crimes de racismo online do que tráfico de pessoas (509 denúncias), intolerância religiosa (1.084 denúncias), maus tratos contra animais (1.142 denúncias) e neonazismo (4.244) somados. E, para pintar de branco este grande elefante, em relação a 2018, os crimes de racismo na internet tiveram um aumento de 37,71%”, diz o texto.

Sabrina ainda aborda o baixo engajamento em publicações de influencers pretos que falam sobre racismo. Segundo ela, seus stories costumavam alcançar uma marca entre 6 e 9 mil visualizações, porém, depois que passou a tratar do assunto, não chegam mais a 2 mil.

A equipe da Change.org tentou localizar a assessoria de imprensa do Instagram para ter uma resposta sobre a reivindicação e os pontos levantados pela influencer, porém, não conseguiu contato até a finalização desta matéria. Caso o Instagram se posicione à plataforma de petições, a resposta será publicada na página do abaixo-assinado, que segue aberto.

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