ChinaJoy 2026: o Brasil está no radar da indústria chinesa de games?
Entre inteligência artificial e expansão internacional, a ChinaJoy 2026 levanta uma questão: qual é o espaço do Brasil no mercado chinês de games?
A 23ª edição da ChinaJoy, um dos maiores eventos de videogames e de entretenimento digital da Ásia, foi realizada em Xangai, na China, com o tema “Subindo de Nível com IA”. O evento reuniu desenvolvedores, publishers e empresas de diversos setores da indústria, com a participação de 902 empresas de 39 países e regiões, incluindo mais de 500 empresas B2B. Mais do que a escala do evento, o que mais me impressionou foi a forma como diferentes partes da cadeia produtiva de jogos compartilham o mesmo espaço.

Para o grande público, o ChinaJoy é uma enorme celebração da cultura gamer, um espaço para conhecer novos jogos, títulos em destaque, equipamentos, hardware, E-sports, cosplay, experiências imersivas e todo um mundo relacionado a cultura gamer/geek .

Para o setor profissional, a atmosfera foi diferente. Publishers, desenvolvedores, empresas de tecnologia e provedores de serviços discutiram distribuição, ferramentas, inteligência artificial, marketing e expansão internacional. Essa divisão ajuda a entender uma característica importante do mercado chinês: os videogames são apenas uma parte de um ecossistema muito maior, que envolve tecnologia, entretenimento e diferentes tipos de serviços.

Em meio às discussões sobre os impactos da inteligência artificial, a tecnologia esteve no centro da edição deste ano. Com o tema “Level Up with AI”, o evento apresentou aplicações que iam de NPCs e narrativas interativas à geração de conteúdo, hardware e robótica. Mais interessante do que simplesmente observar a presença da IA foi ver como diferentes empresas estão tentando transformar essas tecnologias em produtos. A questão que permanece é até que ponto essas soluções já representam uma mudança real na produção e quanto ainda está no campo do marketing e das demonstrações tecnológicas.
Ao mesmo tempo, a adoção da IA levanta questões que vão muito além da eficiência. A incorporação dessas ferramentas na indústria de videogames acontece em meio a debates sobre direitos autorais, uso não autorizado de obras criativas e vozes, transparência nos dados utilizados para treinamento, substituição ou precarização do trabalho e possíveis impactos sobre a identidade artística. Em áreas como localização e produção de conteúdo, por exemplo, a automação pode reduzir custos e acelerar processos, mas não significa, necessariamente, compreender o contexto cultural, o humor ou as referências de cada mercado.
A rápida integração dessas tecnologias dificulta distinguir inovação de competição por redução de custos. Portanto, talvez a questão mais importante não seja apenas o que a IA pode fazer, mas o que se ganha, o que se perde e o que estamos dispostos a sacrificar para produzir mais rápido e mais barato.
Outro aspecto que chamou minha atenção ao olhar para a feira pelo lado dos negócios foi a internacionalização. A expansão para outros mercados já é uma parte importante da estratégia da indústria chinesa de games. No primeiro semestre de 2026, os jogos desenvolvidos na China geraram US$ 12,37 bilhões em receita no exterior, um crescimento de 30,22% em relação ao mesmo período de 2025. Os principais mercados, no entanto, continuam sendo Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul. E é justamente aí que surge uma questão que me interessa: onde a América Latina entra nessa expansão?
Foi nesse ponto que minha experiência fazendo a ponte entre China e Brasil ganhou uma nova perspectiva. Durante as conversas que tive no evento, o interesse pelo mercado latino-americano e, especificamente, pelo Brasil, apareceu em diferentes momentos. Em algumas delas, também surgiu a busca por profissionais que falassem português e mandarim e, principalmente, que fossem capazes de compreender os contextos comerciais e culturais dos dois mercados. Nesse caso, o idioma é apenas o começo. Entrar em um novo mercado envolve entender distribuição, regulamentação, comportamento do consumidor, marketing, sistemas de pagamento e, principalmente, a forma como os negócios são conduzidos em cada contexto.
Da mesma forma, a situação se inverte. Para estúdios brasileiros interessados na China, a tradução de jogos é apenas uma etapa. Também é necessária a compreensão do ecossistema da plataforma, do registro, dos pacotes de jogos e do comportamento do consumidor, que são muito diferentes dos do mercado brasileiro.
Portanto, para mim o ChinaJoy não se concentra tanto no conceito de “a China está chegando”, mas, sim, em uma única pergunta: onde reside o verdadeiro espaço comercial entre esses dois ecossistemas?

Ainda é cedo para dizer até onde essas conversas podem chegar. Uma feira pode gerar contatos, despertar interesses e abrir portas, mas é fora dela que se descobre quais dessas oportunidades realmente se transformam em negócios.