Quando dizemos que o mercado de jogos está em São Paulo, de qual São Paulo estamos falando?
Comunidades, universidades, estúdios e políticas públicas mostram que o mercado de games paulista vai muito além da capital.
Quem trabalha com jogos no Brasil provavelmente já ouviu alguma versão da frase: “o mercado está em São Paulo”.
Mas quase sempre, quando alguém diz “São Paulo”, está falando da capital.
E esse recorte deixa muita gente de fora.
Meu nome é Lia Fuziy e trabalho há mais de dez anos no mercado de jogos. Nesse tempo, uma pergunta passou a me acompanhar: onde, de fato, esse mercado acontece?
Quem consegue ocupar seus espaços? Quem precisa criar os próprios? E o que deixamos de enxergar quando olhamos apenas para a capital?
Foi tentando responder a essas perguntas que comecei a mapear iniciativas ligadas a jogos nos 645 municípios do Estado de São Paulo.
Na primeira etapa desse levantamento, encontrei iniciativas em pelo menos 37 cidades.
E esse número ainda está crescendo.
Não são apenas estúdios.
Há associações, coletivos de estudantes, grupos independentes, cursos, game jams, eventos, incubadoras, políticas públicas, programas de formação e comunidades que nasceram porque alguém percebeu que, naquele lugar, faltava um espaço.

Antes de existir uma empresa, muitas vezes existe uma comunidade
Um dos exemplos dessa organização coletiva é a AC Jogos SP, Associação de Criadores de Jogos do Estado de São Paulo, hoje presidida por Marcelo Rigon.
A associação atua na representação de empresas e profissionais, na articulação do setor e no diálogo sobre políticas públicas para games.
Mas nem toda organização começa com uma empresa ou um CNPJ.
Às vezes começa com estudantes perguntando:
por que não temos um espaço nosso?
Foi desse tipo de inquietação que nasceu a HUG, Hub dos Universitários de Games.
Criada a partir da articulação de estudantes de cursos de jogos na cidade de São Paulo, a HUG começou aproximando pessoas que estudavam em diferentes instituições e sentiam falta de um espaço em que pudessem trocar experiências, apresentar projetos e ser ouvidas pelo mercado.
O que nasceu na capital passou a reunir estudantes de diferentes regiões do país.
A própria trajetória da HUG já ajuda a desmontar uma ideia importante: uma comunidade pode nascer em São Paulo sem pertencer apenas a São Paulo.
E esse movimento não acontece somente entre universidades diferentes.
Ele também acontece dentro delas.
Em São Carlos, o FoG, Fellowship of the Game, no ICMC-USP, e o GAMSo, na UFSCar, criaram espaços em que estudantes desenvolvem jogos, participam de game jams e constroem projetos em conjunto.
Na capital, a Conway USP, ligada à EACH, reúne estudantes em torno de desenvolvimento de jogos e computação gráfica.
Em São Caetano do Sul, estudantes da Fatec se organizam por meio da GameDev Guild.
Antes mesmo de essas pessoas entrarem profissionalmente no setor, elas já estão construindo parte do setor que desejam encontrar.
Na Baixada, os próprios desenvolvedores decidiram se mapear
Quando chegamos ao litoral, encontramos outro tipo de organização.
A 13-Bit Game reúne desenvolvedores independentes da Baixada Santista e marca presença em game jams, encontros, eventos e discussões sobre o espaço destinado a quem desenvolve jogos na região.
Mas talvez uma das iniciativas mais interessantes tenha sido outra: a comunidade decidiu descobrir quem estava ao seu lado.
O primeiro censo de desenvolvedores independentes da Baixada Santista identificou pessoas desenvolvendo jogos em Santos, São Vicente, Guarujá, Praia Grande, Peruíbe, Mongaguá, Cubatão, Bertioga e Itanhaém.
Santos aparece como principal concentração, mas o dado mais importante talvez seja justamente o contrário: o desenvolvimento de jogos não termina na divisa de Santos.
Há pessoas produzindo em diferentes municípios da região, muitas vezes sem empresa formal, sem associação própria e sem aparecer nos grandes eventos nacionais.
Se procurarmos apenas por “grandes empresas de games”, boa parte dessas pessoas simplesmente desaparece do mapa.
É por isso que comunidade também é dado.
Em São José dos Campos, diferentes grupos constroem a mesma cena por caminhos distintos
São José dos Campos oferece outro exemplo de como um ecossistema se forma sem depender de uma única instituição.
O Hub de Games de São José dos Campos, conduzido por Elvis e por outras pessoas da comunidade regional, trabalha com formação, apoio a equipes, eventos e iniciativas voltadas ao amadurecimento de projetos.
Ao lado dele existe uma movimentação mais comunitária, como a 012 Games, articulada por Matheus e outras pessoas do Vale do Paraíba.
A 012 organiza encontros, playtests e game jams.
São estruturas diferentes.
Uma trabalha de maneira mais institucionalizada, apoiando a formação e o desenvolvimento de projetos. A outra nasce diretamente da vontade de reunir quem está produzindo jogos na região.
E foi justamente em São José dos Campos, durante uma palestra em uma ação do Crie Games, que conheci o Game Devs Neurodivergentes BR.
Esse encontro me fez perceber outra coisa: nem todas as comunidades do setor se organizam em torno de uma cidade.
Algumas se organizam em torno de experiências em comum.
Às vezes, o território de uma comunidade não cabe no mapa
Durante minha jornada também vi nascer o Coletivo Trans de Gamedevs.
O coletivo reúne pessoas trans que desenvolvem jogos e cria um espaço de convivência, troca e organização. A proposta não é apenas socializar. O grupo também discute as condições encontradas por pessoas trans dentro da indústria e pensa em iniciativas que possam tornar esses espaços mais seguros e mais acessíveis.
Há uma diferença importante aí.
Esses grupos não existem somente para “fazer networking”.
Eles surgem porque determinadas experiências profissionais não são iguais para todo mundo.
Ter um lugar em que essas experiências possam ser discutidas sem precisar explicar, desde o começo, por que determinados problemas existem muda a maneira como uma comunidade consegue se organizar.
Algo semelhante aconteceu em um happy hour da Women in Games, quando surgiu a Rede MIGS, criada como espaço de conexão para mulheres e pessoas não binárias.
São comunidades que atravessam cidades.
Uma pessoa pode estar em São Paulo, outra em São José dos Campos, outra no interior e outra até fora do estado. O que as reúne não é o CEP.
É uma experiência compartilhada dentro do mercado.
Isso também faz parte do ecossistema.
Quando tentamos desenhar um mapa da indústria apenas com empresas, universidades ou municípios, existe o risco de deixar de fora justamente os espaços criados por pessoas que não encontravam acolhimento nas estruturas que já existiam.
Por isso, mapear o mercado de jogos também significa perguntar:
quem precisou criar um novo espaço porque os anteriores não davam conta de recebê-lo?
E quando deixamos de procurar apenas grupos, o mapa muda de novo
O levantamento cresce ainda mais quando a pergunta deixa de ser apenas “onde existem comunidades?” e passa a ser:
onde existem condições para alguém começar a desenvolver jogos?
Aí entram as políticas públicas.
As Fábricas de Cultura passaram a oferecer atividades ligadas a games e tecnologia em diferentes regiões.
O CULTSP PRO levou cursos de Game Design, produção, publicação, modelagem e outras áreas da cadeia para diferentes cidades do estado.
O Crie Games, do Sebrae-SP, realizou workshops, game jams, mentorias e programas de aceleração em diferentes territórios.
A Spcine passou a trabalhar com formação, incubação, editais e iniciativas como o Futuro Gamer, levando atividades para fora dos espaços tradicionalmente associados ao mercado.
Também existem cidades com cursos superiores de Jogos Digitais, pós-graduações, Fatecs, universidades, eventos recorrentes, sedes da Global Game Jam e encontros de jogos analógicos.
Essas estruturas não têm o mesmo peso e nem cumprem a mesma função.
Mas todas deixam uma pista.
Em algumas cidades, há empresas e profissionais trabalhando há anos.
Em outras, existe uma universidade que mantém uma comunidade ativa.
Em outras, a principal movimentação ainda é uma game jam anual.
E há municípios em que encontramos várias dessas camadas ao mesmo tempo.
O que ainda não conseguimos enxergar?
Até agora, encontrei evidências em pelo menos 37 dos 645 municípios paulistas.
Esse número não significa que os outros 608 não tenham qualquer relação com jogos.
Significa apenas que ainda não consegui encontrá-los.
E essa diferença importa.
Pode existir um professor desenvolvendo projetos de jogos em uma Etec.
Pode existir um grupo que se reúne apenas pelo WhatsApp ou Discord.
Pode existir um pequeno estúdio que nunca participou de uma associação.
Pode existir uma comunidade de RPG ou board games que não se identifica como parte da “indústria de games”, mas que mantém uma cena local ativa.
Pode existir uma prefeitura realizando uma oficina que nunca chegou aos portais nacionais.
E podem existir comunidades que sequer fazem sentido dentro de uma coluna chamada “município”, porque seus membros estão espalhados pelo estado e pelo país.
Um mapa como esse nunca fica pronto apenas pesquisando quem já é conhecido.
Ele também precisa encontrar quem ainda não foi colocado no mapa.
Afinal, o mercado está em São Paulo?
Talvez a frase “o mercado de jogos está em São Paulo” não esteja completamente errada.
O problema está em usar São Paulo como sinônimo de capital.
E talvez exista um segundo problema: imaginar que todo ecossistema pode ser explicado apenas pela geografia.
Porque o que este levantamento começa a mostrar é outra coisa.
Existem desenvolvedores criando jogos na Baixada Santista.
Estudantes formando comunidades em São Carlos, São Caetano do Sul e na capital.
Grupos se organizando no Vale do Paraíba.
Cursos chegando a cidades que raramente aparecem nas conversas nacionais sobre a indústria.
Game jams abrindo portas para quem nunca desenvolveu um jogo.
Políticas públicas criando pontos de entrada fora dos circuitos tradicionais.
E comunidades formadas por pessoas que compartilham experiências específicas dentro da indústria, mesmo vivendo a centenas de quilômetros umas das outras.
São Paulo tem 645 municípios.
Mas o ecossistema não respeita perfeitamente essas fronteiras.
Algumas iniciativas pertencem a uma cidade.
Outras pertencem a uma região.
E outras existem justamente porque alguém percebeu que precisava encontrar pessoas parecidas consigo para continuar ocupando esse mercado.
Se queremos falar seriamente sobre o tamanho do nosso ecossistema de jogos, talvez a pergunta não seja mais apenas onde ele está.
A pergunta é:
quem estamos conseguindo enxergar quando decidimos desenhar esse mapa?