Esse é o corte perfeito para fazer na panela de pressão: ele fica macio, desmanchando e extremamente suculento
A resposta está na composição das fibras musculares e na quantidade de tecido conjuntivo presente nesses cortes.
Nem todo corte de carne entrega o mesmo resultado dentro da panela de pressão, e conhecer essa diferença é o que separa um cozido comum de uma preparação verdadeiramente memorável. O acém e o músculo bovino são os grandes protagonistas da gastronomia de pressão justamente por carregarem uma quantidade generosa de colágeno nas fibras, que se transforma em textura macia, gelatinosa e incrivelmente suculenta sob o calor úmido e intenso da panela. Quem experimenta uma vez dificilmente volta a prepará-los de outra forma.

Por que o acém e o músculo são os cortes ideais para a panela de pressão?
A resposta está na composição das fibras musculares e na quantidade de tecido conjuntivo presente nesses cortes. O acém e o músculo são regiões do boi que trabalham muito durante a vida do animal, o que resulta em fibras mais densas e ricas em colágeno. Em preparações convencionais, essa característica os tornaria duros e difíceis de mastigar. Na panela de pressão, no entanto, esse mesmo colágeno se converte em um elemento de textura extraordinária.
Cortes magros e com pouco colágeno, como o filé mignon e a picanha, reagem de forma oposta à pressão: perdem suculência, resecam e ficam borrachudos quando submetidos ao cozimento prolongado. O acém e o músculo fazem o caminho inverso. Quanto mais tempo passam sob pressão com líquido, mais eles se transformam, liberando colágeno que enriquece o caldo e criando aquela textura que desmancha ao simples toque do garfo.
Como o calor úmido transforma as fibras duras em textura macia?
O processo começa quando a temperatura dentro da panela de pressão ultrapassa os 120 graus, algo impossível de atingir em panelas convencionais. Nesse ambiente de calor intenso e pressão elevada, o colágeno presente nos tecidos conjuntivos do acém e do músculo começa a se desnaturar e se converter em gelatina. Esse processo, chamado de gelatinização do colágeno, é o responsável direto pela textura macia e pela suculência que caracterizam um cozido bem feito.
O calor úmido, combinado com o caldo que envolve a carne durante o cozimento, impede que as fibras musculares percam umidade de forma excessiva. Enquanto o colágeno se dissolve e lubrifica as fibras por dentro, o líquido externo mantém o ambiente hidratado, criando uma combinação perfeita que resulta em uma carne que se separa em lascas com facilidade e carrega sabor em cada pedaço.

Qual é o tempo ideal de cozimento para cada corte?
O tempo de pressão varia conforme o corte escolhido, o tamanho dos pedaços e a potência do fogão, mas existem referências práticas que funcionam bem na gastronomia doméstica. O acém, por ser um corte com fibras um pouco mais curtas, atinge o ponto ideal de maciez entre 40 e 50 minutos de pressão contados a partir do início do vapor. O músculo, por ter fibras mais longas e densas, se beneficia de um tempo um pouco maior, entre 50 e 60 minutos para pedaços grandes.
Alguns fatores influenciam diretamente o resultado final e devem ser observados antes e durante o preparo:
- Selar a carne em óleo quente antes de adicionar o líquido e tampar a panela cria uma crosta que concentra sabor e melhora a cor do cozido
- A quantidade de líquido deve cobrir pelo menos dois terços da carne para garantir o ambiente úmido necessário à gelatinização do colágeno
- Deixar a pressão cair naturalmente, sem forçar o escape de vapor, preserva a umidade interna da carne e melhora a textura final
- Cortar a carne em pedaços médios, de aproximadamente cinco centímetros, garante cozimento uniforme sem ressecar as extremidades
Veja o vídeo do canal Receitas Fáceis da Lia com mais de 300 mil visualizações ensinando como fazer acém na panela de pressão:
Quais temperos e líquidos combinam melhor com acém e músculo?
A base aromática é tão importante quanto a escolha do corte na gastronomia de panela de pressão. O acém e o músculo têm sabor intenso e terroso que pede temperos igualmente expressivos para criar profundidade no caldo. Alho, cebola, louro e páprica defumada formam uma combinação clássica que realça as características naturais desses cortes sem competir com elas.
Para o líquido de cozimento, as opções que mais enriquecem o resultado final incluem:
- Caldo de carne caseiro ou industrializado sem excesso de sódio, que potencializa o sabor da carne e do colágeno dissolvido
- Vinho tinto seco em pequena quantidade, adicionado antes de tampar a panela para deglacear o fundo e incorporar complexidade ao molho
- Tomate pelado ou extrato de tomate diluído em água, que acrescenta acidez equilibrada e cor ao caldo final
- Água simples combinada com shoyu e uma colher de manteiga, para uma versão mais encorpada e com notas umami pronunciadas
Como aproveitar o caldo gelatinoso que se forma no cozimento?
Um dos maiores presentes que o acém e o músculo oferecem na panela de pressão é o caldo rico e levemente gelatinoso que se forma durante o cozimento. Esse líquido concentrado é resultado direto da dissolução do colágeno das fibras e representa um dos ingredientes mais valiosos da gastronomia doméstica, com sabor profundo e textura encorpada que nenhum tempero industrializado consegue replicar.
Esse caldo pode ser usado imediatamente como molho para acompanhar a carne com arroz e legumes, reduzido em fogo baixo para criar um molho mais espesso e sofisticado, ou reservado na geladeira para ser usado como base de sopas, risotos e outros cozidos nos dias seguintes. Quando refrigerado, ele se solidifica levemente devido ao colágeno, confirmando a riqueza nutricional e gastronômica do preparo. Aproveitar cada gota desse caldo é, na gastronomia de panela de pressão, um gesto de respeito ao ingrediente e ao processo que transformou um corte simples em uma refeição extraordinária.