O ovo que cozinha dentro da terra e tem gosto de enxofre

O processo é fascinante e envolve química pura da natureza

19/01/2026 14:16

Imagine chegar num lugar onde o chão fumega, o ar cheira forte a enxofre e, no meio desse cenário que parece saído de um filme de ficção, as pessoas estão comendo ovos com a casca preta. Parece estranho, mas essa cena é real e acontece em alguns pontos do Japão, onde a natureza vulcânica transforma ovos comuns em uma iguaria cheia de história e lendas. Essas maravilhas naturais mostram como a força da terra pode criar experiências gastronômicas únicas que misturam curiosidade, tradição e um toque de aventura.

Depois desse banho prolongado, os ovos ainda passam por mais 15 minutos de vapor quente para completar o cozimento interno
Depois desse banho prolongado, os ovos ainda passam por mais 15 minutos de vapor quente para completar o cozimento internoImagem gerada por inteligência artificial

O que acontece com os ovos quando são cozidos em águas vulcânicas?

O processo é fascinante e envolve química pura da natureza. Quando os ovos são mergulhados em águas termais ricas em enxofre e outros minerais, acontece uma reação que vai muito além do simples cozimento. No caso dos famosos ovos pretos de Owakudani, localizado em Hakone, a casca do ovo absorve ferro presente na água vulcânica que ferve a cerca de 80 graus Celsius. Depois de uma hora nessa água, o ferro reage com o sulfeto de hidrogênio, criando uma camada preta que reveste completamente a casca.

Depois desse banho prolongado, os ovos ainda passam por mais 15 minutos de vapor quente para completar o cozimento interno. O resultado é um ovo com casca preta como carvão, mas quando você abre, encontra uma clara e gema perfeitamente cozidas, com aparência normal. O sabor é de ovo cozido tradicional, mas com um leve toque mineral que vem da água termal. O cheiro de enxofre é forte durante o processo, mas curiosamente não interfere tanto no gosto final, criando uma experiência sensorial completa que começa pelos olhos e termina no paladar.

Onde no Japão é possível encontrar essa tradição milenar?

O Japão é um país localizado no Círculo de Fogo do Pacífico, uma região repleta de atividade vulcânica e fontes termais naturais espalhadas por todo o território. Isso fez com que os japoneses desenvolvessem uma relação única com essas águas quentes, aproveitando-as não só para banhos relaxantes nos famosos onsen, mas também para cozinhar alimentos. A tradição de cozinhar ovos em fontes termais existe há séculos e se tornou parte importante da cultura local.

Owakudani, também conhecido carinhosamente como Jigokudani ou Vale do Inferno, é o lugar mais famoso para experimentar os ovos pretos chamados de kuro-tamago. Esse vale vulcânico foi criado há cerca de 3 mil anos pela erupção do Monte Hakone e hoje é uma paisagem impressionante, com penhascos rochosos cobertos por uma névoa sulfúrica constante, piscinas de água fervente e vapores saindo de fendas na terra. Além de Owakudani, outras regiões termais do Japão também oferecem experiências similares:

  • Shibu Onsen, nas montanhas de Nagano, onde é comum ver ovos sendo cozidos lentamente em cestinhas na frente dos estabelecimentos comerciais, aproveitando as águas termais que brotam naturalmente por toda a cidade histórica
  • Beppu, na província de Oita, famosa pelos chamados Infernos de Beppu, onde existem diversos poços termais com características diferentes e visitantes podem cozinhar ovos e outros alimentos nas águas naturalmente quentes
  • Atagawa Onsen, na península de Izu, descoberto no século XV e que mantém pontos específicos onde moradores e turistas podem preparar o onsen tamago, a versão de ovo cozido em baixa temperatura que fica com textura sedosa

Por que esses ovos são tão procurados pelos visitantes?

Existe uma lenda antiga que move multidões até esses lugares vulcânicos. Segundo a crença popular, cada ovo preto de Owakudani que você come adiciona sete anos à sua vida. A fé nessa história é tão forte que filas gigantescas se formam nas lojas que vendem os kuro-tamago, vendidos em embalagens com cinco unidades por cerca de 500 ienes, o equivalente a aproximadamente 10 reais. A Hello Kitty até virou mascote oficial desses ovos, e você encontra souvenirs temáticos por toda parte.

Mas a popularidade vai além da superstição. Esses ovos representam uma conexão profunda com as forças da natureza e com a capacidade humana de aproveitar recursos geológicos de forma criativa. Comer um ovo cozido no calor vulcânico enquanto observa o Monte Fuji ao fundo, respirando aquele ar carregado de enxofre e sentindo o vapor quente subir da terra, é uma experiência que envolve todos os sentidos. É turismo, gastronomia, aventura e cultura misturados numa casca preta e fumegante.

Depois desse banho prolongado, os ovos ainda passam por mais 15 minutos de vapor quente para completar o cozimento interno
Depois desse banho prolongado, os ovos ainda passam por mais 15 minutos de vapor quente para completar o cozimento internoImagem gerada por inteligência artificial

Qual é a diferença entre os ovos pretos e o onsen tamago?

Embora ambos sejam cozidos em águas termais, o processo e o resultado são bem diferentes. Os ovos pretos de Owakudani são cozidos em temperaturas altíssimas, cerca de 80 a 100 graus Celsius, por um período prolongado, o que faz a casca ficar preta por conta da reação química do enxofre com o ferro. O interior fica completamente cozido, como um ovo cozido tradicional, com clara firme e gema sólida.

Já o onsen tamago é preparado em águas com temperatura muito mais baixa e controlada, entre 65 e 70 graus Celsius, por cerca de 20 a 40 minutos. Essa temperatura específica aproveita o fato de que a clara e a gema do ovo solidificam em temperaturas diferentes. O resultado é mágico, um ovo com clara sedosa e leitosa, quase cremosa, e gema macia que mantém a cor vibrante e textura aveludada de uma gema crua, mas totalmente segura para comer. O onsen tamago é servido tradicionalmente em tigelas pequenas com molho de soja e caldo dashi, sendo um item comum no café da manhã dos ryokan, as hospedarias tradicionais japonesas.

A textura única do onsen tamago é considerada por muitos como a forma mais perfeita de preparar um ovo. Mesmo depois de esfriar, ele mantém aquela consistência sedosa que derrete na boca, algo impossível de conseguir com métodos convencionais de cozimento. Por isso, muitos chefs japoneses tentam replicar essa técnica em casa usando circuladores térmicos ou panelas pesadas, mas todos concordam que o verdadeiro onsen tamago só pode ser experimentado no Japão, cozido nas águas minerais das fontes termais vulcânicas.

Vale a pena enfrentar o cheiro de enxofre para provar?

Se você gosta de experiências diferentes e não tem medo de sair da zona de conforto, definitivamente vale cada segundo. O cheiro de enxofre é forte, sim, e pode incomodar no começo. Muita gente compara o aroma ao de ovos estragados ou pés suados, por causa dos compostos sulfúricos no ar. Mas a maioria dos visitantes se acostuma rapidamente, especialmente quando percebe que está num cenário natural impressionante, cercado por paisagens que parecem de outro planeta.

Além disso, a jornada até esses lugares já é uma atração por si só. Para chegar a Owakudani, por exemplo, você pode pegar o Hakone Ropeway, um teleférico que oferece vistas espetaculares enquanto passa sobre fontes termais fumegantes e montanhas cobertas de verde. Em dias claros, o Monte Fuji aparece majestoso ao fundo, criando um cartão postal perfeito. O passeio custa cerca de 1.370 ienes só de ida, mas a experiência de voar sobre um vale vulcânico ativo não tem preço.

Os especialistas garantem que pequenas quantidades de enxofre, como as presentes nesses ovos, são seguras e até usadas na medicina. O sabor final é surpreendentemente normal, com apenas um toque sutil mineral que lembra que você está comendo algo preparado pela própria terra. É uma daquelas histórias que você vai contar por anos, mostrando fotos de ovos pretos enquanto explica que, segundo a lenda, agora você tem alguns anos extras de vida pela frente. E mesmo que a lenda seja só folclore, a memória da experiência certamente vai durar muito tempo.