A Argentina conseguiu um feito histórico após 110 anos, e o retorno desse mamífero ao Chaco já começou a transformar o ecossistema desde o primeiro momento

A lontra-gigante é o maior mustelídeo do mundo e já ocupou extensas áreas de rios, lagos e zonas alagadas da América do Sul.

Depois de mais de cem anos desaparecida da bacia do rio Bermejo, a lontra-gigante, também conhecida na Argentina como nutria gigante ou lobo gargantilla, voltou ao Parque Nacional El Impenetrable, na província do Chaco. O projeto já conseguiu formar grupos reprodutivos e registrar o nascimento de três filhotes no fim de 2025, um passo importante para devolver aos ambientes aquáticos um predador que havia desaparecido da região.

Uma das etapas mais simbólicas aconteceu no fim de 2025. Yvera e Anori, casal que fazia parte do programa, tiveram três filhotes no El Impenetrable.
Uma das etapas mais simbólicas aconteceu no fim de 2025. Yvera e Anori, casal que fazia parte do programa, tiveram três filhotes no El Impenetrable.Imagem gerada por inteligência artificial

Como um mamífero tão grande desapareceu dos rios do Chaco?

A lontra-gigante é o maior mustelídeo do mundo e já ocupou extensas áreas de rios, lagos e zonas alagadas da América do Sul. No Chaco argentino, sua população desapareceu no início do século XX, principalmente após décadas de caça e transformação dos ambientes naturais.

Durante mais de um século, o animal deixou de cumprir funções que faziam parte da dinâmica desses rios. A recuperação começou a ganhar força quando um macho silvestre, chamado Teuco, foi registrado no El Impenetrable em 2021, o primeiro sinal concreto da espécie na região depois de muitas décadas.

O que aconteceu depois do aparecimento de Teuco?

O registro mostrou que o ambiente ainda tinha condições para receber a espécie. A Fundação Rewilding Argentina, em parceria com a Administração de Parques Nacionais e outras instituições, passou então a estruturar um projeto de reintrodução com recintos de adaptação instalados próximos às lagoas e ao rio Bermejo.

O processo envolveu várias etapas:

  • construção de recintos de pré-soltura próximos à água;
  • transferência de animais de diferentes origens;
  • formação de pares e grupos familiares;
  • treinamento para captura de peixes vivos;
  • monitoramento de comportamento e reprodução.

Por que o nascimento de três filhotes foi tão importante?

Uma das etapas mais simbólicas aconteceu no fim de 2025. Yvera e Anori, casal que fazia parte do programa, tiveram três filhotes no El Impenetrable. Antes do nascimento, a equipe observou a fêmea cavando sua própria toca e o macho se tornando mais territorial, comportamentos naturais associados à reprodução.

Os filhotes começaram posteriormente a sair da toca acompanhados dos pais. O nascimento mostrou que os animais estavam conseguindo reproduzir comportamentos essenciais em um ambiente preparado para a futura formação de uma população autossustentável.

O que muda no ecossistema quando a lontra-gigante retorna?

A lontra-gigante ocupa uma posição elevada na cadeia alimentar aquática e consome principalmente peixes. Isso significa que sua presença volta a inserir pressão de predação sobre diferentes espécies, algo que havia desaparecido da região durante décadas.

Além da alimentação, sua rotina interfere fisicamente nas margens e nas lagoas. Esses animais usam tocas, áreas de descanso e locais específicos para depositar fezes, movimentando matéria orgânica entre a água e a terra. Entre as funções associadas à espécie estão:

  • predação de peixes e outros animais aquáticos;
  • redistribuição de nutrientes nas margens;
  • uso e abertura de áreas próximas às tocas;
  • participação nas relações entre predadores e presas;
  • ocupação de um nicho ecológico que ficou vazio por décadas.

    Uma das etapas mais simbólicas aconteceu no fim de 2025. Yvera e Anori, casal que fazia parte do programa, tiveram três filhotes no El Impenetrable.
    Uma das etapas mais simbólicas aconteceu no fim de 2025. Yvera e Anori, casal que fazia parte do programa, tiveram três filhotes no El Impenetrable.Imagem gerada por inteligência artificial

A volta já transformou completamente os rios?

Ainda não é possível afirmar isso. A recuperação está em andamento e o sucesso real será medido ao longo dos próximos anos. Para que a reintrodução seja considerada consolidada, os animais precisam sobreviver, reproduzir, formar novos grupos e manter uma população capaz de continuar sem depender permanentemente de novas introduções.

O próprio projeto estima que os cerca de 100 quilômetros do rio Bermejo dentro da área protegida, somados às lagoas em formato de ferradura, poderiam futuramente sustentar dezenas de indivíduos. Essa possibilidade, porém, depende da adaptação e reprodução bem-sucedidas das próximas gerações.

Por que chegaram mais oito lontras ao parque?

No fim de 2025, uma família de oito lontras-gigantes proveniente do Ecoparque de Buenos Aires também chegou ao El Impenetrable. O grupo passou a viver em um recinto de adaptação onde os animais nadam, interagem entre si e recebem peixes vivos para exercitar habilidades necessárias para a vida futura em liberdade.

Ter vários animais e grupos familiares é importante porque o objetivo não é simplesmente devolver alguns exemplares ao parque. A meta é restabelecer uma população viável, com reprodução e diversidade suficientes para ocupar novamente rios e lagoas da região.

Por que esse retorno é considerado um feito histórico na Argentina?

O que torna a história extraordinária não é apenas rever uma espécie desaparecida. O retorno da lontra-gigante ao Chaco tenta recuperar uma função ecológica perdida há mais de um século. Em vez de proteger apenas o que restou, o projeto busca reconstruir relações naturais que haviam sido interrompidas.

Os três filhotes, as tocas construídas pelos próprios animais e a chegada de novos grupos mostram que o processo avançou, mas ainda existe um caminho até uma população totalmente independente. Se isso acontecer, os rios do El Impenetrable voltarão a contar de forma permanente com um grande predador aquático que fez parte desse ambiente durante milhares de anos e desapareceu por ação humana em poucas décadas.