A árvore amazônica de frutos com formato de chifre que a ciência descreveu há pouco e que já nasceu ameaçada de extinção

Uma pequena árvore amazônica tem frutos em forma de chifre e poucos exemplares conhecidos. Entenda onde vive e por que corre risco de extinção

Uma pequena árvore que cresce em áreas de solo arenoso da Amazônia chamou a atenção de pesquisadores por causa de seus frutos incomuns e de sua raridade. Batizada de Tovomita cornuta, a espécie tem entre 3 e 8 metros de altura e foi descrita formalmente em um estudo publicado na revista científica Acta Botanica Brasilica, em 2021, com disponibilização on-line em fevereiro de 2022. O levantamento revelou uma situação preocupante: mesmo em uma região de biodiversidade extraordinária, a planta já enfrentava risco crítico de extinção.

Conheça a Tovomita cornuta, árvore de 3 a 8 metros encontrada no Amazonas, com frutos peculiares e distribuição restrita em áreas de campinarana.
Conheça a Tovomita cornuta, árvore de 3 a 8 metros encontrada no Amazonas, com frutos peculiares e distribuição restrita em áreas de campinarana.Imagem gerada por inteligência artificial

Como é a Tovomita cornuta e por que seus frutos chamam a atenção?

A Tovomita cornuta pertence à família Clusiaceae e é uma árvore de pequeno porte encontrada no estado do Amazonas. Uma de suas características mais marcantes está nos frutos estreitos, com estruturas alongadas e dilatadas que lembram pequenos chifres. É justamente essa aparência que inspirou o nome da espécie: o termo latino cornu significa “chifre”. A planta também apresenta uma exsudação amarelada, que pode adquirir tonalidade alaranjada quando entra em contato com o ar.

Apesar da aparência peculiar, não se trata de uma árvore de grande porte que domina o dossel da floresta. Ela cresce no sub-bosque de campinaranas florestadas, ambientes amazônicos caracterizados, entre outros aspectos, por solos arenosos e relativamente pobres em nutrientes. Conhecer essas particularidades ajuda os botânicos a distinguir a espécie de outras do mesmo gênero, especialmente por meio da forma dos frutos, das estruturas florais e das características das folhas.

Onde essa árvore cresce e quantos exemplares foram encontrados?

A distribuição conhecida da Tovomita cornuta é restrita ao Amazonas, com registros na região de Manaus e em municípios próximos, como Presidente Figueiredo e São Sebastião do Uatumã. Os pesquisadores identificaram quatro localidades de ocorrência conhecidas durante o estudo. Duas ficam em áreas protegidas: a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Tupé e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã.

Os números encontrados nessas duas reservas ajudam a dimensionar a raridade da espécie. Na Reserva do Tupé, os pesquisadores registraram 21 indivíduos; na Reserva do Uatumã, foram encontrados menos de dez. Esses dados não representam necessariamente a população total existente em toda a Amazônia, mas indicam que os exemplares conhecidos são poucos e que a distribuição geográfica documentada é limitada. A situação se torna ainda mais preocupante quando considerada junto às pressões humanas sobre o habitat.

Árvore amazônica rara tem frutos que lembram pequenos chifres e já foi classificada como criticamente ameaçada. Veja as ameaças ao seu habitat.Árvore amazônica rara tem frutos que lembram pequenos chifres e já foi classificada como criticamente ameaçada. Veja as ameaças ao seu habitat.
Árvore amazônica rara tem frutos que lembram pequenos chifres e já foi classificada como criticamente ameaçada. Veja as ameaças ao seu habitat.Árvore amazônica rara tem frutos que lembram pequenos chifres e já foi classificada como criticamente ameaçada. Veja as ameaças ao seu habitat.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a espécie foi classificada como criticamente ameaçada?

Na avaliação apresentada no artigo científico, os autores classificaram a Tovomita cornuta como criticamente ameaçada de extinção, utilizando critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A análise levou em conta sua distribuição restrita, a baixa quantidade de indivíduos registrados em algumas localidades e as ameaças ao ambiente onde cresce. A classificação indica um risco muito elevado de desaparecimento na natureza, e não que a espécie já esteja extinta.

Entre as pressões descritas pelos pesquisadores estão a expansão urbana não planejada, a perda de vegetação e a extração de areia, atividades que podem alterar ou destruir as campinaranas. Também foram apontados riscos relacionados à supressão de áreas florestais para atividades agrícolas de pequena escala e criação de gado. A situação da árvore faz parte de um desafio maior de conservação: proteger espécies pouco conhecidas exige preservar seus habitats antes que populações já pequenas se tornem ainda menores. A dimensão desse problema aparece também no panorama sobre as árvores ameaçadas de desaparecer no mundo.

Por que descobrir e descrever espécies raras é tão importante?

A descrição científica de uma espécie não é apenas uma formalidade para dar nome a uma planta. Ela permite documentar suas características, identificar onde ocorre, comparar seus exemplares com os de espécies semelhantes e avaliar quais medidas de conservação podem ser necessárias. No caso da Tovomita cornuta, o trabalho também mostrou que exemplares mantidos em herbários haviam sido identificados anteriormente como outras espécies do gênero, evidenciando como a revisão de coleções e as pesquisas de campo podem revelar uma biodiversidade que ainda não estava devidamente reconhecida.

O caso também demonstra por que a conservação da Amazônia depende de pesquisas contínuas e da proteção de ambientes específicos, não apenas de grandes áreas de floresta em geral. As campinaranas têm características ecológicas próprias e abrigam espécies adaptadas a condições particulares de solo e água. Conhecer melhor essa vegetação é essencial para orientar decisões de conservação. O estudo original, disponível na Acta Botanica Brasilica por meio da SciELO, reúne a descrição botânica, os registros de ocorrência, as informações ecológicas e a avaliação de risco da Tovomita cornuta.