A cabine UV da unha em gel danificou o DNA de células em laboratório, e pesquisadores da Universidade da Califórnia pedem estudos maiores antes de cravar o risco para as mãos
O hábito comum nos salões levanta dúvidas que a ciência ainda tenta dimensionar.
A unha em gel virou rotina nos salões de beleza do Brasil, mas a luz que endurece o esmalte passou a ser estudada pela ciência. Um estudo da UC San Diego mostrou que a radiação da cabine UV danificou o DNA e causou mutações em células humanas e de camundongo cultivadas em laboratório. Os autores avisam que ainda faltam pesquisas com pessoas para medir o risco real para a pele das mãos.
O que os pesquisadores da UC San Diego testaram
O trabalho foi liderado por Ludmil Alexandrov, professor de bioengenharia e de medicina celular e molecular, e teve como primeira autora a pesquisadora de pós-doutorado Maria Zhivagui. Os resultados saíram em janeiro de 2023 na revista Nature Communications, no artigo DNA damage and somatic mutations in mammalian cells after irradiation with a nail polish dryer. A equipe expôs três tipos de células à luz de um secador de esmalte comum, seguindo dois protocolos:
- Exposição aguda: 20 minutos de luz, uma hora de pausa e mais 20 minutos.
- Exposição crônica: 20 minutos por dia durante três dias seguidos.
- Células usadas: queratinócitos de pele humana adulta, fibroblastos de prepúcio humano e fibroblastos embrionários de camundongo.
Por que a luz da cabine UV preocupa?
Os aparelhos que curam o esmalte em gel emitem luz entre 340 e 395 nanômetros, faixa da radiação ultravioleta do tipo UVA. As câmaras de bronzeamento artificial trabalham numa faixa parecida, de 280 a 400 nanômetros, e já têm ligação comprovada com o câncer de pele.
A diferença é que o espectro dos secadores de unha quase não tinha sido estudado. Segundo Alexandrov, os equipamentos são vendidos como seguros, mas ninguém havia avaliado seus efeitos sobre células e moléculas. A pesquisa começou a partir de relatos médicos de tumores raros nos dedos de pessoas que fazem a manicure com muita frequência, como candidatas de concursos de beleza e esteticistas. O resumo da pesquisa também está no site de notícias da UC San Diego.

Os danos ao DNA descritos na Nature Communications
Os dados chamaram a atenção pela intensidade, mesmo com poucos ciclos de exposição. Entre os principais achados estão:
- Uma única sessão de 20 minutos matou entre 20% e 30% das células.
- Três exposições seguidas de 20 minutos elevaram a morte celular para 65% a 70%.
- As células sobreviventes tinham lesões no DNA e nas mitocôndrias, além de excesso de espécies reativas de oxigênio, moléculas que favorecem mutações.
- Parte do dano genético não foi reparada com o tempo, e o padrão das mutações lembrava o encontrado em pacientes com melanoma.
A unha em gel aumenta o risco de câncer nas mãos?
Ainda não dá para afirmar. O próprio grupo da UC San Diego reconhece que o experimento foi feito em placas de cultura, e não na pele de voluntários. Também não se sabe a partir de qual frequência de uso o hábito seria perigoso. Para confirmar a relação com o câncer de pele, seriam necessários grandes estudos epidemiológicos de longo prazo, que devem levar pelo menos dez anos.

O que fazer enquanto a ciência não dá a resposta final
Os pesquisadores lembram que a secagem com luz UV é diferente de outros usos desse espectro, como os fotopolimerizadores dos dentistas, porque se repete com regularidade e tem finalidade apenas estética. Depois de ver os resultados, Maria Zhivagui deixou de fazer unha em gel. Quem quer manter o hábito pode espaçar as aplicações e perguntar ao dermatologista sobre usar protetor solar nas mãos antes de entrar na cabine UV.
Outra opção é o esmalte tradicional, que seca ao ar e dispensa a exposição aos raios UVA. Até que surjam estudos com pessoas, o trabalho publicado na Nature Communications serve de alerta para incluir os dedos na proteção solar diária e observar manchas ou lesões novas ao redor das unhas.