A fortaleza de Elvas foi desenhada em estrela para proteger a cidade, e o formato revela como a artilharia mudou a arquitetura militar

Por que Elvas tem muralhas em formato de estrela? Entenda como a arquitetura abaluartada portuguesa surgiu para enfrentar canhões e cercos

Vista de cima, a fortaleza de Elvas, em Portugal, lembra uma estrela desenhada ao redor da cidade. O formato, porém, não foi escolhido apenas pela aparência: ele faz parte de um sistema de defesa criado para responder ao avanço dos canhões e às mudanças na maneira de atacar muralhas. Com baluartes angulares, fossos e estruturas avançadas, as fortificações permitiam proteger diferentes trechos do perímetro e reduzir áreas vulneráveis. O conjunto é hoje Patrimônio Mundial da UNESCO e representa um capítulo importante da história da arquitetura militar europeia.

Baluartes, fossos e muralhas angulares transformaram Elvas em uma das maiores fortificações da Europa. Entenda a lógica por trás do formato de estrela.
Baluartes, fossos e muralhas angulares transformaram Elvas em uma das maiores fortificações da Europa. Entenda a lógica por trás do formato de estrela.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a fortaleza de Elvas tem formato de estrela?

O desenho abaluartado de Elvas ganhou sua configuração principal durante a Guerra da Restauração portuguesa, iniciada após a recuperação da independência em 1640. Como a cidade fica próxima à fronteira espanhola, sua defesa tinha importância estratégica. A construção das novas muralhas começou na década de 1640, com participação do engenheiro jesuíta neerlandês João Piscásio Cosmander, que aplicou princípios da escola holandesa de fortificação ao relevo irregular da região.

Em vez de depender apenas de uma muralha contínua, o sistema combinava saliências e recuos que formavam um perímetro poligonal. Os baluartes projetados para fora permitiam posicionar canhões e criar linhas de tiro cruzadas, enquanto os trechos retos entre eles, chamados cortinas, ficavam protegidos por diferentes posições defensivas. A descrição oficial da UNESCO sobre as fortificações de Elvas destaca a aplicação da geometria militar neerlandesa e a adaptação do projeto à topografia local.

Como os ângulos ajudavam a proteger as muralhas?

Nas fortificações mais antigas, trechos retos de muralha e torres salientes podiam deixar áreas próximas à base difíceis de observar ou atingir com os próprios defensores. Os baluartes angulares ajudavam a resolver parte desse problema: a partir deles, os soldados podiam disparar ao longo das muralhas vizinhas e cobrir áreas que ficariam menos protegidas se cada trecho dependesse apenas de seus próprios canhões. Essa disposição também dificultava que tropas inimigas se aproximassem sem entrar no campo de tiro de outras posições.

O conjunto incluía diferentes elementos, cada um com uma função defensiva específica:

  • Baluartes: saliências angulares que abrigavam posições de defesa e permitiam cobrir trechos adjacentes.
  • Cortinas: segmentos de muralha que conectavam os baluartes.
  • Fossos: obstáculos que dificultavam a aproximação direta dos atacantes.
  • Revelins: estruturas avançadas que protegiam pontos vulneráveis, como partes das cortinas e acessos.

O resultado era uma defesa integrada, e não apenas uma parede alta e espessa. A geometria ajudava a reduzir pontos cegos e a dificultar a aproximação, embora não tornasse a fortaleza invulnerável. O artigo da Catraca Livre sobre a cidade portuguesa com muralhas em forma de estrela apresenta outros detalhes desse complexo e de sua importância histórica.

A fortaleza de Elvas parece uma estrela nas imagens aéreas, mas cada ângulo tinha uma função. Veja como o sistema defensivo protegia a cidade portuguesa.
A fortaleza de Elvas parece uma estrela nas imagens aéreas, mas cada ângulo tinha uma função. Veja como o sistema defensivo protegia a cidade portuguesa.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a artilharia mudou a arquitetura militar?

O desenvolvimento dos canhões tornou mais vulneráveis muitas muralhas medievais altas e relativamente estreitas. Os projéteis podiam abrir brechas, e os atacantes passaram a utilizar bombardeios para enfraquecer as defesas antes de avançar. A arquitetura abaluartada respondeu com muralhas mais baixas e espessas, taludes inclinados, fossos e posições de artilharia organizadas para dificultar o avanço inimigo. O formato angular também ajudava os defensores a cobrir o terreno ao redor e a proteger as próprias estruturas.

Elvas não permaneceu congelada no projeto inicial. Nos séculos seguintes, as defesas foram ampliadas e adaptadas à evolução das armas e das estratégias de guerra. No século XVIII, por exemplo, a construção do Forte da Graça respondeu à necessidade de reforçar a proteção diante da artilharia de maior alcance. Essa evolução mostra que a fortificação era um sistema em transformação, ajustado às novas ameaças e à posição estratégica da cidade na fronteira.

O que faz das fortificações de Elvas um patrimônio histórico?

O valor do conjunto não está apenas no desenho das muralhas. A área protegida reúne o centro histórico, o Forte de Santa Luzia, o Forte da Graça, fortins auxiliares e o Aqueduto da Amoreira, que ajudava a garantir o abastecimento de água durante cercos prolongados. As estruturas revelam como a defesa militar influenciou o planejamento urbano, a infraestrutura e a organização da vida dentro de uma cidade de fronteira.

Inscrita na Lista do Patrimônio Mundial em 2012, Elvas é reconhecida pela UNESCO como um exemplo excepcional de cidade-guarnição e de sistema defensivo abaluartado com fossos secos. A forma de estrela que chama atenção nas imagens aéreas é, portanto, a expressão visível de uma estratégia mais ampla: combinar geometria, terreno, artilharia e estruturas de apoio para tornar a aproximação inimiga mais difícil. Hoje, as muralhas preservadas permitem compreender como a tecnologia militar transformou a arquitetura e deixou marcas permanentes na paisagem portuguesa.