A Líbia construiu uma rede gigantesca para retirar água de 40 mil anos sob o Saara, mas cada litro usado esconde um problema sem volta
Sistema subterrâneo abastece cidades e plantações, mas cientistas alertam que sua água antiga é um recurso finito e compartilhado por quatro países.
Debaixo de uma das paisagens mais secas do planeta existe uma reserva de água formada quando o Saara era muito diferente do deserto atual. Parte desse líquido permaneceu isolada por cerca de 40 mil anos. Hoje, uma gigantesca rede de tubulações leva essa água para cidades e plantações da Líbia, mas há um detalhe decisivo: o que é retirado praticamente não volta.

Que água antiga existe sob o deserto?
A reserva faz parte do Sistema Aquífero de Arenito Núbio, uma imensa formação subterrânea que se estende sob Líbia, Egito, Chade e Sudão. A Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, classifica o sistema como o maior aquífero conhecido de água fóssil do mundo, cobrindo aproximadamente 2 milhões de quilômetros quadrados.
A NASA explica que mudanças geológicas podem isolar um aquífero das fontes que normalmente o recarregariam. Datações por radiocarbono indicaram que parte da água encontrada na Líbia está armazenada há aproximadamente 40 mil anos, desde antes do fim da última era glacial. É como abrir hoje uma reserva líquida preservada desde a pré-história.

Como essa água chegou às cidades da Líbia?
A descoberta de grandes reservas subterrâneas ocorreu durante explorações de petróleo na década de 1950. Diante da escassez de água nas áreas mais povoadas, a Líbia optou por bombeá-la do interior do Saara. O projeto conhecido como Grande Rio Artificial começou a ser construído na década de 1980, com extensa infraestrutura de poços e tubulações.
A pedra fundamental foi lançada em 1984 e o fornecimento começou no início da década seguinte. A água passou a percorrer enormes distâncias em direção ao norte, abastecendo centros urbanos e projetos agrícolas. Imagens do satélite Terra divulgadas pela NASA em 2006 chegaram a registrar reservatórios e campos irrigados associados ao aproveitamento dessas águas subterrâneas.
Por que essa reserva não consegue se recuperar?
A diferença está no tempo. Aquíferos renováveis podem receber água de chuvas e infiltrações, ainda que lentamente. No Arenito Núbio, porém, grande parte do estoque é fóssil e está fora do ciclo hidrológico ativo. A AIEA afirma que essa parcela é antiga e não renovável, o que significa que a retirada representa uma redução efetiva do estoque disponível.
A dimensão impressiona, mas não elimina o problema. A AIEA estimou as reservas do sistema em volume equivalente a cerca de 500 anos de vazão do rio Nilo e aproximadamente 20 vezes o volume dos Grandes Lagos da América do Norte. A própria agência compara seu uso ao petróleo: trata-se de um recurso que pode ser explorado, mas não simplesmente reposto depois.
- O aquífero se estende sob Líbia, Egito, Chade e Sudão.
- Parte da água subterrânea da Líbia foi datada em cerca de 40 mil anos.
- Grande parte da reserva é considerada fóssil e não participa do ciclo atual de recarga.
- A exploração precisa considerar impactos que podem atravessar as fronteiras entre os quatro países.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Pandora BR mostrando como a Líbia fez grandes rios percorrerem abaixo do Saara.
O que os cientistas descobriram ao estudar o aquífero?
Em 2006, um projeto envolvendo AIEA, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Fundo Global para o Meio Ambiente e UNESCO passou a investigar o sistema com hidrologia isotópica. A técnica analisa formas naturais de elementos presentes na água para reconstruir sua origem, caminhos subterrâneos, taxas de recarga e vulnerabilidade.
Os pesquisadores também desenvolveram um modelo computacional tridimensional capaz de simular o movimento da água e possíveis mudanças de nível ao longo do tempo. A preocupação não é apenas saber quanto existe, mas entender como a retirada em um país pode influenciar os demais. Em 2013, as quatro nações assinaram um programa de gestão conjunta do aquífero.
O gigante escondido sob o Saara pode um dia acabar?
A resposta científica exige cautela porque determinar exatamente quanto tempo o estoque utilizável durará depende do ritmo de bombeamento, da distribuição da água e de características do próprio aquífero. Ainda assim, a AIEA reconhece que o sistema pode eventualmente ser esgotado e alerta que o aumento das retiradas sem gestão adequada ameaça a qualidade da água, ecossistemas e terras da região.
O Grande Rio Artificial transformou uma reserva escondida no deserto em água disponível para milhões de necessidades humanas, mas também colocou diante da região uma escolha de longo prazo. Cada retirada consome parte de uma herança formada há milhares de anos. Entender esse limite agora é essencial, porque nenhuma obra conseguirá fabricar rapidamente aquilo que a natureza levou eras geológicas para armazenar.