“A marcenaria se tornou uma forma prática e urgente de exercer meu feminismo”

Conheça Eva Mota, jornalista que usou criatividade e autonomia para transformar marcenaria em ferramenta de trabalho e resistência para mulheres

Conteúdo por Eva Mota

Era uma pasta maleta grande carregada de livros e cadernos cheios de colcheias, semibreves e claves de sol escritos. Seguia feliz para as aulas de piano, às três da tarde, debaixo do sol escaldante de Jequié. Tinha sete anos e mesmo sendo uma cidade do interior na Bahia, não era fácil driblar os perigos da rua e ir sozinha ao destino. Passei anos nesse trajeto e foi assim que o amor e dedicação à música se deu. Prazer, Eveline, mas pode me chamar de Eva.

As infâncias nas periferias moldam a gente diferente. Sejam pela violência, abandono, sejam pela criatividade necessária diante da escassez. E justamente pela falta de acesso, que a inventividade e o senso de coletividade podem aflorar muitas vezes.

Aprendi a fazer muito com muito pouco. A ser versátil e improvisar para conseguir as coisas da vida. Características que o jornalismo adora.

Aos 18 anos saí de Jequié para outra cidade do interior, Vitória da Conquista e ingressei em 2003 no curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Fui a segunda geração da minha família a conseguir. Meu desejo era escrever na editoria de Cultura.

Dois anos depois, ainda aluna, passei no teste da disciplina de Telejornalismo, empunhei um microfone em frente às câmeras ao vivo pela primeira vez, para transmitir três noites do Festival de Música da Bahia. E assim, o Tele me escolheu. Depois daí passaria por três emissoras afiliadas da TV Brasil, Globo e Record. Me tornei repórter do jornalismo factual porque foi onde encontrei trabalho. Digo que a reportagem me explicou o mundo. Ampliou meu senso de humanidade, conhecimento e reafirmou minhas bandeiras. Quando podia ter as pautas de Cultura e Música nas mãos, me refestelava, mas trabalhar exclusivamente com essas editorias, nunca foi possível.

Eva Mota construiu sua trajetória entre o jornalismo, a cultura, o design e, desde 2017, a marcenaria para mulheres
Eva Mota construiu sua trajetória entre o jornalismo, a cultura, o design e, desde 2017, a marcenaria para mulheres - Júlia Carani

Foram anos exercendo a função que amava, mas a precariedade, baixos salários, riscos cada vez mais crescentes e os assédios intermináveis foram me minando. Tentava, argumentava, sugeria mudanças, mas rapidamente comecei a ser vista mais como problema que solução nas redações.

Depois de muito desgaste, sofrimento, adoecimentos, pedi demissão. O momento mais difícil da minha vida até então. Foi muito esforço, sacrifícios, tempo, dinheiro, estudo investidos. Olhei para o lado e não pensei muito, precisava trabalhar, o feijão estava no fogo e as contas chegando. A única opção que podia ter acesso foi tentar profissionalizar um hobbie: Design de Interiores. Entre bicos e freelas, consegui pagar um curso técnico e rápido. Arranjei estágio, me formei e já encarei o mercado mesmo com uma formação frágil.

A criação de uma marcenaria para mulheres

Comecei a empreender com r$ 500 na conta. Mas mesmo caindo das pernas, consegui ter uma cartela de clientes, desenvolver minha assinatura estética baseada em muitas cores, misturas de texturas e brasilidade. Abri meu pequeno estúdio criativo. Paralelo a isso, crio meu blog e passo a fazer Comunicação Digital novamente, já que sou do tempo do Fotolog. O blog colocaria meu trabalho em circuito nacional, mesmo falando do interior. Sairia em jornais, revistas, sites Brasil a fora. E isso me daria base para sair do meu território. Eu já tinha adubado o chão que pisaria.

O papel do design de interiores era ser ponte. O desejo de entender os processos do mobiliário me colocava dentro das marcenarias. Aprendia só e vivia tirando dúvidas com os profissionais. Depois de anos, pedi uma informação e em troca ouvi um pedido de favor sexual.

Naquele momento, a fúria me fez ter uma ideia: queria aprender marcenaria de uma forma segura. E se isso não existia na Bahia, eu ia atrás de inventá-la. Como? Não sabia. Achei apenas um curso em todo o estado e mesmo não sendo o que queria, fui para Salvador por poucos meses. Voltei certa de que queria desenvolver mais. E nada melhor que botar a mão na massa. Peguei as ferramentas que tinha, criei um roteiro e no dia 16 de dezembro de 2017 divulguei a primeira Oficina de Introdução à Marcenaria para Mulheres.

O que começou como uma busca pessoal por um espaço seguro para aprender se transformou em uma oficina que já alcançou mais de 1.000 mulheres
O que começou como uma busca pessoal por um espaço seguro para aprender se transformou em uma oficina que já alcançou mais de 1.000 mulheres - Filipe Redondo

No início não sabia muito como se daria. Hoje, quase nove anos, mais de 1000 mulheres, 97 turmas presenciais e um curso online para 53 países depois, eu sei. Eu sei bem.

A marcenaria se tornou uma forma prática e urgente de exercer meu feminismo.

Antes da criação do mobiliário, a Oficina é sobre autonomia, encorajamento e geração de renda. É estar dentro de um espaço para aprender com acolhimento e diversão. É um projeto difícil. Caro, pesado para a saúde. Não é fácil colocar mulheres todos os meses dentro de uma marcenaria. Mas a cada uma que se transforma, transforma o meu cansaço momentâneo em fé renovada.

Moro em São Paulo há oito anos. Vim para estudar marcenaria e trabalhar como jornalista autônoma. A transição para cá foi dificílima. Vim abrir meu caminho aqui. Entendi que sou uma autônoma integral. Construí minhas realidades. Voltei para tevê aqui e tive meu próprio programa em rede nacional do Discovery/Warner Bros. Não quis seguir com o projeto, mas me orgulho profundamente da Evinha de Jequié dentro das tevês do Brasil inteiro e América Latina. As probabilidades de isso acontecer em um país como nosso são minúsculas.

O módulo 2 da Oficina está sendo produzido. E 23 anos depois, consegui estudar Jornalismo Musical na PUC/SP e miro uma pós-graduação em Cultural na UERJ. Afinal, “sonhos não envelhecem”, não é verdade?

Quem é Eva?

Sou Eva Mota, baiana, jornalista pela UESB-Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e designer pela EBADE-Escola Baiana de Arte e Decoração. Pesquiso e escrevo sobre Cultura, Música e dou aulas de introdução à marcenaria para mulheres de 2017. Resido em São Paulo.