A psicologia diz que adultos que baixam o olhar ao falar não fazem isso por timidez: estão pensando na resposta certa

Estudos mostram que manter o contato visual disputa recursos com o raciocínio nas perguntas mais difíceis

Sabe aquela pessoa que, no meio da conversa, olha para baixo antes de responder? A psicologia indica que, na maioria das vezes, isso não é timidez nem falta de educação: o gesto ajuda o cérebro a se concentrar para encontrar a resposta certa.

A ideia ganhou força com um texto do jornal espanhol OKDIARIO sobre adultos que baixam o olhar ao falar, publicado no domingo (1º), e se apoia em pesquisas sobre o custo mental de encarar alguém enquanto se pensa. Olhar nos olhos, ao que tudo indica, dá mais trabalho do que parece.

Depois de organizar o pensamento, o contato visual costuma voltar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
Depois de organizar o pensamento, o contato visual costuma voltar – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Encarar alguém consome energia do cérebro

Um rosto olhando de volta para a gente é uma fonte intensa de informação. O cérebro lê expressão, intenção e reação o tempo todo, e essa leitura disputa espaço com outras tarefas, como montar uma frase difícil.

Foi isso que os pesquisadores Shogo Kajimura e Michio Nomura, da Universidade de Kyoto, no Japão, testaram em um estudo publicado em 2016 na revista científica Cognition. Segundo o resumo da Sociedade Britânica de Psicologia sobre o estudo do contato visual, 26 voluntários olhavam para rostos em vídeo enquanto ouviam um substantivo e precisavam dizer em voz alta um verbo ligado a ele.

Quando a palavra era fácil, como leite, que puxa logo o verbo beber, o olhar do rosto na tela não fazia diferença. Quando a associação era difícil, os participantes demoravam mais para responder se o rosto estivesse olhando diretamente para eles.

Por que o olhar foge justamente nas perguntas difíceis

A explicação dos autores é que manter o contato visual e procurar palavras usam a mesma reserva limitada de recursos mentais. Quando a tarefa aperta, desviar os olhos libera parte dessa reserva para o raciocínio.

Uma pesquisa mais antiga aponta na mesma direção. Um estudo de Gwyneth Doherty-Sneddon e F. Phelps, publicado em 2005 na revista Memory and Cognition, acompanhou 36 crianças de 8 anos. Elas desviavam mais o olhar quando as perguntas eram difíceis, e também quando eram questionadas cara a cara, em vez de por vídeo. A conclusão do estudo foi que a principal função de olhar para o lado é administrar a carga mental.

O texto espanhol resume bem a cena do dia a dia: quem baixa os olhos para responder pode estar só reduzindo a intensidade da conversa para pensar melhor. E, segundo o OKDIARIO, quem ouve costuma olhar por mais tempo para o outro do que quem está falando.

O olhar também organiza a vez de cada um falar

O contato visual não serve só para demonstrar atenção. Uma revisão de 29 estudos publicada em 2021 na revista Frontiers in Psychology mostrou que o olhar ajuda a passar a vez na conversa, a monitorar a fala durante a conversa e a evitar ou consertar mal-entendidos.

Por isso, desviar os olhos enquanto se pensa pode funcionar como um sinal discreto de “ainda não terminei”. Não é exclusividade humana organizar os turnos de fala: a Catraca já mostrou como saguis esperam a vez de falar em conversas com várias rodadas.

Cultura e contexto mudam o significado

O mesmo gesto pode ser lido de formas diferentes dependendo de onde a pessoa cresceu. Um estudo de 2013 da Universidade de Tóquio com a Universidade de Tampere, publicado na revista PLOS ONE, comparou japoneses e finlandeses diante de fotos de rostos. Os participantes japoneses avaliaram os rostos que os encaravam como mais bravos e menos acessíveis do que os finlandeses avaliaram.

O contexto pesa tanto quanto a cultura. O próprio OKDIARIO lembra que, em certas situações, evitar o olhar pode ser interpretado como desrespeito. Numa entrevista de emprego ou numa reunião tensa, vale saber que o outro lado talvez não conheça essa explicação.

Quando pode ser mais do que concentração?

Nem todo olhar baixo é sinal de raciocínio. O estudo de 2005 também considerou a explicação social: desviar os olhos pode aliviar emoções desagradáveis, como constrangimento ou medo de errar. Em algumas pessoas, isso pesa mais.

Os estudos também têm limites. O de Kyoto ouviu poucas pessoas, em laboratório, olhando para uma tela e não para alguém de carne e osso. Ou seja, eles explicam uma tendência, não leem a mente de ninguém.

Se a dificuldade de encarar os outros vem com sofrimento, evita situações sociais ou atrapalha o trabalho e os estudos, a conversa é outra. Nesse caso, vale buscar ajuda profissional, e a Catraca explica a diferença entre psicólogo e psiquiatra e quando procurar cada um. No SUS, o atendimento em saúde mental pode começar na unidade básica de saúde.