A tribo amazônica Amondawa não utiliza semanas, meses ou anos para descrever o tempo. Sua língua o relaciona a eventos e estágios da vida.
A relação entre estágios da vida e identidade é uma das características mais interessantes descritas pelos pesquisadores.
Para o povo Amondawa, da Amazônia brasileira, organizar a passagem do tempo tradicionalmente não depende de semanas, meses, anos ou de uma idade expressa numericamente. Pesquisas linguísticas mostram que sua língua utiliza acontecimentos, ciclos ambientais e fases da vida como referências temporais. Isso não significa viver “sem tempo”, mas estruturá-lo de maneira diferente daquela determinada por relógios e calendários.

O que significa não usar semanas, meses ou anos?
O Amondawa não possui um sistema tradicional de calendário numérico que divida continuamente a vida em unidades equivalentes às nossas semanas, meses e anos. A pesquisa publicada na revista Language and Cognition identificou ainda que a língua não utiliza de maneira convencional metáforas espaciais para falar do tempo, como fazemos ao dizer que uma data “está chegando” ou que um acontecimento “ficou para trás”.
- Não há um calendário tradicional baseado na contagem de semanas, meses e anos.
- As atividades podem ser situadas em relação a acontecimentos concretos.
- Dia, noite e mudanças ambientais oferecem referências reconhecíveis.
- A sequência entre acontecimentos continua sendo perfeitamente compreendida.
- O tempo não precisa ser tratado como uma quantidade independente para organizar a vida cotidiana.
Como eventos e mudanças da natureza substituem o calendário?
Os pesquisadores descrevem um sistema de tempo baseado em eventos. Em vez de localizar necessariamente uma atividade em determinada data, é possível relacioná-la ao nascer ou pôr do sol, à escuridão, às atividades sociais realizadas em certos períodos ou às transformações observadas no ambiente. Estudos posteriores com povos indígenas amazônicos confirmaram a importância de índices ambientais, celestes e sociais para estruturar esses intervalos.
As estações também oferecem referências concretas. Entre os Amondawa são reconhecidos períodos associados à estação seca e à estação chuvosa, mas esses dois ciclos não são reunidos em uma unidade superior equivalente ao nosso “ano”. A lógica parte do acontecimento observável — chuva, seca, luz ou atividade humana — em vez de transformar essa duração automaticamente em um número no calendário.
Por que os estágios da vida também aparecem nos nomes das pessoas?
A relação entre estágios da vida e identidade é uma das características mais interessantes descritas pelos pesquisadores. Tradicionalmente, a posição de uma pessoa ao longo da vida não precisa ser resumida por frases como “tenho 20 anos” ou “ele tem 60 anos”. O sistema de nomes e relações familiares pode acompanhar mudanças de idade e posição social, criando referências para diferentes fases sem depender de uma contagem cronológica em anos.
- A idade numérica não ocupa o mesmo papel central encontrado em sociedades orientadas pelo calendário.
- Nomes podem mudar conforme a pessoa atravessa diferentes fases da vida.
- Relações familiares participam desse sistema de identificação.
- Maturidade e posição social podem funcionar como marcadores mais relevantes do que um número de anos.

Os pesquisadores descrevem um sistema de tempo baseado em eventos. - Imagem gerada por IA
Isso significa que os Amondawa não possuem noção de tempo?
Não. Essa interpretação foi justamente uma das simplificações que surgiram quando a pesquisa ganhou repercussão. Os Amondawa reconhecem que um acontecimento ocorreu antes ou depois de outro, percebem duração, envelhecimento, ciclos do dia e mudanças sazonais. O que os estudos questionam é a ideia de que toda sociedade necessariamente precisa transformar essas experiências em uma entidade abstrata e mensurável chamada “tempo”.
A distinção fica clara quando se compara “depois da chuva” com “daqui a três meses”. As duas construções podem localizar acontecimentos, mas apenas a segunda depende de um sistema métrico de calendário. Pesquisadores ressaltam também que falantes Amondawa podem aprender português e suas expressões temporais, portanto não existe incapacidade cognitiva para entender semanas, datas ou anos. Trata-se de uma diferença linguística e cultural.
O que os Amondawa revelam sobre a maneira humana de entender o tempo?
O Amondawa tornou-se importante para a linguística porque mostra que algumas formas aparentemente universais de organizar o tempo estão ligadas a tecnologias culturais como números, relógios e calendários. A pesquisa encontrou uma língua com um sistema numérico limitado, sem calendário tradicional e com intervalos temporais construídos principalmente a partir de acontecimentos ambientais e sociais.
O caso também ajuda a separar duas coisas que parecem iguais para quem vive seguindo horários: experimentar a passagem dos acontecimentos e medi-la numericamente. Os Amondawa observam dias, noites, estações, crescimento e mudanças sociais, mas tradicionalmente não precisam transformar cada uma dessas experiências em horas, meses ou anos. É essa diferença que torna sua língua tão relevante para compreender até que ponto nossa maneira de falar sobre o tempo vem da experiência humana e até que ponto foi construída pelos instrumentos culturais usados para medi-la.