Abelhas receberam pequenas bolas de madeira sem qualquer recompensa e voltaram a empurrá-las repetidas vezes, num comportamento semelhante a uma brincadeira
Mamangavas voltaram repetidamente a empurrar pequenas bolas sem receber comida, comportamento que pesquisadores associaram à ideia de brincadeira.
Em um laboratório, abelhas receberam pequenas bolas de madeira. Algumas passaram a empurrá-las repetidamente mesmo quando não havia alimento disponível por realizar a tarefa. Para pesquisadores do comportamento animal, a cena levantou uma pergunta curiosa: seria uma forma de brincadeira? A resposta não veio da aparência divertida do vídeo, e sim de comparar oportunidades, recompensas e repetições do movimento. O estudo com mamangavas publicado em 2022 mostra que o comportamento pode satisfazer critérios usados para investigar jogos em animais. Ainda assim, ninguém consegue perguntar a um inseto se ele “se diverte” como uma criança.

O que as mamangavas fizeram com as bolas?
Em experimentos conduzidos por pesquisadores da Queen Mary University of London, mamangavas da espécie Bombus terrestris puderam passar por uma área com pequenas bolas de madeira a caminho de alimento. Algumas rolaram os objetos várias vezes mesmo sem receber açúcar por isso. O comportamento aparecia fora da tarefa necessária para chegar à recompensa. A equipe registrou quantas vezes os insetos interagiam com as bolas e comparou diferentes condições.
Indivíduos mais jovens tenderam a rolar mais bolas, segundo os autores, e houve diferenças entre grupos observados. Os dados não significam que todas as abelhas da natureza brincam com objetos do mesmo modo. O estudo descreve uma espécie em um ambiente experimental. Sua força está em permitir que um gesto aparentemente casual seja observado com critérios claros e comparado a hipóteses alternativas.

Como diferenciar brincadeira de busca por comida?
Para considerar o comportamento lúdico, pesquisadores procuram ações que não atendam a uma necessidade imediata, não recebam reforço alimentar direto e apareçam de forma repetida em condições sem estresse evidente. Rolar bolas não gerava acesso ao açúcar naquele teste. A equipe também avaliou preferências por espaços associados à presença dos objetos, um indício complementar de que a interação tinha valor para os insetos.
Alguns cuidados impedem uma conclusão apressada a partir de uma única filmagem:
- Separar o experimento sem recompensa de tarefas em que empurrar uma bola dava acesso a alimento.
- Registrar repetições e diferenças individuais, em vez de escolher apenas uma cena engraçada.
- Verificar se o objeto é usado sem servir de comida, abrigo ou material de ninho.
- Evitar concluir que o inseto sente emoções humanas só porque o movimento nos diverte.
Esse teste é igual ao antigo “gol de abelha”?
Não. Num experimento anterior, abelhas aprenderam a deslocar uma bola até um alvo para obter açúcar. Ali havia tarefa e recompensa, o que demonstrava aprendizagem, mas não a mesma evidência de uma ação sem benefício imediato. O vídeo brasileiro escolhido para acompanhar esta matéria explica aquele teste de 2017. Ele ajuda a ver que os insetos conseguem manipular bolas; para entender por que o estudo de 2022 levantou a hipótese de brincadeira, é necessário notar que a recompensa foi retirada da relação com o objeto.
Uma matéria sobre mamangavas aprendendo uma tarefa com bola ajuda a visualizar a diferença entre dois desenhos experimentais. Nesse caso, a distinção essencial está no desenho experimental. O mesmo movimento de empurrar uma bola pode ser parte de uma tarefa aprendida para ganhar alimento ou surgir numa situação em que nada é ganho. A interpretação depende do contexto medido.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube BBC News Brasil, que fala sobre o experimento anterior em que abelhas movem bolas por recompensa, distinguido no texto do estudo de brincadeira sem recompensa:
https://www.youtube.com/watch?v=SHTW-Y767VA
O que ainda não sabemos sobre a experiência das abelhas?
Os critérios observáveis sugerem brincadeira, mas não revelam como é a experiência subjetiva do inseto. Não sabemos se rolar objetos produz algo comparável ao prazer humano, nem podemos usar um laboratório para descrever todas as situações naturais. A pesquisa abre novas perguntas sobre desenvolvimento, aprendizagem e condições em que o comportamento aparece, sem fechar um debate amplo sobre emoções em invertebrados.
Também importa lembrar que uma mamangava possui necessidades ecológicas complexas: procurar flores, orientar-se, alimentar a colônia e lidar com mudanças no ambiente. O estudo não transforma brinquedos de madeira em recomendação de manejo para abelhas silvestres. Em vez disso, mostra que pesquisadores podem testar, com rigor, comportamentos que antes seriam descartados como movimentos sem significado.
Por que a descoberta mudou a conversa sobre insetos?
Muitas vezes, um comportamento pequeno é descrito como automático apenas porque o animal também é pequeno. Ver mamangavas escolhendo e repetindo interações com objetos sem prêmio imediato obriga a examinar essa suposição. O resultado não exige tratá-las como miniaturas de pessoas. Exige formular melhor as perguntas e reconhecer que diferentes espécies podem explorar o ambiente de formas inesperadas.
O detalhe decisivo permanece simples: no experimento de 2022, as bolas não entregavam comida pelo movimento. Foi essa ausência de recompensa, combinada com outros critérios, que tornou a palavra “brincadeira” uma hipótese científica plausível. Ainda há limites sobre o que o gesto significa para a própria abelha; é justamente por isso que acompanhar o método torna a cena mais interessante que a comparação fácil com um jogo humano.