Adestradores explicam: cachorro que empaca no passeio ou evita escada pode estar avisando de um incômodo
Liquindoli explica como adaptar passeios, brincadeiras e a casa para o cachorro que está envelhecendo
Quando o cachorro empaca no meio do passeio, desvia de uma escada que sempre subiu ou se afasta quando alguém toca em certa parte do corpo, o comportamento merece atenção. Para o adestrador Juan Manuel Liquindoli, especialista em etologia clínica, esses gestos podem ser a forma que o animal encontrou para mostrar um incômodo físico.
A orientação foi publicada pela rádio argentina Radio Mitre, em uma reportagem sobre o envelhecimento dos cães. Com os anos, explica o especialista, muitos passam a caminhar mais devagar, dormir mais e mostrar menos interesse por certas brincadeiras, e parte dessas mudanças pede ajustes na rotina.

O alerta do adestrador sobre o passeio
A frase que resume o recado de Liquindoli é direta: “Se o seu cachorro para durante um passeio, evita uma escada ou rejeita o contato em uma região específica, convém prestar atenção ao que ele tenta comunicar”.
Na avaliação do especialista, o animal que trava, recua ou se esquiva pode estar manifestando algum desconforto. Por isso, a recomendação é não obrigá-lo a seguir com uma atividade que se mostrou incômoda.
Puxar a guia com mais força ou levar o cachorro no colo até o alto da escada resolve o momento, mas não responde à pergunta que importa: o que mudou?
Por que a dor costuma passar despercebida?
A Escola de Veterinária da Universidade de Bristol, no Reino Unido, mantém um estudo sobre artrite em cães e afirma que a osteoartrite é o tipo mais comum de artrite na espécie e uma causa muito frequente de dor crônica, principalmente em animais mais velhos.
Segundo a instituição, os sinais nem sempre são fáceis de perceber, porque cada cão reage à dor de um jeito, conforme idade, saúde e raça. Não é raro que esses sinais sejam confundidos com a lentidão própria da velhice. Entre os comportamentos que a universidade pede para observar estão:
- dificuldade para pular no carro, no sofá ou na cama;
- rigidez depois dos passeios;
- dificuldade para subir escadas;
- menos vontade de se exercitar ou de brincar;
- mancar;
- dor ou sensibilidade ao ser tocado;
- mudanças de comportamento, como isolamento ou agressividade.
A escada evitada e o toque recusado aparecem tanto na fala do adestrador quanto na lista da veterinária. Bristol acrescenta que a dor da osteoartrite varia com a atividade recente, a medicação e até o clima, e que é comum o cachorro alternar fases boas e ruins. Um dia normal, portanto, não desmente o dia anterior.
Passeio mais curto, com tempo para farejar
Para cães que estão envelhecendo, Liquindoli recomenda respeitar o ritmo de cada um. Na prática, isso significa evitar caminhadas longas ou exigentes demais, deixar o animal avançar no próprio passo e permitir pausas sempre que ele pedir.
Outro conselho é reservar parte do trajeto para cheirar e explorar. Segundo o especialista, essas atividades mantêm a mente estimulada sem grande esforço físico. O hábito de ficar cheirando o mesmo lugar durante muito tempo no passeio faz parte desse repertório e não precisa ser apressado. Se o cachorro mostrar cansaço, dor ou dificuldade para continuar, o certo é parar.
As brincadeiras também podem mudar. O adestrador sugere esconder petiscos em lugares fáceis de alcançar, propor jogos de faro e usar brinquedos simples, sem saltos, corridas ou movimentos bruscos que possam provocar incômodo.
Como adaptar a casa para um cão mais velho
Com o tempo, alguns cães perdem força, equilíbrio ou coordenação, e os deslocamentos do dia a dia ficam mais difíceis. Para aumentar a segurança, Liquindoli indica pisos antiderrapantes, rampas e espaços livres de obstáculos, além de deixar a cama, a água e a comida em pontos de fácil acesso.
Em apartamentos brasileiros com porcelanato ou piso laminado liso, tapetes emborrachados nos caminhos que o cachorro mais usa seguem essa orientação sem obra. Em casas com escada, uma rampa ou um portãozinho que limite o acesso ao andar de cima evita que ele tente subir num dia ruim.
Quando a consulta veterinária não pode esperar
O especialista reforça que as consultas veterinárias periódicas são fundamentais para detectar problemas de saúde cedo. Alguns sinais pedem avaliação sem demora: perda repentina de mobilidade, falta de apetite, desorientação e mudanças bruscas de comportamento.
A desorientação nem sempre tem a ver com dor. Um cão idoso que começa a se perder dentro de casa pode estar passando por alterações cognitivas, um quadro diferente que também merece exame.
Para Liquindoli, nem toda mudança deve ser colocada na conta da idade, e o cuidado certo pode melhorar a qualidade de vida do animal. Remédio para dor também é assunto do veterinário, que sabe o que é seguro para cada caso. Cachorro não reclama com palavras, e é justamente por isso que o jeito de andar, de subir e de se deixar tocar diz tanto.