Alexander Fleming alertou em 1945: “Chegará o tempo em que a penicilina poderá ser comprada por qualquer um nas lojas. Existe então o perigo de o homem ignorante facilmente se subdosar”

Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade.

Alexander Fleming percebeu cedo que a penicilina poderia transformar o tratamento das infecções bacterianas e, ao mesmo tempo, criar um novo problema para a medicina. Em dezembro de 1945, durante seu discurso do Prêmio Nobel, ele advertiu que o uso de doses insuficientes permitiria a sobrevivência dos microrganismos mais resistentes.

Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade.
Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade. - Imagem gerada por IA

O que Alexander Fleming previu em seu discurso de 1945?

Fleming imaginou um futuro em que a penicilina estaria disponível com facilidade e poderia ser utilizada sem conhecimento adequado. O perigo, segundo ele, apareceria quando uma pessoa expusesse as bactérias a quantidades não letais do medicamento, favorecendo a formação de uma população resistente.

O alerta não era uma defesa da restrição absoluta dos antibióticos. Fleming chamava atenção para a necessidade de utilizar o medicamento correto, na quantidade e pelo período definidos para cada infecção, evitando improvisações que deixassem parte das bactérias vivas.

Como uma dose insuficiente favorece bactérias resistentes?

Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade. Quando o antibiótico não alcança uma exposição capaz de controlar a infecção, as bactérias mais suscetíveis desaparecem primeiro, enquanto aquelas com maior resistência encontram espaço para sobreviver e se multiplicar:

  • O medicamento entra em contato com a população bacteriana;
  • As bactérias mais sensíveis são eliminadas;
  • Microrganismos resistentes conseguem permanecer vivos;
  • As sobreviventes se reproduzem e transmitem suas características;
  • O mesmo antibiótico pode perder eficácia em tratamentos futuros.

Por que a descoberta da penicilina mudou a medicina?

Em 1928, Alexander Fleming observou que um fungo havia contaminado uma placa usada no cultivo de estafilococos. Ao redor do mofo, as colônias bacterianas tinham desaparecido, indicando que o fungo produzia uma substância capaz de impedir o crescimento dos microrganismos. Essa substância recebeu o nome de penicilina.

A descoberta inicial ainda precisou do trabalho de pesquisadores como Howard Florey, Ernst Chain e Norman Heatley para ser purificada, testada e produzida em maior escala. Em 1945, Fleming, Florey e Chain dividiram o Nobel de Fisiologia ou Medicina pelo desenvolvimento que abriu uma nova era no combate às infecções.

Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade.
Uma população bacteriana pode conter microrganismos com diferentes níveis de sensibilidade. - Imagem gerada por IA

Quais hábitos aceleram a resistência antimicrobiana?

O uso excessivo ou inadequado de antibióticos continua entre os principais fatores que favorecem a resistência antimicrobiana. O problema não depende apenas de uma pessoa, pois as bactérias resistentes podem circular em hospitais, comunidades, animais, alimentos e no meio ambiente.

  • Tomar antibióticos sem avaliação e prescrição adequadas;
  • Usar esses medicamentos contra gripes e outras infecções virais;
  • Interromper ou alterar o tratamento por conta própria;
  • Compartilhar comprimidos ou guardar sobras para outra ocasião;
  • Empregar antibióticos de forma excessiva na criação de animais;
  • Descartar medicamentos incorretamente no lixo ou no esgoto.

O alerta de 1945 permanece atual

Estimativas globais apontaram cerca de 1,27 milhão de mortes diretamente atribuíveis à resistência bacteriana em 2019. Dados mais recentes indicam que o problema esteve associado a mais de 4,7 milhões de mortes em 2021 e que aproximadamente uma em cada seis infecções bacterianas confirmadas em laboratório apresentou resistência aos antibióticos em 2023.

O avanço de novas estratégias contra superbactérias mostra que a ciência continua procurando alternativas, mas preservar os medicamentos existentes ainda é indispensável. O uso responsável dos antibióticos, aliado ao diagnóstico correto, à prevenção de infecções e ao desenvolvimento de novos tratamentos, confirma a precisão do aviso feito por Fleming oito décadas atrás.