Antes das grandes árvores, uma criatura de metros de altura ocupava a Terra e ninguém consegue dizer exatamente o que ela era

Novas análises anatômicas e químicas desafiam a antiga ideia de um fungo gigante e apontam para uma linhagem evolutiva sem equivalente moderno.

Imagine caminhar por uma paisagem de 407 milhões de anos atrás e encontrar uma estrutura semelhante a um tronco erguendo-se muito acima das pequenas plantas ao redor. Esse organismo era o Prototaxites, um dos maiores seres terrestres de sua época. Durante mais de 165 anos, cientistas discutiram se ele era um fungo gigante, mas novas análises indicam algo ainda mais estranho: ele pode representar uma linhagem complexa que desapareceu completamente.

O Prototaxites viveu entre o final do Siluriano e o Devoniano, quando as paisagens terrestres eram muito diferentes das atuais
O Prototaxites viveu entre o final do Siluriano e o Devoniano, quando as paisagens terrestres eram muito diferentes das atuais - Imagem gerada por IA

Que criatura gigante era o Prototaxites?

O Prototaxites viveu entre o final do Siluriano e o Devoniano, quando as paisagens terrestres eram muito diferentes das atuais. Seus fósseis formam estruturas semelhantes a grandes colunas e alguns exemplares do gênero alcançavam cerca de 8 metros, dimensão extraordinária para uma época anterior ao domínio das grandes árvores.

Uma pesquisa publicada em 2026 na revista Science Advances concentrou-se em Prototaxites taiti, preservado no famoso sílex de Rhynie, na Escócia. Esse depósito fossilífero registra com enorme detalhe um dos primeiros ecossistemas terrestres conhecidos, permitindo investigar estruturas microscópicas que normalmente desapareceriam durante a fossilização.

Estruturas colunares alcançavam grandes alturas antes do surgimento das árvores.
Estruturas colunares alcançavam grandes alturas antes do surgimento das árvores. - Créditos: Imagem criada por IA.

Por que os cientistas pensavam que ele era um fungo?

A aparência tubular e a organização interna do organismo alimentaram durante décadas a hipótese de que Prototaxites fosse um fungo gigantesco. Essa interpretação parecia plausível porque fungos conseguem formar extensas redes de filamentos, mas nenhuma comparação com grupos modernos havia resolvido definitivamente o mistério de sua verdadeira posição na árvore da vida.

O novo trabalho, liderado por pesquisadores ligados à Universidade de Edimburgo e aos Museus Nacionais da Escócia, comparou diretamente sua anatomia e sua composição química com fungos fósseis e atuais. A conclusão foi contundente: as características encontradas não permitem encaixar o organismo entre os fungos conhecidos.

Quais pistas afastaram a hipótese do fungo gigante?

Ao observar Prototaxites taiti em detalhe, os pesquisadores identificaram diferentes tipos de tubos internos, incluindo estruturas espessas e regiões com redes tridimensionais complexas. Essa arquitetura não corresponde à organização observada nos fungos usados para comparação, fornecendo uma importante evidência anatômica contra a antiga classificação.

  • Alguns representantes de Prototaxites alcançavam aproximadamente 8 metros de comprimento.
  • O fóssil escocês estudado foi preservado no sílex de Rhynie, formado há cerca de 407 milhões de anos.
  • Sua estrutura interna apresenta redes tubulares diferentes das observadas em fungos conhecidos.
  • Análises químicas também encontraram diferenças entre Prototaxites e fungos preservados no mesmo ambiente.

A química trouxe outra pista importante. O estudo utilizou espectroscopia infravermelha e métodos computacionais para comparar assinaturas moleculares de diferentes fósseis. Os autores observaram que sinais associados a componentes encontrados em paredes celulares de fungos não apareceram da mesma maneira no Prototaxites, reforçando a distinção entre os grupos.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Hey Biólogo falando sobre os mistérios dos Prototaxites.

Ele realmente pertence a uma forma de vida desaparecida?

Os pesquisadores defendem que os resultados são compatíveis com uma possibilidade extraordinária: Prototaxites pode representar uma linhagem extinta de eucariotos multicelulares terrestres, sem equivalente vivo conhecido. Isso significa que não seria simplesmente um fungo estranho, uma planta incomum ou um animal primitivo, mas parte de uma experiência evolutiva própria.

Laura Cooper, coautora do estudo, afirmou que a combinação de química e anatomia impede classificar o fóssil dentro dos fungos. Já a pesquisadora Sandy Hetherington destacou o avanço proporcionado pela pesquisa em um debate científico que se estende por cerca de 165 anos. Ainda assim, descobrir exatamente onde essa linhagem se encaixa permanece um desafio.

O que esse fóssil muda na história da vida terrestre?

Prototaxites mostra que a evolução da vida em terra firme pode ter sido muito mais experimental do que a fauna e a flora atuais sugerem. Antes das grandes florestas, organismos de linhagens hoje desaparecidas talvez ocupassem papéis ecológicos importantes, formando paisagens que seriam praticamente irreconhecíveis para nós.

O mais fascinante é perceber que a árvore da vida também possui galhos completamente perdidos. Cada fóssil excepcionalmente preservado pode revelar um desses caminhos esquecidos. Vale acompanhar essas descobertas, porque entender criaturas como Prototaxites significa reconstruir uma Terra na qual existiam formas de vida que hoje não possuem qualquer paralelo evidente.