Ao introduzir o gene de um tardígrado japonês em células humanas, cientistas dotaram nosso DNA de uma proteção que a evolução nunca nos concedeu

A descoberta veio do estudo do Ramazzottius varieornatus, uma espécie de tardígrado conhecida por sua grande resistência.

Um pequeno tardígrado japonês, capaz de sobreviver a condições extremas, revelou uma proteína que chamou a atenção da ciência: a Dsup, abreviação de “supressora de danos”. Quando pesquisadores fizeram células humanas cultivadas em laboratório produzirem essa proteína, elas sofreram menos danos no DNA após exposição a raios X e estresse oxidativo. O resultado é impressionante, mas ainda pertence ao campo experimental e não significa que pessoas tenham recebido essa proteção.

Os pesquisadores introduziram nas células as instruções genéticas necessárias para produzir a proteína do tardígrado.
Os pesquisadores introduziram nas células as instruções genéticas necessárias para produzir a proteína do tardígrado.Imagem gerada por inteligência artificial

O que os cientistas encontraram nesse tardígrado?

A descoberta veio do estudo do Ramazzottius varieornatus, uma espécie de tardígrado conhecida por sua grande resistência. Os pesquisadores identificaram a Dsup, uma proteína incomum que se associa ao material genético e parece funcionar como uma camada molecular de proteção contra certos tipos de dano.

Nos experimentos com células humanas HEK293 cultivadas em laboratório, aquelas modificadas para produzir Dsup apresentaram menos fragmentação do DNA após exposição a raios X. Em um dos testes, a proporção de DNA fragmentado ficou abaixo da observada nas células que não produziam a proteína.

Como a proteína Dsup consegue proteger o DNA?

A explicação mais aceita envolve a capacidade da Dsup de se associar ao DNA e aos nucleossomos, estruturas formadas pelo material genético enrolado em proteínas. Essa proximidade permite que a proteína ajude a proteger o cromossomo da ação de radicais altamente reativos capazes de causar quebras.

  • Dsup consegue se associar ao material genético dentro da célula;
  • a proteína interage com estruturas que organizam o DNA;
  • ela reduz danos provocados por radicais hidroxila em experimentos;
  • células que expressam Dsup podem resistir melhor a determinados tipos de estresse;
  • o mecanismo ainda continua sendo investigado em detalhes.

O que aconteceu quando células humanas receberam o gene?

Os pesquisadores introduziram nas células as instruções genéticas necessárias para produzir a proteína do tardígrado. Depois, compararam células modificadas e não modificadas diante de condições capazes de danificar o DNA, incluindo radiação e peróxido de hidrogênio.

As células com Dsup apresentaram proteção maior contra quebras no material genético e, em determinados experimentos, melhor sobrevivência após a exposição. Estudos posteriores também mostraram que a proteína consegue se ligar ao DNA dentro de células vivas e pode aumentar a tolerância ao estresse oxidativo.

Isso significa que humanos poderiam resistir à radiação?

Não com o conhecimento disponível hoje. Os resultados foram obtidos principalmente em células humanas cultivadas em laboratório, e existe uma enorme distância entre proteger uma cultura celular e modificar com segurança um organismo inteiro.

  • não existem humanos geneticamente modificados com Dsup para essa finalidade;
  • os efeitos de longo prazo da proteína no organismo são desconhecidos;
  • proteção contra parte do dano celular não significa imunidade à radiação;
  • diferentes tipos de células podem responder de maneiras distintas;
  • qualquer aplicação médica exigiria muitos outros estudos de segurança e eficácia.

    Os pesquisadores introduziram nas células as instruções genéticas necessárias para produzir a proteína do tardígrado.
    Os pesquisadores introduziram nas células as instruções genéticas necessárias para produzir a proteína do tardígrado.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que essa descoberta interessa tanto à biotecnologia?

Compreender a Dsup pode ajudar pesquisadores a descobrir novas formas de proteger células contra radiação e estresse oxidativo. Entre as possibilidades estudadas estão aplicações futuras em biotecnologia, medicina, conservação de células e pesquisas relacionadas a ambientes de alta radiação, embora muitas dessas utilizações ainda sejam hipotéticas.

Estudos estruturais recentes reforçam que a proteína é altamente flexível e consegue interagir diretamente com o DNA. Pesquisadores também observaram que sua presença pode modificar a forma como o material genético responde a agentes que normalmente provocariam danos.

O tardígrado revelou uma estratégia molecular que nossas células não possuem

A importância da descoberta está em mostrar que a evolução produziu nos tardígrados uma solução molecular muito diferente daquela encontrada naturalmente nas células humanas. A proteína Dsup consegue se aproximar do DNA e reduzir determinados danos em condições experimentais, oferecendo aos pesquisadores uma ferramenta inédita para investigar proteção celular.

Isso ainda não significa transformar seres humanos em organismos resistentes à radiação. O que existe hoje é algo mais específico e cientificamente relevante: células humanas em laboratório podem receber um gene de tardígrado e adquirir parte de uma capacidade protetora que não possuem naturalmente. Entender como essa defesa funciona pode abrir novos caminhos para estudar radiação, estresse oxidativo e estabilidade do DNA.