Aos 15 anos, filha de catadora abandona os estudos para trabalhar em lixão, assume a presidência de uma associação anos depois e decide voltar à escola para chegar à Engenharia Ambiental

Catadora que abandonou a escola aos 15 anos tornou-se presidente de uma associação de reciclagem e passou a sonhar com a universidade.

Lia conheceu o trabalho da reciclagem pelo lado mais duro: aos 15 anos, deixou a escola e passou a acompanhar a mãe no antigo lixão de uma cidade de médio porte. Anos depois, a área foi fechada, e aquela rotina deixou de ser uma opção para dezenas de trabalhadores. A mudança poderia significar apenas perda de renda. Para Lia, que também criava um filho sozinha, abriu um caminho inesperado: ela assumiu a liderança de uma associação, voltou a estudar e passou a planejar uma graduação em Engenharia Ambiental.

Fechamento do lixão levou catadores a organizar uma associação de reciclagem.
Fechamento do lixão levou catadores a organizar uma associação de reciclagem.Imagem gerada por inteligência artificial

Como Lia chegou ao trabalho no lixão?

Ela começou aos 15 anos, numa família que já dependia da coleta de materiais recicláveis. Sua mãe trabalhava como catadora e, naquela idade, Lia interrompeu os estudos para ajudar na atividade. Separar resíduos exigia esforço contínuo, mas não garantia condições estáveis de trabalho nem uma trajetória escolar compatível com a de outros adolescentes. O contato precoce com esse ambiente explica por que sua decisão posterior de voltar à escola tem um peso concreto.

O trabalho de catadores de materiais recicláveis ajuda a recuperar recursos que poderiam acabar em aterros. Essa contribuição ambiental, porém, não elimina a vulnerabilidade de quem precisa retirar o sustento do lixo sem estrutura adequada. Na cidade, a experiência de Lia uniu o conhecimento prático sobre triagem à necessidade de organizar os trabalhadores quando o antigo espaço de descarte deixou de funcionar.

O que mudou quando o lixão foi fechado?

O fechamento, sem alternativa pronta, obrigou os trabalhadores a buscar outra forma de coletar, separar e comercializar recicláveis. Uma associação de catadores nasceu da reunião dos trabalhadores. Organizar uma associação significava repartir tarefas, negociar parcerias e criar condições para atuar fora da dinâmica do lixão. Não se tratava de uma mudança automática: o trabalho continuava dependendo de materiais, infraestrutura e renda.

Lia foi eleita presidente da entidade dois anos depois. Ao assumir essa função, passou a lidar também com reuniões, articulação pública e decisões administrativas. A trajetória não apagou os anos anteriores, mas transformou a experiência acumulada na coleta em conhecimento útil para representar colegas. A associação tornou possível apresentar demandas coletivas que cada trabalhador teria dificuldade de resolver individualmente, especialmente num período de reorganização da atividade.

Após assumir liderança, mulher retomou os estudos e planeja cursar Engenharia Ambiental.
Após assumir liderança, mulher retomou os estudos e planeja cursar Engenharia Ambiental.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a formação ajudou a transformar a liderança?

Um curso de gestão comunitária ampliou o acesso de Lia a temas como gestão, captação de recursos, organização de eventos e empreendedorismo. Esses conteúdos têm efeito prático para uma associação: ajudam a planejar operações, manter relações com compradores e explicar à comunidade por que a coleta seletiva depende de trabalhadores qualificados. Aprender a administrar não substitui a experiência de quem separa materiais, mas oferece instrumentos para que esse trabalho seja reconhecido e negociado.

Mais tarde, ela apresentou a experiência do grupo numa conversa sobre economia circular. A sala era pequena, mas pela primeira vez Lia falava em nome dos colegas que haviam dividido o lixão com ela. O conceito descreve estratégias para manter materiais em uso por mais tempo, reduzindo desperdício. Na fala de uma catadora que conheceu o lixão, o tema deixa de ser uma expressão abstrata: depende de coleta, triagem, armazenamento e gente que executa essas tarefas diariamente. A visibilidade pública também permite que a associação apresente seus desafios diretamente.

O que os registros da associação revelaram?

O caderno de Lia registrava a entrada de sacos, a triagem e os pagamentos da semana. Esses registros simples permitiram perceber quais materiais chegavam sem separação e quais compradores demoravam a pagar. Números anotados na rotina serviam para negociar melhor, sem transformar a vida dos catadores numa estatística sem rosto.

O movimento dos sacos indica que a reciclagem envolve uma cadeia de trabalho, transporte e destinação, além da separação visível dos resíduos. Para que o material tenha valor, é preciso recebê-lo, classificá-lo e encaminhá-lo a quem pode reutilizá-lo industrialmente. A reciclagem e seus benefícios ajudam a entender por que formação administrativa e articulação com parceiros podem influenciar a continuidade da atividade. O fechamento de um lixão, sozinho, não resolve a situação de quem dependia dele.

Por que ela decidiu retomar os estudos?

Lia retomou a educação formal depois de anos afastada da escola e declarou que pretende ingressar na universidade nos próximos anos para cursar Engenharia Ambiental. A escolha conversa com sua experiência: o curso estuda problemas ligados a resíduos, água, território e formas de reduzir impactos ambientais. Há uma diferença fundamental entre o desejo anunciado e a conclusão de uma graduação. Naquele momento, o ingresso ainda era uma meta, e nenhuma formatura podia ser apresentada como realizada.

Voltar a estudar enquanto preside uma associação e mantém responsabilidades familiares acrescenta uma tarefa a uma rotina já exigente. A decisão mostra uma continuidade entre trabalho e formação: aquilo que ela conheceu na prática motivou o interesse por compreender sistemas ambientais também pela via acadêmica. O ponto da história não é sugerir que todo catador precise obter diploma para ter seu trabalho valorizado, mas acompanhar a escolha específica de Lia.

Onde está a virada mais importante dessa trajetória?

A virada está na passagem de uma adolescente que deixou a escola para trabalhar no lixão a uma representante dos trabalhadores que voltou a estudar. O cargo de presidente, assumido dois anos depois, e a participação numa conversa pública marcaram a mudança de sua rotina. A universidade permanecia como objetivo, e o formulário de inscrição ainda estava preso por um ímã na geladeira. Ela guardou no mesmo caderno os horários das aulas e a escala de triagem; a meta da universidade continuava distante, mas a volta à escola já fazia parte da rotina.

A história de Lia também mostra que a reorganização após o fechamento de um lixão envolve pessoas com história, conhecimento e planos próprios. Para Lia, o reconhecimento não veio de deixar a reciclagem para trás. Veio da possibilidade de atuar nela com outras ferramentas, representar colegas e projetar uma formação que se relaciona diretamente com o trabalho que conhece desde os 15 anos.