Aos 66 anos, artista do Piauí reúne mais de 150 esculturas feitas com objetos descartados e transforma sucata em exposição no interior

Artista transforma sucata em mais de 150 esculturas no Piauí.

Um objeto que iria para o descarte pode terminar parecendo um animal, um veículo ou até uma ponte. Na Fazenda Caiçara, no interior do Piauí, essa mudança acontece pelas mãos de Rui Viana, de 66 anos. Ele reuniu mais de 150 esculturas no projeto Mina de Aço, mas demorou cinco anos para mostrar ao público a produção iniciada depois dos 50. A surpresa dos estudantes diante das peças revelou que a obra, até então quase escondida, tinha algo a dizer sobre trabalho, tempo e reaproveitamento.

Rui Viana começou sua produção artística depois dos 50 anos.
Rui Viana começou sua produção artística depois dos 50 anos.Imagem gerada por inteligência artificial

Como a primeira peça mudou os planos de Rui Viana?

Rui começou essa fase de esculturas metálicas em 17 de março de 2017, aos 56 anos. Sua primeira criação foi uma pequena machadinha. Formado em Pedagogia e Teologia, ele não havia transformado a arte em ocupação principal quando precisava cumprir responsabilidades familiares. A aposentadoria abriu mais espaço para experimentar e insistir nas ideias que antes ficavam para depois.

A data de início é significativa porque permite acompanhar o percurso sem tratá-lo como talento que surgiu de repente. Uma peça pequena deu lugar a tentativas mais ambiciosas. O artista passou a observar formas, recolher componentes e testar como partes sem relação aparente poderiam compor outro objeto. O tempo disponível tornou possível repetir medições e corrigir erros sem a pressão de terminar uma encomenda.

Sua primeira exposição surpreendeu centenas de estudantes após cinco anos de trabalho.
Sua primeira exposição surpreendeu centenas de estudantes após cinco anos de trabalho.Imagem gerada por inteligência artificial

O que existe dentro das mais de 150 esculturas?

Motores, correntes, fios e peças de geladeira estão entre os materiais aproveitados. Rui não os apresenta como sucata acumulada: ele limpa as partes, mede proporções, solda e pinta até transformar os fragmentos em animais, móveis, veículos e reproduções de construções. O trabalho exige reconhecer tanto o desenho final quanto a resistência e a posição que cada componente pode ocupar.

Uma representação da Ponte Estaiada de Teresina mostra a passagem da observação para a execução. Segundo a reportagem que apresentou a Mina de Aço, Rui estudou proporções da estrutura depois de vê-la. A transformação envolve etapas diferentes, que explicam por que a peça pronta não é apenas um agrupamento de metais:

  • Escolher componentes cujas formas possam representar partes da estrutura planejada.
  • Retirar sujeira e preparar superfícies antes da união das peças.
  • Conferir medidas para preservar equilíbrio e proporção no conjunto.
  • Soldar e finalizar sem apagar completamente a origem dos materiais.

Por que o trabalho permaneceu longe do público por cinco anos?

Rui produziu durante aproximadamente cinco anos sem apresentar as esculturas numa exposição pública. Esse intervalo não significa falta de produção: as peças foram se acumulando enquanto ele experimentava materiais e aprimorava soluções. A primeira mostra, portanto, revelou de uma vez um percurso que visitantes não tinham acompanhado etapa por etapa.

Quando o público finalmente encontrou a coleção, estudantes estavam entre os interessados. A procura fez uma exposição prevista para um dia ser estendida a dois. Apenas uma escola levou cerca de 400 alunos, conforme o relato divulgado sobre o projeto. O número ajuda a dimensionar a reação, mas não deve ser confundido com um balanço permanente de visitantes da fazenda.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube TV Cultura, que fala sobre a criação de pinturas e esculturas a partir de resíduos e ajuda a visualizar o reaproveitamento artístico de materiais:

O que as crianças encontram além de figuras de metal?

Elas veem objetos conhecidos em funções improváveis. Um motor deixa de ser peça de máquina; uma corrente pode ganhar outra posição na composição. Esse reconhecimento permite conversar sobre forma, montagem e descarte sem fingir que toda sucata serve imediatamente para virar arte. Trabalho com metal exige ferramentas, preparo e cuidados que não cabem numa improvisação infantil.

A visita também expõe um processo pessoal pouco comum nas narrativas de carreira: Rui começou a desenvolver essa produção quando muita gente espera que uma trajetória já esteja definida. A relação entre arte feita com materiais descartados e educação ambiental aparece nas escolhas visíveis de cada escultura, sem precisar atribuir à obra um benefício ambiental medido que não foi demonstrado.

O que a Mina de Aço mostra sobre recomeçar depois dos 50?

Ela mostra um começo concreto, não uma transformação instantânea. Entre a pequena machadinha de 2017 e um conjunto superior a 150 obras houve prática, ferramentas, erros, observação e anos de produção discreta. A aposentadoria permitiu que Rui dedicasse mais tempo a uma vocação que já o acompanhava; a exposição apenas tornou esse percurso visível para outras pessoas.

Na Fazenda Caiçara, o contraste decisivo permanece diante do visitante: fragmentos retirados de uso foram organizados com intenção suficiente para despertar curiosidade. O interesse de uma turma inteira de estudantes não apaga o trabalho silencioso anterior. Ao contrário, ajuda a entender por que a estreia pública exigiu cinco anos de construção antes de ocupar dois dias de visitação.