Aos 74 anos e morando sozinho desde que a esposa morreu, aposentado passa a deixar a porta da varanda aberta para a gata que aparecia todas as tardes no antigo horário do café dos dois, até instalar uma segunda cadeira depois que o animal começa a dormir sempre no lugar onde ela se sentava
Antônio lembra que a gata surgiu pela primeira vez em uma tarde de garoa.
Depois que a esposa morreu, seu Antônio, de 74 anos, continuou preparando café todos os dias às 16h30, mesmo sem ter mais com quem dividir a mesa. Durante quase dois meses, ele colocava apenas uma xícara sobre a varanda e ficava olhando a rua em silêncio. Até que uma gata rajada começou a aparecer exatamente naquele horário, primeiro no muro, depois no piso da varanda e, por fim, na cadeira onde a esposa costumava se sentar.
A primeira visita aconteceu numa terça-feira de chuva
Antônio lembra que a gata surgiu pela primeira vez em uma tarde de garoa. Ela estava molhada, magra e ficou parada perto do portão, sem miar. Ele colocou um pouco de água e um pedaço de frango em um pires, mas o animal só se aproximou depois que ele voltou para a cadeira.
No dia seguinte, às 16h27, ela apareceu de novo. Depois voltou na quinta, na sexta e no sábado. Em menos de duas semanas, Antônio percebeu que já olhava para o relógio esperando por ela.
A gata começou a chegar sempre no antigo horário do café
Durante mais de 40 anos de casamento, Antônio e dona Lúcia tinham o hábito de tomar café juntos no fim da tarde. Não importava se o almoço atrasasse ou se algum compromisso surgisse. Por volta das quatro e meia, os dois paravam tudo e iam para a varanda.
Depois da morte dela, o ritual permaneceu, mas perdeu a conversa. Foi justamente nesse intervalo que a gata passou a aparecer.
Antônio começou a deixar a porta da varanda aberta antes mesmo de colocar a água para ferver. “Ela não chegava cedo nem tarde. Era sempre naquele pedaço da tarde”, conta.
No começo, ela não deixava ninguém chegar perto
A aproximação foi lenta. Durante vários dias, a gata comia e ia embora. Depois começou a ficar alguns minutos deitada perto do vaso de samambaia. Só semanas mais tarde permitiu que Antônio encostasse a mão em sua cabeça.
Ele passou a comprar sachês e improvisou uma caminha com uma toalha velha dentro de uma caixa de papelão. A gata, porém, raramente usava o lugar.
- ela chegava quase sempre entre 16h20 e 16h40;
- esperava Antônio se sentar antes de subir na varanda;
- comia devagar e permanecia ali depois;
- começou a entrar na sala apenas depois de algumas semanas;
- à noite, quase sempre voltava para a rua.
Tudo mudou quando ela escolheu a cadeira de Lúcia
A cadeira de madeira onde dona Lúcia se sentava continuava exatamente no mesmo lugar. Antônio nunca tinha conseguido retirá-la. Às vezes, colocava a mão sobre o encosto durante o café, como se aquele gesto bastasse para preencher o espaço.
Uma tarde, a gata pulou sobre o assento, deu duas voltas e dormiu ali. Antônio não mexeu nela. No dia seguinte, aconteceu de novo. Em pouco tempo, aquele passou a ser o lugar preferido do animal.
“Foi estranho no começo. Depois eu achei bonito”, diz. “Parecia que ela tinha escolhido justamente o único lugar em que eu nunca colocava nada.”
Ele comprou uma segunda cadeira para não tirar a gata dali
Durante semanas, Antônio continuou tomando café em pé ou usando um pequeno banco quando a gata ocupava sua cadeira. Até que decidiu resolver o problema de outro jeito.
Foi a uma loja do bairro e comprou uma segunda cadeira de madeira, parecida com a antiga. Colocou as duas lado a lado, separadas por uma pequena mesa redonda.
A gata continuou escolhendo a cadeira de Lúcia. Antônio passou a usar a nova.

A rotina da casa começou a mudar aos poucos
Com o tempo, a gata deixou de ser apenas uma visitante. Antônio levou o animal a uma clínica veterinária, descobriu que era fêmea, adulta e não tinha identificação. Depois dos cuidados básicos, decidiu chamá-la de Nina.
Nina passou a dormir algumas noites dentro da casa e ganhou potes próprios na cozinha. Mesmo assim, o ritual da tarde permaneceu praticamente igual.
Por volta das 16h30, Antônio prepara café, abre a porta da varanda e coloca um pequeno prato de comida perto da mesa. Nina sobe na cadeira antiga e, muitas vezes, adormece antes que ele termine a primeira xícara.
A segunda cadeira não substituiu ninguém, mas mudou o silêncio da varanda
Antônio diz que nunca enxergou a gata como uma substituta para a esposa. A cadeira de Lúcia continua sendo de Lúcia, assim como as lembranças continuam no lugar delas. O que mudou foi o peso daquele horário do dia.
Hoje, quando coloca a xícara sobre a mesa, ele já sabe que provavelmente haverá uma gata enrolada na cadeira ao lado. A segunda cadeira não apagou a ausência, mas devolveu companhia a um ritual que tinha ficado silencioso. E, desde que Nina chegou, Antônio não toma mais o café das 16h30 completamente sozinho.