Após três séculos de mistério, arqueólogos recuperam o primeiro tesouro de um naufrágio estimado em R$ 159 bilhões

Primeiros artefatos retirados do Caribe revelam detalhes do galeão espanhol e reacendem uma disputa internacional por patrimônio e riqueza.

Após mais de 300 anos a quase 600 metros de profundidade, o galeão San José começou a devolver seus primeiros segredos. Um canhão de bronze, moedas de ouro e peças de porcelana foram retirados do Caribe, reacendendo uma disputa internacional por um naufrágio cujo tesouro pode valer dezenas de bilhões de dólares.

A expedição realizada pelo governo colombiano entre 16 e 18 de novembro de 2025 retirou cinco conjuntos de artefatos do naufrágio.
A expedição realizada pelo governo colombiano entre 16 e 18 de novembro de 2025 retirou cinco conjuntos de artefatos do naufrágio. - Imagem gerada por IA

O que foi recuperado do galeão San José?

A expedição realizada pelo governo colombiano entre 16 e 18 de novembro de 2025 retirou cinco conjuntos de artefatos do naufrágio. Entre eles estavam um canhão de bronze com a inscrição “Sevilha”, uma xícara, fragmentos de porcelana e três moedas de ouro cunhadas à mão, conhecidas como macuquinas.

Veículos robóticos subaquáticos foram usados para alcançar os destroços próximos à costa de Cartagena. A operação reuniu a Marinha da Colômbia, o Ministério da Cultura, o Instituto Colombiano de Antropologia e História e a Direção Marítima, com foco em pesquisa e conservação arqueológica.

Resgate de artefatos reacende debates sobre patrimônio e tesouros submersos.
Resgate de artefatos reacende debates sobre patrimônio e tesouros submersos. - Créditos: AFP

Por que o naufrágio vale bilhões de dólares?

O San José afundou em 1708 durante um confronto com forças britânicas na Guerra da Sucessão Espanhola. O galeão transportava ouro, prata e esmeraldas retirados das colônias espanholas na América Latina e destinados ao rei Filipe V, além de milhões de moedas armazenadas a bordo.

As estimativas sobre o valor atual da carga variam e podem chegar a dezenas de bilhões de dólares. Essa dimensão financeira transformou o navio no chamado “Santo Graal dos naufrágios”, embora o governo colombiano insista que a missão deve ser tratada como pesquisa científica, e não como caça ao tesouro.

  • O canhão de bronze preserva uma inscrição que pode ajudar a rastrear sua fabricação.
  • As macuquinas foram cunhadas manualmente e circularam nas Américas por mais de dois séculos.
  • Garrafas, âncoras, cerâmicas e outros objetos de ouro ainda permanecem no fundo do mar.
  • Os artefatos recuperados passarão por conservação antes de futuras pesquisas e exposições.

Como os pesquisadores confirmaram a identidade do navio?

Os destroços foram localizados em 2015 pela Marinha colombiana com apoio da Instituição Oceanográfica Woods Hole. A confirmação ocorreu por meio de imagens obtidas por veículos autônomos, que registraram detalhes característicos dos canhões e da estrutura do galeão espanhol.

Um estudo publicado em 2025 na revista Antiquity reforçou essa identificação. Usando fotogrametria, os pesquisadores reconstruíram moedas em três dimensões e encontraram a cruz de Jerusalém, símbolos de Castela e Leão e marcas da casa da moeda de Lima datadas de 1707.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Jonas Vicente contando a história do naufrágio bilionário do Galeão Espanhol.

Quem reivindica a propriedade do tesouro?

A empresa norte-americana Sea Search Armada afirma ter identificado o naufrágio em 1982 e cobra aproximadamente US$ 10 bilhões, valor equivalente a uma parte da carga estimada. O caso tramita no Tribunal Permanente de Arbitragem, em Haia, com base no acordo comercial entre Estados Unidos e Colômbia.

A Colômbia rejeita a cobrança e sustenta que o galeão está em suas águas territoriais e integra o patrimônio cultural do país. A Espanha também demonstrou interesse, pois o navio navegava sob sua bandeira, enquanto o ouro transportado havia sido extraído de territórios latino-americanos.

O que acontece agora com o San José?

Os objetos recuperados representam apenas uma pequena parte do que ainda permanece no leito marinho. A nova fase do projeto prevê análises arqueológicas, conservação cuidadosa e a possível exibição das peças em um museu dedicado a naufrágios, planejado para a cidade de Cartagena.

O futuro da exploração dependerá tanto das condições técnicas quanto da disputa internacional ainda em andamento. Enquanto os tribunais discutem valores e propriedade, cada artefato retirado do mar aproxima o público de uma história de guerra, colonização e riqueza que ficou submersa por três séculos.