Arqueólogos encontraram 134 navios afundados em uma das passagens marítimas mais perigosas do mundo
Em uma faixa de mar que separa Europa e África, arqueólogos encontraram um arquivo submerso com mais de 2.400 anos de história.
Em uma faixa de mar que separa Europa e África, arqueólogos encontraram um arquivo submerso com mais de 2.400 anos de história. O Projeto Herakles identificou 151 sítios arqueológicos na Baía de Gibraltar, incluindo 134 naufrágios que revelam rotas comerciais, conflitos militares e os perigos enfrentados por gerações de marinheiros.

Por que tantos navios afundaram perto de Gibraltar?
O Estreito de Gibraltar é uma passagem estreita entre o oceano Atlântico e o mar Mediterrâneo. Durante séculos, embarcações comerciais, militares e exploratórias precisaram atravessar a região, enfrentando correntes fortes, ventos instáveis, nevoeiro, tempestades e o intenso movimento de navios.
Felipe Cerezo Andreo, professor de arqueologia da Universidade de Cádiz e responsável pelo projeto, explica que a área funcionou como um gargalo obrigatório da navegação. Além dos acidentes naturais, batalhas, ataques, colisões e falhas estruturais contribuíram para transformar o fundo da baía em um grande cemitério marítimo.

O que os arqueólogos encontraram no fundo do mar?
Pesquisadores das universidades de Cádiz e Granada documentaram completamente 34 naufrágios e localizaram vestígios de dezenas de outras embarcações. O conjunto integra 151 sítios subaquáticos, dos quais 134 estão relacionados a navios afundados entre o século V a.C. e a Segunda Guerra Mundial.
A cronologia encontrada pelos especialistas mostra a diversidade desse patrimônio:
- Uma Embarcação púnica do século V a.C.;
- Vinte E três navios do período romano;
- Duas Embarcações do fim da era romana;
- Quatro Naufrágios do período medieval;
- Vinte E quatro navios da era moderna.
Os destroços pertencem a diferentes povos e potências marítimas, incluindo romanos, espanhóis, ingleses, holandeses e venezianos. Reunidos em uma área relativamente pequena, eles permitem acompanhar mudanças na construção naval, no comércio e nas disputas pelo controle da passagem entre os dois mares.
Por que uma pequena canhoneira chamou atenção?
Entre os achados mais importantes está a Puente Mayorga IV, uma canhoneira espanhola do fim do século XVIII. Pequena e veloz, essa embarcação participava de ataques furtivos contra grandes navios britânicos durante as disputas pelo controle de Gibraltar, ponto estratégico entre o Atlântico e o Mediterrâneo.
Essas canhoneiras podiam usar redes e aparência de barcos pesqueiros para se aproximar do inimigo antes de revelar seus canhões. No naufrágio, os arqueólogos encontraram objetos preservados, incluindo uma caixa de madeira semelhante a um livro que despertou suspeitas de espionagem, mas guardava antigos pentes.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Curiosidades com VDZ mostrando o “cemitério de navios” no Estreito de Gibraltar.
Como os naufrágios estão sendo estudados?
A equipe combinou documentos históricos, relatos de pescadores e mergulhadores, levantamentos submarinos, imagens aéreas e fotogrametria. Mergulhadores também removeram sedimentos de maneira controlada para registrar estruturas e objetos, evitando intervenções que pudessem danificar os sítios arqueológicos.
Os dados coletados foram transformados em modelos tridimensionais e experiências em 360 graus, permitindo que o público conheça alguns destroços sem mergulhar. Essa tecnologia também cria registros precisos das embarcações e ajuda os pesquisadores a acompanhar alterações provocadas pelo ambiente e pela atividade humana.
Por que esse patrimônio precisa ser protegido agora?
Os naufrágios estão ameaçados por obras portuárias, dragagens, saque de objetos, elevação do nível do mar e expansão de algas invasoras, como a Rugulopteryx okamurae. Essas espécies podem cobrir áreas do fundo marinho, alterar o ecossistema e dificultar a localização e a conservação dos vestígios.
Mais do que embarcações destruídas, os destroços são registros de viagens, guerras e encontros entre continentes. Preservá-los agora é impedir que séculos de história desapareçam novamente sob o mar. Cada naufrágio estudado pode revelar novas pistas sobre as pessoas que atravessaram uma das rotas mais perigosas e importantes do mundo.