Arqueólogos encontraram correntes para pulsos e tornozelos em uma cidade celta, revelando pessoas que a história quase nunca menciona
Um anel de ferro com apenas seis centímetros de diâmetro pode ter prendido o pulso de uma mulher ou de uma criança há cerca de 2.300 anos.
Um anel de ferro com apenas seis centímetros de diâmetro pode ter prendido o pulso de uma mulher ou de uma criança há cerca de 2.300 anos. Encontrada em Allonnes, na França, a peça integra um conjunto raro de correntes que revela um lado pouco documentado da sociedade celta: pessoas também podiam ser escravizadas, transportadas e comercializadas.

O que foi descoberto na antiga cidade de Allonnes?
As peças foram encontradas durante uma escavação iniciada em 2019 pelo Instituto Nacional Francês de Pesquisas Arqueológicas Preventivas, o Inrap. O trabalho revelou uma grande aglomeração gaulesa fundada no século III antes da era comum, situada em Allonnes, no departamento de Maine-et-Loire, no oeste da França.
Entre os objetos estavam uma corrente dupla para os pulsos, uma peça destinada ao tornozelo e três fragmentos de outros dispositivos de contenção. Segundo os arqueólogos, esse tipo de artefato é extremamente raro na Idade do Ferro, o que torna a descoberta importante para compreender grupos quase ausentes dos registros históricos.

A menor corrente pode ter prendido uma criança
O dispositivo para o pulso possui cerca de seis centímetros de diâmetro, dimensão considerada pequena demais para a maioria dos homens adultos. Por isso, os pesquisadores avaliam que ele poderia ter sido usado para restringir os movimentos de uma mulher ou de uma criança, embora não seja possível identificar quem realmente o utilizou.
A peça para o tornozelo pesa mais de um quilo, uma indicação do fardo físico imposto às pessoas mantidas sob controle. A ausência de restos humanos ligados diretamente às correntes impede conclusões definitivas, mas o tamanho, o peso e o formato dos objetos sustentam a interpretação de que eram instrumentos de aprisionamento.
Quais objetos revelaram a importância da cidade?
Allonnes reunia artesãos especializados, comerciantes e um complexo religioso próximo a importantes rotas antigas. Ferreiros, trabalhadores do bronze e fabricantes de chapas metálicas atuavam em pequenas oficinas. As escavações recuperaram materiais que ajudam a reconstruir as diferentes funções econômicas e sociais da cidade:
- Espadas e pontas de lança;
- Chaves e acessórios para cavalos;
- Joias, anéis e amuletos;
- Centenas de moedas antigas;
- Correntes usadas para restringir pulsos e tornozelos.
Para Thierry Lejars, especialista em metalurgia celta, a presença conjunta de armas e dispositivos de contenção aponta para uma sociedade hierarquizada, formada por grupos dominantes e subordinados. As pessoas escravizadas poderiam ser prisioneiros de guerra, condenados ou indivíduos submetidos à servidão por dívidas.

Comércio e religião ocupavam o mesmo espaço
Os arqueólogos também identificaram um santuário com oferendas de roupas, joias e moedas. Muitos objetos haviam sido dobrados, cortados ou danificados intencionalmente antes de serem depositados. Essa transformação retirava sua função cotidiana e comercial, convertendo cada peça em um presente permanente dedicado às divindades.
A especialista Isabelle Bollard-Raineau observou que aproximadamente um terço das moedas apresentava marcas de limas, cortes ou golpes de cinzel. Como as cunhagens abrangem mais de cinco séculos, o conjunto indica que o espaço religioso permaneceu importante por um longo período, acompanhando mudanças econômicas e políticas na região.
As correntes expõem pessoas apagadas da história
Os celtas deixaram poucos relatos próprios, e grande parte das informações disponíveis foi registrada por gregos e romanos. Por isso, ainda existem dúvidas sobre a dimensão da escravidão na Gália anterior à conquista romana. As correntes de Allonnes não provam todos os detalhes desse comércio, mas oferecem uma evidência material difícil de ignorar.
A pequena peça enferrujada transforma um tema abstrato em uma realidade humana marcada pela perda de liberdade. Preservar e estudar descobertas como essa é urgente, pois elas devolvem visibilidade a mulheres, homens e crianças que raramente tiveram seus nomes registrados, mas sustentaram com o próprio sofrimento parte das antigas sociedades europeias.