Arqueólogos examinaram uma múmia egípcia e encontraram um pedaço da Ilíada colocado deliberadamente sobre o abdômen durante o embalsamamento

Uma múmia romana no Egito tinha sobre o abdômen um fragmento grego da Ilíada colocado deliberadamente durante o embalsamamento.

Uma múmia egípcia pode guardar amuletos, faixas e objetos funerários, mas esta escondia algo que parecia pertencer a uma biblioteca. Arqueólogos que trabalham na antiga Oxirrinco encontraram um fragmento em grego da Ilíada colocado deliberadamente sobre o abdômen durante o embalsamamento. O texto foi identificado, mas a pergunta mais intrigante continua sem resposta: por que Homero foi parar ali?

A descoberta ocorreu em al-Bahnasa, a antiga Oxirrinco, no Egito, durante trabalhos na Tumba 65 do Setor 22.
A descoberta ocorreu em al-Bahnasa, a antiga Oxirrinco, no Egito, durante trabalhos na Tumba 65 do Setor 22.Imagem gerada por inteligência artificial

Onde o fragmento da Ilíada apareceu?

A descoberta ocorreu em al-Bahnasa, a antiga Oxirrinco, no Egito, durante trabalhos na Tumba 65 do Setor 22. A missão arqueológica ligada à Universidade de Barcelona encontrou uma múmia do período romano e, sobre a região abdominal, um fragmento de papiro grego colocado de forma deliberada durante o processo funerário.

A posição é decisiva para interpretar o achado. O texto não estava escrito sobre o corpo nem apareceu por acaso no enchimento da sepultura. Segundo a equipe, o papiro fazia parte do conjunto usado no embalsamamento, o que transforma um fragmento literário em elemento do ritual funerário.

Registro literário clássico incorporado a rituais funerários em contextos culturais do Egito.
Registro literário clássico incorporado a rituais funerários em contextos culturais do Egito. - Créditos: Imagem criada por IA.

Como os pesquisadores descobriram que o texto era da Ilíada?

O papiro preservava linhas em grego que puderam ser comparadas com a tradição textual conhecida da Ilíada. A identificação apontou para o Livro II, justamente a seção conhecida como Catálogo das Naus, longa passagem que enumera contingentes gregos, líderes e regiões envolvidas na expedição contra Troia.

Especialistas em papirologia conseguem reconhecer um texto antigo combinando leitura das letras preservadas, sequência de palavras e comparação com manuscritos já conhecidos. Mesmo um fragmento incompleto pode ser identificado quando conserva uma combinação suficientemente característica de versos.

Por que colocar literatura grega dentro de uma múmia é tão incomum?

A equipe da Universidade de Barcelona descreveu o caso como o primeiro texto literário grego conhecido incorporado deliberadamente ao embalsamamento de uma múmia romana no Egito. Papiros reutilizados em contextos funerários são conhecidos, mas a presença intencional de um trecho da Ilíada sobre o abdômen chama atenção pela natureza literária do material.

Alguns pontos tornam o achado especialmente curioso:

  • O papiro foi encontrado deliberadamente posicionado sobre o abdômen de uma múmia do período romano.
  • O texto foi identificado como parte do Livro II da Ilíada, na seção conhecida como Catálogo das Naus.
  • A equipe considera o caso excepcional por envolver um texto literário grego no processo de embalsamamento.
  • A razão específica para escolher esse fragmento continua desconhecida.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Estranha História que comenta a descoberta de um trecho da Ilíada associado a uma múmia egípcia:

Isso significa que a Ilíada tinha função religiosa no funeral?

Não é possível afirmar. A associação entre o poema e a múmia existe, mas o motivo da escolha permanece desconhecido. O fragmento pode ter tido valor simbólico, pessoal, protetor ou simplesmente ter sido um material disponível para determinada etapa do embalsamamento. As evidências atuais não permitem escolher uma dessas explicações.

Esse cuidado é importante porque um objeto antigo pode adquirir uma função nova quando é reutilizado. Um texto escolar ou literário, por exemplo, pode deixar de ser lido e passar a servir como material funerário. O contexto arqueológico mostra onde ele foi colocado, mas nem sempre preserva a intenção de quem tomou a decisão.

O que esse fragmento muda na forma de olhar para a múmia?

A descoberta conecta duas tradições normalmente vistas separadamente: a literatura grega clássica e as práticas funerárias do Egito sob domínio romano. Oxirrinco era um centro multicultural onde grego, tradições egípcias e administração romana conviviam, e o fragmento materializa esse encontro de forma extraordinariamente íntima.

O mistério mais interessante permanece aberto. Sabemos qual poema foi colocado sobre o corpo e sabemos que a posição foi deliberada, mas ainda não sabemos por quê. É justamente essa fronteira entre identificação segura e significado incerto que torna o achado mais valioso do que uma simples curiosidade literária.