Arqueólogos preparavam o terreno para ampliar uma estrada quando encontraram um limpador de unhas romano com um pênis esculpido no cabo
O objeto de cobre encontrado antes de uma obra viária revela como higiene pessoal, sorte e proteção podiam se misturar no cotidiano romano.
Uma obra para melhorar uma estrada perto de Cheltenham, na Inglaterra, revelou um objeto que unia duas preocupações bastante diferentes dos antigos romanos: manter as unhas limpas e afastar o azar. Entre os artefatos retirados do solo estava um pequeno limpador de unhas de cobre com o cabo deliberadamente moldado como um falo.

A descoberta ocorreu durante escavações arqueológicas realizadas antes das obras de melhoria do entroncamento 10 da rodovia M5, na região de Cheltenham. A Archaeological Research Services foi contratada para investigar o terreno antes da intervenção planejada pelo Conselho do Condado de Gloucestershire.
O trabalho revelou vestígios de diferentes períodos de ocupação, incluindo moedas, uma fivela de liga de cobre e um sepultamento do século IV. No meio desse conjunto apareceu o pequeno instrumento romano, provavelmente datado entre os anos 300 e 400, cuja forma chamou imediatamente a atenção dos arqueólogos.

Para que servia esse pequeno objeto?
A extremidade inferior possui uma lâmina fina dividida em duas pontas, formato adequado para retirar sujeira acumulada sob as unhas. Objetos semelhantes são conhecidos na arqueologia romano-britânica, e o Museu Britânico conserva outros limpadores de unhas de liga de cobre associados aos cuidados pessoais cotidianos.
O exemplar encontrado perto de Cheltenham também possui uma pequena argola, provavelmente utilizada para prendê-lo a uma tira ou cordão e carregá-lo junto ao corpo. A equipe da Archaeological Research Services considera que ele pode estar entre os exemplares mais bem preservados desse tipo já conhecidos.
Por que o cabo foi feito no formato de um pênis?
Para olhos modernos, o formato pode parecer apenas uma brincadeira obscena. No mundo romano, porém, imagens fálicas também tinham significados ligados a sorte, fertilidade e proteção. O arqueólogo Rob Collins, da Universidade de Newcastle, já explicou que essas representações eram usadas para afastar infortúnios e aparecem tanto em textos quanto no registro arqueológico.
O falo podia aparecer em amuletos, construções, objetos pessoais e inscrições, sendo associado inclusive à proteção contra o mau-olhado. Essa combinação ajuda a entender por que alguém poderia carregar um utensílio de higiene com essa forma aparentemente extravagante:
- O instrumento tinha uma ponta bifurcada destinada à limpeza da região sob as unhas.
- O cabo fálico transformava um utensílio cotidiano em um objeto carregado de simbolismo.
- Representações de falos eram associadas pelos romanos à boa sorte e à fertilidade.
- Amuletos e imagens fálicas também eram utilizados como proteção contra o mau-olhado.

O que o objeto revela sobre higiene e superstição?
O achado mostra que hábitos práticos e crenças não precisavam ocupar universos separados. Um romano poderia usar o mesmo objeto para cuidar das unhas e, possivelmente, carregar consigo um símbolo considerado protetor. A própria argola reforça a possibilidade de que o utensílio fosse usado como acessório pessoal e estivesse sempre à mão.
Essa interpretação encontra paralelo em outros achados da Britânia romana. O Museu Britânico descreve o falo como um símbolo amplamente relacionado à boa fortuna, enquanto a English Heritage registra amuletos em que motivos fálicos aparecem associados à proteção contra o mau-olhado.
Por que um limpador de unhas merece tanta atenção?
Grandes templos e fortalezas ajudam a reconstruir impérios, mas objetos pequenos revelam como as pessoas realmente viviam. Um limpador de unhas permite enxergar preocupações com aparência, higiene, praticidade e crenças pessoais em um período no qual símbolos hoje considerados explícitos podiam fazer parte normalmente da vida cotidiana.
O instrumento encontrado sob o caminho de uma futura obra transforma uma cena aparentemente engraçada em algo muito mais revelador. Vale olhar além do formato do cabo: nele, higiene e superstição aparecem lado a lado, preservando por cerca de 1.600 anos um detalhe surpreendentemente íntimo da vida romana.