Artista deixa São Paulo, começa a recolher resíduos de obras e praias em Santa Catarina e transforma materiais descartados em robôs usados para ensinar reciclagem nas escolas

Artista transforma lixo encontrado em praias e obras em robôs que ensinam crianças sobre sustentabilidade.

Em Itapema, no litoral de Santa Catarina, uma tampa de garrafa encontrada na areia podia virar parte de um robô. Para Mônica Turato, a mudança começou quando deixou São Paulo e passou a observar resíduos onde trabalhava e caminhava: fios, pregos e madeira nas obras; brinquedos quebrados e plásticos na praia. Ela poderia simplesmente recolher aquilo para descarte, mas decidiu montar personagens com o material. O resultado saiu do ateliê e chegou às escolas, onde crianças passaram a construir os próprios brinquedos. Como uma coleta individual ganhou força suficiente para virar uma atividade de educação ambiental?

Projeto leva educação ambiental para crianças de escolas em Itapema.
Projeto leva educação ambiental para crianças de escolas em Itapema.Imagem gerada por inteligência artificial

O que Mônica encontrou ao mudar de cidade?

Mônica chegou a Itapema aproximadamente onze anos antes de setembro de 2026. A experiência na construção civil a colocou perto das sobras de reformas e obras, um fluxo de peças pequenas que facilmente se mistura ao entulho. Nas caminhadas pela orla, percebeu outro tipo de descarte: tampinhas e objetos plásticos deixados num espaço compartilhado por moradores, turistas e animais. Os materiais diferiam, mas a pergunta era a mesma: para onde iriam depois de abandonados?

A observação diária tornou mais concreta a distância entre consumir um produto e lidar com seu resto. Um fio curto já não servia à instalação elétrica; uma madeira pequena talvez fosse inútil para a obra. Isso não significava que cada peça estivesse pronta para voltar ao ambiente sem consequência. O trabalho artístico surgiu dessa atenção ao que sobrava, primeiro como coleta e seleção, depois como tentativa de dar forma a objetos com uma história visível de descarte.

Como os resíduos se transformaram em personagens?

Mônica começou a combinar componentes de origens diferentes, usando a rigidez da madeira e do metal para sustentar figuras e as cores das tampinhas para criar detalhes. Não havia uma linha industrial uniforme a repetir. Cada objeto encontrado oferecia um formato e também um limite, e a composição precisava partir daquilo que estava disponível. A aparência dos robôs ajudava a atrair o olhar para materiais que, isolados, seriam tratados como lixo.

O projeto recebeu o nome de Robôs Adoráveis e já tinha cerca de oito anos em 2026. A palavra “robôs” descreve os personagens construídos, não máquinas eletrônicas autônomas. A escolha é importante: rostos, braços e acessórios feitos de descartes tornam o reaproveitamento fácil de reconhecer. Em vez de esconder a origem das peças, a obra permite localizar uma tampa ou um pedaço de fio e perguntar por que aquilo apareceu numa praia ou numa caçamba.

Tampinhas, fios e madeiras descartadas ganham novas funções através da arte.
Tampinhas, fios e madeiras descartadas ganham novas funções através da arte.Imagem gerada por inteligência artificial

Por que a arte chegou às escolas de Itapema?

As esculturas abriram uma possibilidade educativa. Em parceria com a Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema e a Secretaria Municipal de Educação, a iniciativa passou a oferecer oficinas aos estudantes da cidade. As crianças não recebem apenas uma explicação abstrata sobre reciclagem: papelão, embalagens e tampinhas tornam-se peças de um robô ou de um brinquedo. Ao escolher, montar e discutir os componentes, elas participam de uma decisão concreta sobre o destino de cada material.

Essa passagem da obra pronta para a oficina muda também o papel da artista. Mônica mantém a proposta visual, mas deixa espaço para que os alunos descubram soluções próprias e percebam que o mesmo resíduo admite usos diferentes. A experiência se aproxima da educação ambiental baseada em participação: a atividade funciona melhor quando o problema de descarte pode ser observado na rotina, em vez de parecer um conceito distante do bairro ou da escola.

O que as crianças aprendem ao montar um robô?

Uma tampinha ganha um lugar numa figura, mas antes precisa ser identificada, separada e comparada a outras peças. O processo convida a olhar de novo para objetos conhecidos e a perguntar quanto tempo eles seriam usados antes de ir para o lixo. Também mostra que reaproveitar exige cuidado com limpeza, bordas e adequação do material à idade dos participantes; não basta levar todo resíduo diretamente para a sala de aula.

O projeto desenvolveu ainda a cartilha Robôs Adoráveis e a Missão Contra o Lixo, produzida em papel reciclado. O material prolonga a conversa depois da oficina, quando o estudante volta para casa e encontra embalagens semelhantes na própria rotina. A ideia não é sugerir que toda sobra de obra vire brinquedo, mas mostrar a diferença entre reduzir descarte, separar corretamente o que não será usado e recuperar materiais seguros para uma nova função.

O que mudou quando a coleta virou projeto coletivo?

No começo, Mônica recolhia aquilo que via no trabalho ou nas caminhadas. Com as oficinas, a história de uma peça passou a incluir quem a encontrava, quem a transformava e quem explicava sua origem a outra pessoa. O objeto artístico tornou-se uma maneira de conversar sobre consumo e descarte. Outras iniciativas de aprendizagem com materiais descartados partem de objetos familiares, mas o aspecto distintivo aqui está na participação das crianças.

A mudança de escala não apaga a origem do projeto: os resíduos continuam sendo encontrados em lugares reais, com problemas reais de limpeza e destinação. Um robô não resolve sozinho a geração de entulho nem a poluição das praias. Ele funciona como ponto de partida para enxergar esses problemas e discutir escolhas possíveis. Ao entrar na escola, o objeto que seria descartado ajuda a transformar uma observação individual em prática compartilhada.

Qual é o destino mais valioso desses robôs?

As esculturas têm valor pela forma e pela criatividade de Mônica, mas sua trajetória mostra outra possibilidade: uma criança pode lembrar da tampinha usada na oficina ao encontrar outra no chão da praia. A ligação entre objeto e origem torna a mensagem menos abstrata. A peça não é apenas uma decoração com aparência de máquina; é também uma pergunta sobre o que fazemos depois de usar algo por alguns minutos.

O trabalho de Mônica não substitui coleta seletiva, redução de resíduos ou políticas públicas de gestão do lixo. Ele aproxima essas questões da vida cotidiana ao mostrar, com materiais reconhecíveis, o caminho entre descarte e criação. O robô começa com uma sobra que alguém não quis levar e termina como uma peça que convida outra pessoa a olhar para a próxima sobra antes de deixá-la para trás.