As cabras selvagens invadiram as Ilhas Galápagos, devastaram a vegetação nativa e ameaçaram a extinção das tartarugas-gigantes, mas sua população foi reduzida em 90% no primeiro ano de caça aérea, embora vestígios ainda exigissem monitoramento por anos

As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva.

As cabras selvagens introduzidas nas Ilhas Galápagos encontraram alimento abundante e praticamente nenhum predador natural. A rápida multiplicação transformou áreas de floresta e vegetação rasteira, reduziu a disponibilidade de plantas para as tartarugas-gigantes e levou à criação de uma das maiores operações de restauração de ilhas já realizadas.

As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva.
As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva. - Imagem gerada por IA

Como as cabras selvagens transformaram o ecossistema?

Navegadores, colonizadores e moradores levaram cabras para diferentes ilhas durante os séculos 19 e 20, principalmente como fonte de carne em futuras viagens. Parte desses animais escapou ou foi abandonada, formando populações livres em um arquipélago de origem vulcânica conhecido pelo elevado número de espécies endêmicas.

Sem controle natural, os rebanhos cresceram e passaram a consumir folhas, arbustos, brotos e cascas. O pastoreio intenso impediu a regeneração da vegetação nativa, deixou trechos de solo expostos à erosão e alterou abrigos utilizados por répteis, aves e invertebrados.

  • Consumo constante de brotos e plantas jovens;
  • Destruição de arbustos usados como alimento e abrigo;
  • Compactação do solo pela passagem dos rebanhos;
  • Aumento da erosão em encostas e áreas secas;
  • Competição direta com animais herbívoros nativos.

Por que as tartarugas-gigantes ficaram ameaçadas?

As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva. Quando as cabras consumiam essa vegetação antes que ela pudesse se recuperar, as tartarugas encontravam menos alimento, sombra e locais adequados para circular entre as partes altas e baixas das ilhas.

  • Menor oferta de alimento durante a estação seca;
  • Perda de sombra em áreas expostas ao sol;
  • Alteração das rotas usadas para buscar água e plantas;
  • Redução da cobertura vegetal próxima aos locais de reprodução.

A estratégia do Projeto Isabela

O Projeto Isabela começou a ser estruturado em 1997 por equipes de conservação e pelo parque nacional. A missão era eliminar cabras, porcos e burros introduzidos em Pinta, Santiago e no norte de Isabela, permitindo que processos naturais voltassem a ocorrer sem a pressão desses grandes mamíferos.

Guardas-parques receberam treinamento especializado, enquanto mapas, sistemas de posicionamento e registros de campo ajudavam a localizar os rebanhos. A operação combinou caçadas terrestres, voos de helicóptero e monitoramento contínuo, pois retirar os primeiros grupos era mais simples do que encontrar os últimos animais escondidos em terrenos vulcânicos.

As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva.
As tartarugas-gigantes dependem de cactos, folhas, gramíneas e outras plantas para atravessar os períodos de menor chuva. - Imagem gerada por IA

Como a caça aérea reduziu a população tão rapidamente?

A caça aérea permitia localizar e alcançar grupos de cabras selvagens em áreas extensas, íngremes e afastadas. Helicópteros conduziam equipes treinadas sobre o terreno, reduzindo aproximadamente 90% da população durante a fase inicial da operação. Ao longo do Projeto Isabela, cerca de 150 mil cabras foram eliminadas das ilhas envolvidas.

  • Helicópteros para cobrir grandes extensões em menos tempo;
  • Mapeamento das áreas já percorridas pelas equipes;
  • Rádios e sistemas de localização para coordenar os guardas;
  • Cabras rastreadoras usadas para encontrar pequenos grupos restantes;
  • Vistorias repetidas após o desaparecimento dos rebanhos visíveis.

O que aconteceu após a erradicação?

Em 2006, Pinta, Santiago e o norte de Isabela foram declarados livres dos grandes mamíferos introduzidos que eram alvo da operação. Mesmo assim, o trabalho não terminou com a retirada do último rebanho: equipes continuaram procurando pegadas, fezes, trilhas e outros sinais que pudessem indicar a sobrevivência de alguma cabra.

Com a redução da pressão sobre as plantas, a vegetação nativa começou a ocupar novamente áreas degradadas e recuperou parte de sua função como alimento e abrigo. Essa restauração ecológica também abriu caminho para iniciativas como o retorno de tartarugas-gigantes à ilha Floreana, mostrando que remover espécies invasoras é apenas uma das etapas necessárias para reconstruir o equilíbrio das Ilhas Galápagos.