Casal desempregado de Foz do Iguaçu começou em 2020 uma casa de garrafas; quatro anos depois, ela tinha 20 mil e 85 m²

Garrafas de 600 ml substituíram tijolos nas paredes; até 2024 faltavam telhado, reboco e piso

Uma casa de garrafas de vidro começou a sair do chão em 2020 na Vila C, em Foz do Iguaçu (PR), pelas mãos de Dóris Dias e Robson Lopes. Sem emprego, o casal juntou mais de 10 mil garrafas em cinco meses e, em junho de 2024, a obra já somava cerca de 20 mil garrafas e 85 m², segundo o portal H2FOZ.

A história voltou a circular agora em outubro, depois de ser recontada por veículos da Argentina, como o Canal 26. Mas a casa é brasileira, fica num terreno cedido pelos pais de Dóris e, na última reportagem localizada, ainda não estava pronta.

O casal usou isopor entre as garrafas para segurar o reboco, segundo o H2FOZ – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
O casal usou isopor entre as garrafas para segurar o reboco, segundo o H2FOZ – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial

Quem são Dóris e Robson

Segundo o Canal 26, que retoma uma reportagem do UOL de 2020, Robson tinha perdido o emprego de repositor num supermercado quando a obra começou, em abril de 2020. Dóris, educadora social, estava afastada do trabalho por problemas de saúde. Em 2024, o H2FOZ descreveu Dóris como mãe social e contou que o marido fazia bicos em outra cidade.

Os dois se casaram no fim de 2019. Com as contas apertadas, Dóris decorou a festa com materiais recicláveis e depois percebeu que tinha sobrado uma montanha de garrafas. Foi pesquisar o que fazer com elas e, segundo o H2FOZ, encontrou casas feitas com garrafas no lugar de tijolos na Argentina e em Santa Catarina.

A ideia pegou porque o casal pagava aluguel. Familiares, amigos e vizinhos passaram a doar vasilhames, e uma vaquinha ajudou a comprar o resto do material.

Como as garrafas viram parede

De acordo com o relato reproduzido pelo Canal 26, as paredes externas foram levantadas com garrafas de 600 ml, assentadas com cimento e areia no lugar de parte dos tijolos. As garrafas menores ficaram para as divisórias internas, e a estrutura leva ferro e outros materiais comuns de obra.

Até setembro de 2020, segundo a mesma reportagem, o investimento somava cerca de R$ 3 mil. O valor total da construção não foi divulgado.

O H2FOZ acrescenta um detalhe técnico: o casal usou isopor para preencher os espaços entre as garrafas e segurar o reboco. Ou seja, quando a casa estiver terminada, a maior parte das garrafas deve ficar escondida sob a massa, e não aparente como nas fotos de paredes coloridas que circulam na internet.

Garrafa na parede deixa a casa mais fresca?

Não há medição de temperatura ou de luz feita nesta casa. As reportagens não dizem nada sobre conforto térmico, e seria exagero prometer isso.

O que existe de pesquisa por perto é outro tipo de uso. Na própria Foz do Iguaçu, pesquisadores da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) testaram, em 2015, garrafas PET como entrada de luz natural em pequenos modelos de isopor. Segundo o estudo, apresentado no encontro latino-americano e europeu de edificações sustentáveis Euro-ELECS, em 2019, a iluminação interna variou de 227 a 3.560 lux com a garrafa no topo, sem aumento da temperatura dentro do modelo.

É um resultado sobre claraboias de PET, não sobre paredes de vidro. Mas mostra que reaproveitar garrafa na construção tem estudo sério no Brasil, desde que cada técnica seja testada para o que promete. No caso do plástico, por exemplo, o material precisa ficar protegido do sol e do fogo.

O que ainda falta para a casa ficar pronta

Em junho de 2024, segundo o H2FOZ, a casa já tinha estrutura para água, rede elétrica e esgoto, mas faltavam a cobertura, o reboco e o piso. O projeto prevê suíte, mais um quarto, banheiro, sala conjugada com cozinha, lavanderia e garagem.

Na época, Dóris se recuperava de uma cirurgia na casa da mãe e dizia que não precisava mais de garrafas, e sim de cimento, areia, cal, cerâmica, madeira para o telhado, janela, porta, vaso sanitário e pedra. “Eu quero muito terminar essa casa, para entrar nela e morar”, afirmou ao portal.

Ela também pediu doações, mesmo de material usado: “Meio saco de cal talvez não sirva para quem terminou uma obra, para nós será um presente!”.

Uma obra que virou vitrine de reciclagem

O plano de Dóris é abrir a casa para visitas depois de pronta, para inspirar outras famílias a reaproveitar materiais. Só ali, segundo o H2FOZ, 20 mil garrafas deixaram de virar lixo ou criadouro de mosquito.

Não encontramos notícia mais recente sobre o andamento da obra depois de junho de 2024. A persistência do casal impressiona: quatro anos depois da primeira garrafa, a obra seguia de pé como projeto e como pedido de ajuda. Ideias parecidas aparecem em outros cantos do mundo, como a do casal que ergueu uma casa de terra batida e garrafas de vidro na Tasmânia.