Casarões coloridos, ladeiras de pedra e um bairro que estava em ruínas antes de ser restaurado: o centro histórico nordestino que é Patrimônio Mundial desde 1985

Por trás das fachadas vibrantes, há uma história de abandono e disputas.

O Pelourinho, em Salvador, junta ladeiras de paralelepípedo, igrejas barrocas e casarões pintados de azul, amarelo e rosa. Por isso é parada obrigatória em qualquer roteiro pela Bahia. Pouca gente que passa por ali sabe que esse cartão-postal esteve em ruínas por décadas antes de virar destino de turistas do mundo inteiro.

Como o Pelourinho virou Patrimônio Mundial da Unesco

A Unesco incluiu o Centro Histórico de Salvador na lista do Patrimônio Mundial em 1985, como registra a página oficial do Centro de Patrimônio Mundial da Unesco. Um ano antes, o Iphan havia tombado uma área de cerca de 80 hectares. O título leva em conta os monumentos erguidos entre os séculos XVI e XIX na cidade que foi a primeira capital do Brasil.

O nome Pelourinho guarda uma memória dura. O pelourinho era a coluna onde pessoas escravizadas eram açoitadas em público. Esse passado ajuda a explicar por que o bairro se tornou um dos maiores polos da cultura afro-brasileira, que aparece na música, na culinária e nos terreiros.

A saída do comércio e dos serviços a partir dos anos 1950 agravou a deterioração dos sobrados – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
A saída do comércio e dos serviços a partir dos anos 1950 agravou a deterioração dos sobrados – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial - Catraca Livre

Por que o centro antigo de Salvador chegou à beira da ruína?

A decadência começou cedo. Em 1933, a antiga Igreja da Sé e quatro quarteirões de prédios coloniais foram demolidos. A partir dos anos 1950, o comércio e os serviços foram para outras regiões da cidade. Os sobrados viraram cortiços, muitos perderam telhado e reboco, e as ruas de pedra passaram a ser vistas como área degradada.

A Igreja de São Francisco se destaca pela riqueza da talha dourada em seu interior – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial
A Igreja de São Francisco se destaca pela riqueza da talha dourada em seu interior – Imagem ilustrativa criada por inteligência artificial - Catraca Livre

A restauração que devolveu cor aos casarões

A virada veio no início dos anos 1990, quando o governo da Bahia começou a recuperar quarteirões inteiros. Mais de 800 imóveis tiveram as fachadas e os interiores restaurados. Muitos viraram pousadas, museus, centros culturais, restaurantes e lojas de artesanato.

A obra mudou o bairro de várias formas, e nem todas foram vistas como positivas por quem morava ali:

  • ruas mais seguras e movimento constante de visitantes brasileiros e estrangeiros;
  • novos empregos em hospedagem, gastronomia e comércio de lembranças;
  • saída forçada de famílias que viviam nos sobrados havia gerações, um debate que continua aceso entre moradores e pesquisadores;
  • mais visibilidade internacional para o selo da Unesco, que passou a aparecer em guias de viagem do mundo todo.

O que visitar entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa?

O casario tombado fica na Cidade Alta, ligada à Cidade Baixa pelo Elevador Lacerda. Dá para conhecer as principais atrações em um dia de caminhada sem pressa:

  • Igreja e Convento de São Francisco, um dos exemplos mais ricos do barroco brasileiro, com o interior coberto de talha dourada;
  • Terreiro de Jesus, praça cercada pela Catedral Basílica e por outras igrejas do período colonial;
  • Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, ligada às irmandades negras da cidade;
  • Fundação Casa de Jorge Amado, no casarão azul do Largo do Pelourinho;
  • ensaios do Olodum, grupo que gravou com Michael Jackson o clipe de “They Don’t Care About Us” na mesma praça, em 1996.

Um passeio pela Bahia colonial que pede calma e tênis confortável

As ladeiras de pedra são íngremes e escorregam com chuva. Troque a sandália por um tênis com boa aderência e leve garrafa de água, porque o sol do meio-dia castiga quem sobe da Praça da Sé até o Carmo. Quem chega cedo fotografa as fachadas sem multidão. As praças costumam receber apresentações musicais, então confira a programação nos canais oficiais antes de ir.

Reserve um dia inteiro para o bairro e desça de elevador até o Mercado Modelo, na Cidade Baixa, para fechar o passeio. Assim a viagem a Salvador junta o casario restaurado, a herança africana reconhecida pela Unesco e o pôr do sol sobre a Baía de Todos-os-Santos no mesmo roteiro.