Chimpanzés foram vistos colocando insetos em feridas próprias e até tratando machucados de outros animais do grupo
Cientistas observaram chimpanzés colocando insetos em feridas próprias e de companheiros, comportamento cuja eficácia ainda é investigada.
Um chimpanzé pega um inseto, leva-o à boca e o pressiona contra um ferimento na própria pele. Em outra cena observada na natureza, o gesto é dirigido a uma companheira machucada. A sequência intrigou pesquisadores que acompanham primatas selvagens no Gabão: por que usar aquele pequeno animal justamente sobre uma ferida? O registro é real, mas a explicação ainda está aberta. Não se demonstrou que os insetos tenham efeito medicinal, e chamar o comportamento de tratamento não significa que o chimpanzé conheça microbiologia. As observações, mesmo assim, revelam uma forma incomum de cuidado consigo e com outros membros do grupo.

O que foi visto entre os chimpanzés?
Uma pesquisa publicada em 2022 na Current Biology descreveu aplicações de insetos em feridas de chimpanzés da comunidade de Rekambo, no Parque Nacional de Loango. Os pesquisadores registraram 19 episódios em que um indivíduo aplicou inseto no próprio ferimento e três voltados a outro chimpanzé. O animal capturava o inseto, manipulava-o e o colocava na área lesionada, às vezes retirando-o em seguida.
O detalhe que mudou a conversa científica foi o cuidado dirigido a outro indivíduo. Uma mãe tratou o ferimento do filhote; também houve aplicações entre adultos. O padrão chamou atenção porque o chimpanzé poderia simplesmente cuidar de si. Estudos sobre cuidados de chimpanzés com ferimentos mostram que vale observar essas ações com cautela, sem atribuir uma intenção humana a cada gesto.

Os insetos realmente ajudam a cicatrizar?
Essa é uma hipótese a ser testada. Alguns insetos podem conter compostos biologicamente ativos, mas os episódios observados não identificam por si sós qual substância entrou em contato com a ferida nem provam melhora clínica. Seria preciso saber exatamente quais espécies foram usadas e comparar resultados de cicatrização em condições apropriadas. O simples fato de um animal repetir a ação não basta para demonstrar eficácia.
Uma pesquisa posterior em outra população de chimpanzés da África Oriental registrou comportamento semelhante, ampliando a questão geográfica. Ainda assim, as observações continuam diferentes de um experimento que confirme benefício. A curiosidade científica cresce justamente onde termina a certeza: selecionar insetos teria uma função prática, seria aprendido socialmente ou poderia ter outra explicação?
- Aplicações nas próprias feridas.
- Aplicações em feridas de companheiros.
- Efeito medicinal ainda não demonstrado.
O que significa cuidar do machucado de outro animal?
Colocar um inseto na ferida de uma companheira consome tempo e atenção sem benefício imediato evidente para quem faz o gesto. Por isso, os episódios interessam a quem estuda comportamento social e ajuda entre primatas. Mas não é possível ler a motivação interna do animal a partir de poucas cenas. Parentesco, vínculos anteriores e oportunidades de observação precisam ser considerados.
O registro em vídeo permite acompanhar a sequência real e conferir detalhes que palavras resumem mal. Ele mostra a manipulação do inseto no contexto da ferida, sem resolver a pergunta sobre suas propriedades. Uma boa leitura mantém separadas a ação observada, a hipótese de cuidado e uma eventual demonstração de efeito medicinal.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube WATOP PT, que apresenta a observação de chimpanzés aplicando insetos em ferimentos:
https://www.youtube.com/watch?v=NoqwXSPpUew
Como os chimpanzés podem aprender esse gesto?
Uma possibilidade é a experiência individual: um animal experimenta uma ação e volta a repeti-la. Outra é a observação de companheiros, especialmente em grupos que convivem durante anos. Também é possível que diferentes populações desenvolvam formas parecidas de lidar com ferimentos sem compartilhar um único aprendizado. As pesquisas atuais oferecem pistas, não uma história completa de origem.
Conhecer o comportamento exige paciência de campo. Ferimentos e aplicações não acontecem sob demanda, e a equipe precisa distinguir a manipulação intencional de um inseto de um contato acidental. A identificação de cada indivíduo e o registro de suas relações ajudam a evitar interpretações apressadas. É assim que poucos segundos de gravação podem iniciar anos de perguntas.
O que essa descoberta ensina sobre cuidado animal?
Ela amplia o repertório de ações observadas em chimpanzés selvagens. O interesse não depende de provar que inventaram uma farmácia natural nem de chamar toda aproximação de empatia. Basta observar que insetos foram colocados em feridas próprias e alheias, um comportamento documentado em circunstâncias específicas e ainda pouco compreendido.
Ao rever a cena, o olhar pode se prender ao inseto minúsculo entre os dedos. Para os pesquisadores, importam também o indivíduo ferido, quem se aproximou e o que aconteceu depois. Cada detalhe permite formular uma pergunta testável. O mistério continua fascinante porque a imagem é clara, enquanto seu significado permanece em investigação.