Cidade maia com 6.764 estruturas ficou escondida em dados ambientais até ser encontrada quase por acaso

Dados LiDAR antigos revelaram 6.764 estruturas em Campeche e um grande centro maia chamado Valeriana, oculto sob a floresta mexicana.

Os arqueólogos não precisaram entrar primeiro na selva para perceber que havia uma cidade maia ali. O ponto de partida foi um conjunto de dados LiDAR produzido para estudos ambientais em Campeche, no México. Ao reanalisar aquelas nuvens de pontos, pesquisadores localizaram 6.764 estruturas em três blocos de levantamento e, dentro deles, um grande centro urbano batizado de Valeriana.

Luke Auld-Thomas e colegas procuravam levantamentos LiDAR já existentes em vez de encomendar um voo arqueológico caro.
Luke Auld-Thomas e colegas procuravam levantamentos LiDAR já existentes em vez de encomendar um voo arqueológico caro.Imagem gerada por inteligência artificial

Como uma cidade inteira apareceu dentro de dados antigos?

Luke Auld-Thomas e colegas procuravam levantamentos LiDAR já existentes em vez de encomendar um voo arqueológico caro. Encontraram dados coletados em 2013 por um projeto de monitoramento ambiental e florestal. O material cobria uma área que não havia sido analisada sistematicamente com foco em arqueologia maia.

LiDAR mede o tempo que pulsos de laser levam para retornar ao sensor e permite modelar a superfície do terreno. Com processamento, parte do efeito visual da vegetação pode ser removida e pequenas variações de relevo aparecem. Em florestas tropicais, isso revela plataformas, terraços, estradas e edifícios que o dossel esconde numa fotografia comum.

Dados LiDAR revelaram uma grande cidade maia escondida sob a floresta.
Dados LiDAR revelaram uma grande cidade maia escondida sob a floresta. - Créditos: Imagem criada por IA.

O que significa o número de 6.764 estruturas?

Esse total corresponde às estruturas identificadas nos três blocos analisados pelo estudo, não exclusivamente à cidade de Valeriana. A densidade média do conjunto foi de 55,3 estruturas por quilômetro quadrado, confirmando que mesmo áreas consideradas pouco estudadas de Campeche abrigavam uma paisagem pré-hispânica intensamente ocupada.

Valeriana é o grande centro localizado no chamado bloco 2. O assentamento ocupa cerca de 16,6 quilômetros quadrados e apresenta dois núcleos monumentais separados por aproximadamente dois quilômetros, conectados por ocupação densa e modificações da paisagem.

O que apareceu no mapa de Valeriana?

Os dados mostraram praças fechadas, pirâmides-templo, um jogo de bola, reservatório formado pelo represamento de um curso d’água e calçadas ou vias elevadas. Um conjunto arquitetônico do tipo E-Group sugere que a fundação monumental do centro pode remontar a antes de 150 d.C., embora grande parte da ocupação esteja associada ao período Clássico maia.

O inventário impressiona justamente porque foi feito sem escavar cada edifício:

  • Pirâmides-templo e praças fechadas formam os núcleos monumentais.
  • Um campo para o jogo de bola aparece associado ao centro cerimonial.
  • Calçadas e áreas residenciais conectam partes do assentamento.
  • Um reservatório e outras modificações mostram manejo da água e da paisagem.
  • O total de 6.764 estruturas pertence aos três blocos do estudo, não apenas a Valeriana.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube BBC News Brasil que apresenta a descoberta de uma enorme cidade maia localizada por meio de dados de mapeamento a laser:

Por que a descoberta muda a ideia de uma floresta cheia de espaços vazios?

O artigo na revista Antiquity foi provocativamente intitulado “Running out of empty space”. A ideia é que áreas sem grandes sítios registrados podem estar vazias apenas nos mapas arqueológicos. Quando levantamentos mais amplos são analisados, surgem centros, bairros residenciais, áreas agrícolas e infraestrutura entre localidades já conhecidas.

Isso reforça uma visão de Campeche como paisagem densamente manejada, com assentamentos de escalas variadas. O LiDAR não substitui escavação, mas muda onde os pesquisadores decidem caminhar, medir e abrir unidades de campo, porque transforma quilômetros de floresta numa espécie de mapa de prioridades.

O que ainda precisa ser confirmado no terreno?

Forma vista por laser não revela automaticamente idade, função ou história de cada estrutura. Cerâmica, escavação, datação e reconhecimento de superfície são necessários para saber quando diferentes setores foram ocupados e como se relacionavam. O Instituto Nacional de Antropologia e História do México destacou a necessidade de reconhecimento e conservação do sítio.

Por isso, Valeriana é menos uma “cidade encontrada pronta” do que o começo de um novo programa de pesquisa. Os edifícios estavam no solo havia séculos; a descoberta aconteceu quando alguém percebeu que um arquivo criado para estudar a floresta também podia ser lido como um mapa de uma sociedade antiga.