Cientistas abriram uma gaveta de museu e encontraram uma rã da Era do Gelo esquecida por milhares de anos
Um pequeno osso ignorado por décadas revelou uma espécie extinta e mostrou por que antigas coleções de museus ainda escondem grandes descobertas.
Durante mais de 70 anos, pequenos ossos retirados dos famosos poços de asfalto de La Brea ficaram guardados em uma coleção científica sem chamar tanta atenção quanto mamutes e tigres-dentes-de-sabre. Quando o paleontólogo Alberto Cruz resolveu examiná-los novamente, encontrou algo inesperado: uma espécie desconhecida de anfíbio da Era do Gelo, agora chamada Spea labreae.

Como uma espécie desconhecida ficou escondida por décadas?
Cruz não estava procurando uma nova espécie quando começou a revisar os anfíbios e répteis preservados nas coleções de La Brea. Um dos ossos apresentava características incomuns e, inicialmente, ele imaginou que as diferenças poderiam ser resultado de uma doença ou lesão sofrida pelo animal, e não de uma espécie desconhecida.
Depois de comparar repetidamente o material com sapos-de-espora conhecidos, porém, essa explicação perdeu força. Cruz contou que revisou muitos espécimes até se convencer da descoberta. O estudo de J. Alberto Cruz e Emily Lindsey foi publicado em 2026 no Journal of Vertebrate Paleontology e descreveu oficialmente a espécie Spea labreae.

O que um único osso conseguiu revelar?
O holótipo, exemplar usado como referência para definir a espécie, inclui um fragmento do sacro-urostilo, região do esqueleto próxima à base da coluna. Parece pouco, mas determinados formatos ósseos permitem comparações detalhadas. Os pesquisadores também analisaram outros exemplares para verificar se aquelas diferenças apareciam repetidamente.
- O material havia permanecido em coleções científicas durante décadas antes de ser reconhecido como uma nova espécie.
- A espécie recebeu o nome Spea labreae em referência ao famoso sítio fossilífero de La Brea.
- O estudo comparou os fósseis com exemplares modernos para confirmar diferenças anatômicas consistentes.
- A descoberta representa a primeira espécie extinta de anfíbio descrita a partir dos fósseis de Rancho La Brea.
O achado é especialmente raro porque esqueletos de rãs, sapos e salamandras são delicados e frequentemente não sobrevivem ao processo de fossilização. Segundo o próprio La Brea Tar Pits, depósitos asfálticos oferecem condições excepcionais para preservar restos pequenos que normalmente desapareceriam do registro fóssil.
Por que uma pequena rã interessa tanto aos cientistas?
Grandes mamíferos podem dominar as reconstruções da Era do Gelo, mas anfíbios fornecem outro tipo de informação. Como são muito sensíveis a temperatura, disponibilidade de água e mudanças na vegetação, sua presença ou ausência ajuda paleontólogos a investigar como eram os ambientes em que viveram.
Cruz explicou que alterações ambientais capazes de mudar vegetação e clima afetam esses animais diretamente. Por isso, Spea labreae pode ajudar a reconstruir transformações ocorridas no sul da Califórnia no final do Pleistoceno. O estudo analisou justamente como mudanças climáticas e geográficas influenciaram a distribuição desses anfíbios.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube 9NEWS anunciando a descoberta da nova espécie.
Outra surpresa apareceu na mesma coleção?
A revisão também identificou fósseis do gênero Rhinophrynus, o sapo-escavador mexicano, em La Brea. O detalhe curioso é que representantes desse grupo não vivem atualmente na região de Los Angeles. Segundo o museu, suas populações atuais ficam cerca de 2.500 quilômetros mais ao sul, mostrando como a distribuição dos animais mudou.
Essa diferença geográfica fornece uma pista importante sobre transformações ambientais depois da Era do Gelo. O artigo científico conclui que mudanças de clima durante a deglaciação, combinadas à geografia do sudoeste norte-americano, provavelmente contribuíram para alterar a distribuição desses grupos ao longo de milhares de anos.
Quantas descobertas ainda podem estar nas gavetas?
La Brea é estudada há mais de um século e reúne a maior coleção conhecida de fósseis asfálticos do fim do Pleistoceno. Ainda assim, Emily Lindsey, curadora e diretora de escavações do centro de pesquisas do local, destacou que novas descobertas continuam surgindo. Para ela, o caso mostra claramente que ainda há muito a ser encontrado.
A história de Spea labreae mostra que uma descoberta paleontológica nem sempre começa com uma nova escavação. Às vezes, o próximo animal desconhecido já está catalogado dentro de um museu, esperando alguém fazer a pergunta certa. Vale acompanhar essas antigas coleções, porque uma pequena gaveta pode guardar uma espécie perdida por milhares de anos.